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Interesse no controle da dengue pode vir quando atingir igualmente ricos e pobres, ironiza entomólogo

Para especialista, pouca atenção continua a ser dada ao saneamento básico, à educação e às necessidades da população, preocupada em sobreviver em nosso País

10/03/2016
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Dr. Marcondes avalia que o A. aegypti aproveita a desorganização das cidades brasileiras, como o fornecimento precário de água potável e a grande produção e dispersão de lixo, para proliferar

O entomólogo Carlos Brisola Marcondes acredita que, em relação ao controle do mosquito Aedes aegypti, o Brasil continua “enxugando gelo” – ou seja, adotando apenas ações paliativas em relação ao problema. Sem meias palavras, o pesquisador acredita o aumento do interesse do controle desse inseto só ocorrerá quando a dengue atingir igualmente pobres e ricos.

“A grande esperança para que se proceda algum dia ao controle é que a dengue atinja quase igualmente o povão e os moradores de Elysium (local fictício onde vive uma população rica retratada no filme homônimo), o que pode aumentar o interesse no controle”, afirma o pesquisador.

A preocupação com o controle da doença tem seus porquês, uma vez que os números mostram um cuidado menor com esse fator ao longo dos anos.

“Assisti, em 1996, ao lançamento, pelo então ministro da Saúde Adib Jatene, uma campanha abrangente contra o mosquito, que incluía o tratamento adequado do lixo e mil outras medidas. Lembro-me de ter saído da Embratel, onde vi a apresentação, balançando a cabeça, por não acreditar que isto fosse realmente feito a sério. A seguir, o ministro foi trocado, o controle foi rebaixado de status, pouco se fez, e se passou de cerca de 200 mil casos por ano para 1,6 milhão atualmente”, critica o doutor Marcondes.

Ele avalia que o A. aegypti aproveita a desorganização das cidades brasileiras – como o fornecimento precário de água potável e a grande produção e dispersão de lixo – para proliferar. Segundo o entomólogo, as medidas de redução de criadouros, como pneus e garrafas, só podem surtir efeito se forem feitas de maneira extremamente eficiente. Isso porque as fêmeas do mosquito dispersam os ovos por vários criadouros e ampliam sua área de voo ao não encontrarem onde pô-los.

“Em resumo, continuamos a enxugar gelo, pois pouca atenção continua a ser dada ao saneamento básico, à educação e às necessidades da população, preocupada em sobreviver em nosso País tão injusto”, explica.

Doutor. Marcondes ressalta que em uma época em que só se fala de corte de gastos, é preciso ter sensatez quanto ao que cortar; milhões de pessoas dependem das medidas adequadas dos governos para manter a saúde. “É impossível fazer para alguns privilegiados o que propôs o Dr. King para a cidade de Washington, que foi rodeá-la por uma enorme tela para protegê-la dos mosquitos”, aponta.

Para o pesquisador, o controle do mosquito e das sérias doenças a que ele está ligado não pode continuar a ser feito na base de vamos esperar o incêndio começar para contratar e treinar os bombeiros. Ele argumenta que a cada ano se repete a rotina de pânico, seguido de sérias providências, que incluem contratar jovens inexperientes para andar de casa em casa, pôr o Exército na rua e a TV mostrar o lixo espalhado; então, a quantidade de casos diminui e se esquece o assunto até daí a alguns meses. “Pode ser feito controle deste modo irregular e improvisado?, questiona ao dizer que este tem que ser feito de forma organizada, e sem politicagem. “Convém lembrar que uma das exigências de Oswaldo Cruz ao presidente Rodrigues Alves foi que ele, um técnico experiente e sério, tivesse total poder sobre as nomeações e atividades da campanha. Será que depois disso, tal modo de agir foi mantido? Quem realmente sabe o que fazer tem tido sua opinião respeitada e poder para agir?, indaga o especialista.

O especialista alerta que convém observar como foram feitas as campanhas eficientes de controle de Anopheles gambiae e a erradicação do Aedes aegypti. “O Dr. F. L. Soper disse que só com governos autoritários pode-se controlar endemias. Não creio nisto, mas só com organização, continuidade e responsabilidade se controla alguma endemia”. frisa.

Mesmo novos métodos de controle precisam ser muito bem avaliados nos custos e eficiência, segundo o doutor Marcondes. Entre eles, mosquitos estéreis ou transgênicos e o uso da bactéria Wolbachia no combate ao mosquito.

Grande capacidade de adaptação

Um dos principais problemas no combate ao A. aegypti é a sua grande capacidade de adaptação, especialmente nos ambientes urbanos. “É difícil saber se ele tem se modificado nos últimos tempos ou se as oportunidades surgidas com o crescimento desordenado de nossas cidades têm lhe proporcionado condições de desenvolver todo seu potencial”, explica.

“Como exemplo de sua versatilidade, foi evidenciado em um estudo na região semiárida no norte de Minas Gerais que a proporção de ovos postos diretamente na água aumenta na época mais seca. Apesar de haver grande mortalidade nos ovos postos em superfícies, uma boa proporção sobrevive por vários meses, permitindo a eclosão e a proliferação tão logo comece a chover”, destaca o pesquisador.

O mosquito transmissor da dengue era originalmente adaptado ao ambiente silvestre, se desenvolvendo em suas formas imaturas principalmente em buracos em pedras.

Porém, a capacidade do inseto de resistir à falta de água por vários meses e a adaptabilidade a vários tipos de criadouros lhe permitiu acompanhar os humanos em seus deslocamentos, incluindo aqueles por navios. Com a intensificação do trânsito marítimo, principalmente a partir do final do século XV, foi certamente muito fácil o A. aegypti ser transportado para o continente americano em barris e outros recipientes para acúmulo de água, incluindo a proveniente de chuva.

O vírus da dengue, segundo o pesquisador, foi trazido da Ásia e se aproveitou da presença do mosquito nas Américas para se dispersar pelo continente.

Leitura recomendada:

Aedes aegypti (L.) The yellow fever mosquito: its life history, bionomics and structure, Cambridge University Press, 739 pp.