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Abertura do 53º MedTrop destaca os desafios do controle de doenças negligenciadas

Capacidade de articulação do Brasil na epidemia de Zika foi citada ao tempo em que ações para o enfrentamento da febre amarela foram cobradas

28/08/2017

width=450O tropicalista e diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis (Devit) do Ministério da Saúde, João Paulo Toledo enalteceu durante a cerimônia de abertura do 53º MedTrop a ligação afetiva com todas as doenças tropicais. “E tal é essa paixão que move a pensar novas estratégias para integrar vigilância e assistência, em protocolo de Doença de Chagas, enfrentamento de leishmanioses, novos antimaláricos. Em suma: pensar novas formas de controle de doenças negligenciadas de maneira global”, disse ao complementar que aqui em Cuiabá, nesta cidade que mescla o alagamento do Pantanal, as florestas da Amazônia e os campos do cerrado, discutimos velhos problemas sob novas abordagens.

Ainda segundo ele, a capital mato-grossense é um lugar ideal para pensar e repensar as interferências no ambiente e os desafios que trazem as doenças nos campos e nas cidades. “Nós, os tropicalistas, sempre acreditamos nas novas possibilidades de controle dessas doenças. Por isso é importante citar a frase de Oswaldo Cruz, que ‘não podemos esmorecer para não desmerecer’. Oswaldo Cruz, cujos 100 anos de morte são lembrados neste ano de 2017, foi vanguardista ao relacionar acúmulo de água parada à reprodução do mosquito transmissor de febre amarela já no início do século XX. No entanto, ainda recentemente surto de febre amarela nos assombrou em algumas regiões do País”, completou ao salientar que desafios como aceitar o diagnóstico de hanseníase em crianças com menos de cinco anos em grandes centros urbanos ou de tuberculose em populações vulneráveis, uma geração de crianças com microcefalia e outras complicações neurológicas continuam, mas servem como incentivo a pensar novas estratégias para integrar vigilância e assistência, enfrentamento e busca de novos medicamentos.

A doutora Hiro Goto, coordenadora da Reunião ChagasLeish 2017, enfatizou que no momento atual, século XXI, ainda tratam-se casos de Leishmaniose Cutânea de evolução crônica e Leishmaniose Mucosa sem diagnóstico de certeza. “E como agravante, tratam-se com medicamentos de certa forma obsoletos, desenvolvidos no início do século passado, antimoniais pentavalentes, altamente tóxicos e com efeitos colaterais sérios, indesejáveis. Temos ainda, em relação a diagnóstico e tratamento, esse grupo específico de pacientes com coinfecção HIV-Leishmania onde as medidas utilizadas em leishmanioses sem infecção não tem a mesma eficácia.”, ponderou.

Na área de doença de Chagas, a transmissão vetorial do seu agente etiológico Trypanosoma cruzi está bem controlada, mas ocorrem outras formas de transmissão, como a oral e transfusional. “Convém ressaltar aqui que a o controle da transmissão vetorial foi fruto de discussões e pesquisas geradas por pesquisadores que iniciaram a Reunião de Pesquisa Aplicada em Doença de Chagas há mais de três décadas”, observou.

width=450Se por um lado, o grande progresso tenha sido atingido no controle da transmissão da doença de Chagas, o problema dos indivíduos infectados no passado continua. Como a infecção persiste ao longo da vida, temos milhões de pessoas infectadas que podem, a qualquer momento, desenvolver as manifestações crônicas da doença, afetando sua capacidade laboral, inserção social e qualidade de vida. Apesar da existência da resposta imune ao parasito, os indivíduos infectados não conseguem eliminar definitivamente o parasito do seu organismo o que é uma questão a que, apesar de anos de estudo, não temos uma resposta e que permita uma sugestão de intervenção terapêutica.

O presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) doutor Marcus Lacerda, rememorou a importância histórica de Cuiabá em doenças infecciosas. “Ela foi a cidade que mais perdeu pessoas com varíola após a Guerra do Paraguai e hoje tem uma das balanças comerciais mais favoráveis do País. E isso gera desigualdades sociais. Logo, o tema escolhido para este MedTrop “Ambiente e Doenças Tropicais: desafios para campos e cidades” está sendo discutido no local mais apropriado. São as relações de poder, relações sociais e relações que geram, em última análise, as doenças tropicais”, disse. Ele também lembrou a população negligenciada brasileira, maior vitima do que se discute aqui.

Já a doutora Marcia Hueb, presidente do Congresso ressaltou a dimensão do desafio de organizar o MedTrop, um evento com uma programação composta de mais de 40 mesas, quase uma dezena de conferências, além de 33 sessões de temas livres e tanto outros que compõem esse grande congresso. Ela destacou ainda a inovação do App e do E-poster; em que os trabalhos e os pôsteres ficam disponíveis durante todo o evento. “Espero que o aqui apresentado e discutido seja motivo de inspiração aos mais jovens, aqueles que virão e amanhã estarão coordenando, fazendo existir nosso Medtrop. São muitos hoje, espero que sejam mais amanhã”, incentivou.

A capacidade de articulação do Brasil na epidemia de Zika que recebeu financiamento expressivo também foi citada na cerimônia de abertura ao tempo em que ações para o enfrentamento da febre amarela foram cobradas.…