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Cidades tropicais: mau planejamento favorece adoecimento da populaçãoTropical cities: poor planning favors the population’s sickening

Será que as cidades tropicais são a causa de doenças? Matéria divulgada no The Guardian afirma que sim.Is it possible that tropical cities are the cause of certain diseases? An article published on The Guardian suggests it is.

29/04/2014

Doenças

Doenças como obesidade, diabetes e acidentes de trânsito, principalmente em motocicletas, têm aumentado muito, devido às más condições de vida nas cidades tropicais, com alto índice de pobreza e crescimento de favelas

Será que as cidades tropicais são a causa de doenças? Matéria divulgada no The Guardian afirma que sim. Na opinião do Dr. Carlos Brisola, professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (CCB) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), há muitos séculos, quando começaram a se formar as aglomerações, que depois formariam as cidades, aumentaram as chances de transmissão de várias doenças que dependem da proximidade entre as pessoas e das condições precárias de vida. “Essa proximidade aumenta as chances de ocorrência de várias enfermidades transmitidas por contato direto ou indireto (e.g., varíola, tuberculose), por fezes e outros detritos (bactérias, protozoários, vírus etc.) e envolvendo vetores mecânicos (moscas, baratas etc.) e biológicos, como a peste e o tifo exantemático”, explana o especialista concordando com a reportagem.

Para que haja alguma chance de reverter a situação, segundo Dr. Brisola, é preciso melhorar as condições de vida de toda a população, pois mesmo os que pensam estar livres do risco, por morarem em partes mais limpas da cidade, também estão expostos. “Isto fica evidente, por exemplo, na transmissão de dengue, em que o risco depende mais da quantidade de focos de mosquito que de esgoto, visto que os mosquitos gostam de água limpa e podem se deslocar de uma rua para outra”, observa ao atentar que somente com a melhora das condições de higiene e a compreensão das condições de transmissão das doenças poderão se reduzir os riscos.

Quanto aos trópicos, além da grande variedade de micróbios, vetores, hospedeiros naturais, reservatórios de vírus etc, a pobreza também aparece como fator de aparecimento e propagação de doenças, eventualmente potencializada por outros fatores, como a pobreza, o crescimento desordenado e demasiado das favelas, a fome, entre outros. Como exemplo, o professor cita a pandemia de peste negra, que matou milhões na Europa e Ásia no século XIV. Ele lembra que os habitantes se reuniam nas igrejas para rezar, aumentando a proximidade entre as pessoas e facilitando a troca de pulgas. “Uma das consequências da pandemia foi a crise no catolicismo, já que a igreja parecia de nada servir, e do feudalismo, pois os trabalhadores, mais escassos, aumentaram suas exigências para os senhores feudais”, comenta ao acrescentar que algumas cidades melhoraram suas condições de vida, como Londres e Paris, devido a maior afluência e eficiência, mas outras centenas, como Kinshasa e Jacarta, tornaram-se gigantescas e imundas.

Perigos atuais

“Algumas doenças, como a peste, tornaram-se mais raras, mas outras, como a tuberculose, passaram a ser muito comuns. Por exemplo, a incidência desta última é muito alta em certas favelas do Rio de Janeiro”, descreve Dr. Brisola ao justificar que a aglomeração das pessoas nas cidades apresenta vantagens, tais como: maior acesso à educação e à saúde, mas também aumentaram as chances de contato interpessoal, e doenças como dengue tiveram sua transmissão facilitada.

Para o professor, a propensão à transmissão de doenças depende muito da distribuição de renda, pois o excesso de alguns poderia servir para evitar várias enfermidades de toda a população. Ele pondera que, até em países como os Estados Unidos, em que se gasta uma fortuna em saúde, várias doenças se tornaram comuns, com a piora na distribuição de renda. “É incrível que um nobre conservador como Bismarck tenha reconhecido a necessidade de ter Previdência Social, e novos-ricos atuais queiram que cada um se vire e que os governos só cuidem dos que já têm muito, torrando dinheiro com empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e incentivos fiscais, para que eles se cuidem nos hospitais de ponta, enquanto os pobres morrem na fila do Sistema Único de Saúde (SUS)”, desabafa ao recomendar que todos assistam ao filme Elysium e reflitam.

Como prevenir

O desenvolvimento de vacinas e drogas tem sua utilidade, mas grande parte das doenças seria evitada com a melhora nas condições de vida da população. “Educação sanitária, disponibilidade de habitação, água tratada e tratamento de esgoto podem contribuir bastante para evitar muitas doenças”, explica ao realçar que cada patologia tem sua forma específica de prevenção, mas certamente as condições precárias de vida, em aglomeração, favorecem muito a transmissão de várias doenças.

“A desnutrição, que tem seu papel no agravamento da saúde, vem sendo parcialmente substituída pela alimentação errada e excessiva. A obesidade já deixou de ser privilégio de reis e de filhos de senhores de engenho do Nordeste, afogados em doces feitos pelas mucamas, e passou a ocorrer em todas as classes sociais” pontua o especialista ao indagar se alguém já viu uma pessoa de baixa renda que substitui os refrigerantes por suco de frutas para os filhos? “E o cigarro? E as enchentes, que arrasam as casas (dos pobres) e levam a tantos casos de leptospirose até na orgulhosa cidade de São Paulo?”, questiona Dr. Brisola ao alertar que algumas doenças, como obesidade, diabetes e acidentes de trânsito, principalmente em motocicletas, têm aumentado muito, devido às (más) condições de vida nas cidades localizadas nos Trópicos.

Diseases

Diseases as obesity, diabetes and traffic accidents, especially those involving motorcycles, have increased due to the poor life conditions in the tropical cities, with high poverty index and slums growth

Is it possible that tropical cities are the cause of certain diseases? An article published on The Guardian suggests it is. For Dr. Carlos Brisola, professor at the Microbiology, Immunology and Parasitology Department of the Federal University of Santa Catarina (UFSC), many centuries ago, when the first agglomerations were formed, which would then become cities; there was a raise in the chances of transmitting several diseases related to the proximity between people and the precarious life conditions. “This proximity increases the chances of several diseases transmitted through direct or indirect contact (i.e., smallpox, tuberculosis), by feces and other kinds of waste (bacteria, protozoans, viruses, etc.) and involving vectors, either mechanical (flies, cockroaches, etc.) and biological, as plague and typhus”, explains the specialist agreeing with the article.

In order to revert the situation, according to Dr. Brisola, the whole population’s life conditions must improve, once even those who may consider being risk free, for living in the cleaner areas of the city, are also exposed. “This is more evident, for example, in dengue fever transmission, where the risk depends on the quantity of mosquito developing points than sewers, once the mosquitoes like clean water and can move from a street to another”, observes while pointing that only enhancing hygiene conditions and comprehension of the diseases transmission conditions the risks could drop.

Regarding the tropic besides the great variety of microbes, vectors, natural hosts, viruses reservoirs, etc, poverty is also a factor for diseases emergence and propagation, eventually powered by other factors, such as poverty, the slums disordered growth, starvation, among others. As an example, the professor quotes the black plague pandemic that killed millions in Europe and Asia in the 16th century. He reminds the inhabitants gathered in churches to pray, increasing the proximity between people and easing the exchange of fleas. “One of the consequences of the plague was a crisis in Catholicism, once the churches seemed useless, and in feudalism, once the scarce workers increased their demands to the lords”, comments while adding that some cities, as London and Paris enhanced their life conditions, due to the greater affluence and efficiency, but many others, as Kinshasa and Jakarta, became huge and filthy.

Current dangers

“Some diseases, as the plague, became rarer, but others, as tuberculosis, became very common. For example, the incidence of this last one is very high in certain slums in Rio de Janeiro”, describes Dr. Brisola while supporting that agglomerations in cities have their advantages, as greater access to education and health, but also increase the chances of interpersonal contact, and diseases as dengue fever had their transmission eased.

To the professor, the propensity to diseases transmission relies greatly on the income distribution, once the excess of some could serve to avoid several diseases for the whole population. He weighs that, even in countries as the USA, where a fortune is spent on health, several diseases became common, due to the worsening of income distribution. “It is amazing that a conservative noble as Bismarck acknowledged the need of Social Security, and current new-riches making the population care for itself, and the governments only caring for what already has too much, spending money with loans from the National Bank of Economic and Social Development (BNDES) and tax incentives, so they can be treated in end-of-the-line hospitals, while the poor people die waiting for assistance in the SUS (Unified Health System)”, said while recommending all to watch the movie Elysium and reflect.

How to prevent

The development of vaccine and drugs has its utilities, but great part of the diseases could be avoided by enhancing the population’s life conditions. “Sanitary education, habitation, treated water and sewage could contribute very much to avoid many diseases”, explains while highlighting that each pathology has its own prevention method, but certainly, precarious life conditions, in agglomerations, greatly favor the transmission of several diseases.

“Malnutrition, who plays an important role in health worsening, has been partially replaced by inadequate and excessive eating. Obesity is not a privilege for rings and children of the great sugar kings in the Northeast, submerged in candies made by the “mucamas”, and now is a problem present in all social classes”, points the specialist while questioning if anybody already saw a low-income person replace soft drinks by fruit juices for their children? “And cigarettes? And the floods, that destroy homes (of the poor) and take leptospirosis to so many, even in the proud city of Sao Paulo?”, questions Dr. Brisola while alerting that some diseases, as obesity, diabetes, traffic accidents, especially those involving motorcycles, have increased tue to the (bad) life conditions in the cities in the tropics.