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Interferência no meio ambiente vai causar novas doenças, aponta especialista Interference in the environment will cause ne

10/01/2013

Interferência

O número de doenças emergentes quadruplicou no último meio século, em grande medida devido ao avanço humano sobre áreas silvestres, especialmente em regiões tropicais

As doenças sempre saíram das florestas e da fauna e chegaram às populações humanas: a peste e a malária são dois exemplos disto. A observação é fruto de análise, assinada por Jim Robbins, veiculada nos jornais The New York Times e Folha de São Paulo.

Na publicação, segundo estudiosos, o número de doenças emergentes quadruplicou no último meio século, em grande medida devido ao avanço humano sobre áreas silvestres, especialmente em regiões tropicais. Eles defendem que as viagens aéreas e o tráfico de animais silvestres aumentam o potencial para surtos graves de doenças em grandes centros populacionais.

A fim de debater o impacto que a interferência do homem no meio ambiente pode trazer e o que pode ser feito para diminuir os eventuais problemas, a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) convidou o Dr. Carlos Brisola, doutor em Entomologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), que atua na área de Parasitologia, com ênfase em Entomologia e Malacologia de Parasitos e Vetores, e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para falar sobre o assunto.

SBMT: Dr. Carlos, podemos considerar que a perturbação de um ecossistema pode provocar doenças? O que seria considerado perturbação? Como o homem pode minimizar essa situação?
CB: Os humanos podem perturbar o ecossistema de várias formas, por meio do desmatamento, da mudança climática e mesmo apenas entrando nos ambientes naturais ou introduzindo animais novos, como os domésticos. Há vários exemplos disto. Foi constatado, em estudos feitos em resíduos de mata na região norte do estado de São Paulo, que havia concentração de vetores e reservatórios de Trypanosoma cruzi. Ao modificar a floresta, os humanos podem substituir a espécie de Leishmania que circula e seus vetores; em matas mais preservadas, flebotomíneos de Psychodopygus transmitem Leishmania braziliensis, com a modificação esta passa a ser transmitida por Nyssomyia whitmani, na borda da mata e nas casas passa a ocorrer a transmissão por esta última e por Nyssomyia intermedia e Nyssomyia neivai, e se a modificação for mais acentuada provavelmente haverá proliferação de Lutzomyia longipalpis e transmissão de Leishmania chagasi.

Os plasmódios de macacos podem ser transmitidos para humanos, ficando mais fácil ainda pela facilidade de deslocamento de Anophles cruzii entre a copa das árvores e o solo; este mosquito, apesar de bem adaptado a florestas primárias, pode sair da mata e picar em vários horários, o que pode aumentar o risco para humanos. Ainda com relação a plasmódios, estão ocorrendo numerosos casos de malária humana no Sudeste Asiático, causadas por uma nova espécie, associada a macacos, o Plasmodium knowlesi. Com os dados disponíveis, fica difícil recomendar uma medida única para minimizar a interferência e reduzir o risco de transmissão de agentes patogênicos. O essencial é analisar o potencial de transmissão de doenças e conhecer a biologia dos vetores e reservatórios. Uma medida óbvia para evitar problemas, por exemplo, é não construir perto de mangues ou outras áreas que sejam criadouros de maruins (Ceratopogonidae), principalmente se nada se souber sobre a fauna destes insetos na área. Porém, com meia dúzia de especialistas no Brasil, aos quais se dá pouca atenção, pode-se esperar muitos problemas, como tem ocorrido na ilha de Santa Catarina, com moradores da Base Aérea e de vários bairros sofrendo com as picadas.

SBMT: Doutor, um estudo recente do Instituto Internacional de Pesquisas com Animais de Criação constatou que mais de dois milhões de pessoas, por ano, morrem devido a doenças transmitidas aos humanos por animais. Por que isso ocorre? O que pode ser feito para tentar reverter esse quadro? Quais animais podem ser considerados mais perigosos por serem potenciais transmissores?
CB: Há várias centenas de vírus, bactérias e protozoários, pouco conhecidos, que podem ser transmitidos para animais domésticos e humanos, seja por meio de artrópodes vetores ou por fezes e urina de roedores. Jared Diamond sugere, no livro Armas, germes e aço, que a longa convivência com animais domésticos aumentou a imunidade dos habitantes da Eurásia, enquanto os de outros continentes sofreram mais com estes germes, ao terem o primeiro contato. No entanto, em vários locais, as modificações ambientais podem por em contato os agentes patogênicos com humanos, animais de várias espécies e vetores potenciais. Por exemplo, a introdução do West Nile Vírus (WNV) nos Estados Unidos vem causando problemas sérios de saúde, tendo como reservatórios vários animais silvestres. Isto tem evidenciado a necessidade de formação de pessoal e de estudos em várias áreas correlacionadas. Só será possível pensar em reverter este quadro com muito estudo, o que inclui formação de pessoal e muitos recursos.

A ilusão de que as doenças infecciosas se tornariam insignificantes com a produção de antibióticos mostrou-se tão ilusória quanto à de um mundo sem moscas, após a descoberta do efeito do DDT. Não se pode indicar animais mais ou menos perigosos, pois cada agente infectante tem suas especificidades.

SBMT: No seu entendimento, países tropicais são mais propensos a esse tipo de problema?
CB: Os países tropicais apresentam maior variedade de ambientes, maior diversidade biológica e condições mais precárias de vida. Por exemplo, numa reserva na ilha de Santa Catarina, só estudando fitotelmata (bambus, bromélias e ocos de árvores) e coletando mosquitos no período diurno, já encontramos 56 espécies de mosquitos (Reis et al., 2010), enquanto no Canadá inteiro, maior que o Brasil, há 74 espécies. Quais das 56 espécies podem se tornar perigosas? Convém lembrar, no entanto, que há muitas zoonoses em locais frios e temperados e que Pavlovsky propôs na primeira metade do século XX a teoria da nidalidade natural das doenças com base inicialmente no encontro de encefalites em regiões desérticas da Ásia Central.

Um fator importante para aumentar o risco de ocorrência de doenças novas nas regiões tropicais é o aumento populacional e a procura de melhores condições de vida, ainda precárias para a maioria. Isto é inevitável e sequer pode ser criticado, já que não é possível a humanidade continuar dividida entre os que têm casas com ar condicionado, automóveis e chuveiros elétricos, e os que vivem com vacas dentro das casas e com esgoto correndo pelo quintal.

SBMT: O que pode vir a ocorrer caso o ser humano continue a interferir no meio ambiente? Existe a possibilidade de surgimento de novas doenças?
CB: A interferência humana no meio ambiente, feita com frequência na base do vamos em frente que outros é que vão sofrer, certamente ainda vai causar muitos casos de doenças novas. Quando grande parcela de um povo supostamente inteligente e bem informado, como o dos Estados Unidos, acha que não há aquecimento global e que a queima de petróleo em carros enormes e para manter casas quentes em ambientes gelados nada tem a ver com isto, fica-se assustado. É preciso cuidado na interferência, pois é melhor prevenir que remediar.

Costumo citar em minhas aulas uma frase atribuída a D. João VI: Se não sabe o que fazer, nada faça. Estamos cercados de muitas formas de vida, cada uma tentando sobreviver e se multiplicar, e nós não podemos mais ser aprendizes de feiticeiros. É preciso tentar prever, com muito estudo, quais serão os próximos agressores e o que pode ser feito. Estou certo de que os bilhões gastos para mandar um jipe passear em marte seriam bem mais úteis aqui em nosso maltratado planeta. H. E. Evans diz, no início de seu livro sobre insetos (Life on a little known planet): o homem vai à lua e às estrelas, mas não sabe o que está no fundo de seu quintal.

SBMT: Dr. Carlos, o trabalho desenvolvido pelo Projeto Predict, financiado pela Usaid, colhendo amostras de sangue, saliva e outros de espécies de animais silvestres de alto risco, visando criar um acervo de vírus, para facilitar a identificação rápida de algum deles que possa infectar humanos é a melhor medida a ser tomada? Isso pode prevenir futuras doenças?
CB: É uma iniciativa muito interessante, e deve ser acompanhada de muitos estudos de ecologia de vários ambientes. Não sei bem o que seriam espécies de alto risco, pois como diz o ilustre entomologista (e amigo) Pedro Linardi, um bicho que é bobo agora, pode ficar esperto no próximo mês.

SBMT: Existe uma forma de prevenir contra possíveis epidemias? O que pode ser feito?
CB: Espero que a iniciativa acima seja acompanhada de incentivo à formação de pesquisadores e apoio aos que já estão se esforçando para produzir conhecimento. Com salários ruins, infraestrutura precária (experimente pedir um carro para ir a campo ou um conserto numa universidade ou instituto de pesquisa), apoio de agências distribuído de forma aleatória e descontínua, fica difícil prevenir o surgimento de novas epidemias, que certamente virão. A prudência na interferência no meio ambiente certamente é também muito importante.

Interferência

The number of emerging diseases quadrupled during the last half century, largely due to human advancement into wild areas, especially in tropical regions

Diseases have always departed from the forests and fauna and arrived in human populations: the plague and malaria are two examples. This observation was made by Jim Robbins, in the New York Times and Folha de Sao Paulo.

Robbins says that according to scholars, the number of emerging diseases has quadrupled in the last half century, largely due to humans advancing into wild areas, especially in tropical regions. They argue that air travel and trafficking of wild animals increases the potential for serious outbreaks of disease in large population centers.

In order to discuss the impact of human interference on the environment and what can be done to diminish any problems, the Brazilian Society of Tropical Medicine (SBMT) invited Dr. Carlos Brisola, PhD in Entomology from the Federal University of Paraná (UFPR), who works in the field of Parasitology, with an emphasis on Entomology and Malacology of Parasites and Vectors, and is a professor at the Federal University of Santa Catarina (UFSC), to discuss this topic.

SBMT: Dr. Carlos, can we consider that the disturbance of an ecosystem can cause diseases? What would be considered a disturbance? How can mankind minimize this situation?
CB: Humans can disrupt the ecosystem in several ways, through deforestation, climate change and even by just going into natural environments or introducing new animals, such as domestic ones. There are several examples of this. Studies on forest residues in the north of São Paulo state found a concentration of vectors and reservoirs of Trypanosoma cruzi. By modifying the forest, humans can substitute the Leishmania species and its vectors. In better preserved forests, Psychodopygus sandflies transmit Leishmania braziliensis; with modification, this is transmitted by Nyssomyia whitmani. On the edge of the forest and in houses the transmission by the latter and by Nyssomyia intermedia and Nyssomyia neivai occurs, and if the modification is more acute there will probably be a proliferation of Lutzomyia longipalpis and transmission of Leishmania chagasi.
Plasmodia of monkeys can be transmitted to humans, which is even simpler due to the ease with which Anophles cruzii moves between the canopy of trees and the ground; this mosquito, although well adapted to primary forests, can leave the forest and bite at various times, which can increase the risk to humans. Numerous cases of human malaria are occurring in Southeast Asia, caused by Plasmodium knowlesi, a new species associated with monkeys. With the data available, it is difficult to recommend a single measure to minimize interference and reduce the risk of transmission of pathogens. The key is to analyze the potential for disease transmission and to understand the biology of vectors and reservoirs. One obvious measure to avoid problems, for example, is not to build near wetlands or other areas that are breeding grounds for midges (Ceratopogonidae), especially if nothing is known about the fauna of these insects in the area. However, with only half a dozen specialists inBrazil, to whom little attention is paid, there are likely to be many problems, as has occurred on theisland ofSanta Catarina, where Air Base residents and residents of several neighborhoods are being bitten.

SBMT: Doctor, a recent study by the International Institute of Animal Breeding Research found that more than two million people per year die from diseases transmitted to humans by animals. Why does this occur? What can be done to reverse this situation? What animals can be considered most dangerous because they are potential transmitters?
CB: There are hundreds of viruses, bacteria and protozoa, some hardly known about, which can be transmitted to domestic animals and humans, either through arthropod vectors or by rodent feces and urine. Jared Diamond suggests, in the book Guns, Germs and Steel that their long coexistence with livestock increased the immunity of the inhabitants of Eurasia, while the other continents suffered more when they first came into contact with these germs. However, in several places, environmental modifications may place pathogens in contact with humans, animals of various species and potential vectors. For example, the introduction of West Nile Virus (WNV) in theUnited States has caused serious health problems, and various wild animals are reservoirs. This has highlighted the need for training and for studies in several related areas. It is only possible to think about reversing this situation after much study, which includes training and plenty of resources.

The illusion that infectious diseases would become insignificant with the production of antibiotics was as false as that of “a world without flies” after the discovery of DDT’s effects. You cannot say which animals are more or less dangerous, because each infectious agent has its peculiarities.

SBMT: In your understanding, are tropical countries more prone to this type of problem?
CB: Tropical countries have a greater variety of environments, a greater biodiversity and more precarious living conditions. For example, in a reserve on the island of Santa Catarina, only studying phytotelmates (bamboos, bromeliads and tree holes) and collecting mosquitoes during the day, we found 56 species of mosquitoes (Reis et al., 2010), whereas in the whole of Canada, which is larger than Brazil, there are 74 species. Which of the 56 species may become dangerous? It is worth remembering, however, that there are many zoonoses in cold and temperate locations and Pavlovsky proposed in the first half of the twentieth century the theory of natural nidality of diseases based initially on the fact he had found encephalitis in desert regions of Central Asia.

An important factor that heightens the risk of new diseases in tropical regions is the increase in population and the demand for better living conditions, which are still precarious for the majority. This is inevitable and cannot be criticized, since humanity cannot continue to be divided between those who have homes with air conditioning, electric showers and cars, and those living with cows in houses and sewage running through the backyard.

SBMT: What might happen if humans continue to interfere with the environment? Is there a possibility of new diseases emerging?
CB: Human interference in the environment, often carried out ??on the basis of let’s go ahead, it is those who come later that will suffer, is certainly still going to cause many new diseases. It is scary when a large portion of supposedly intelligent and well informed people, such as the United States, thinks that global warming does not exist and that the burning of oil for enormous cars and to keep houses warm has nothing to do with it. We should interfere with caution, because prevention is better than cure.

In my classes I often quote John VI of Portugal: If you do not know what to do, don’t do anything. Many forms of life, each one trying to survive and multiply, surround us and we can no longer be sorcerers apprentices. We must try to predict the next aggressors, through much study, and work out what can be done. I am sure that the billions spent to send a jeep to Mars would be far more useful here on our badly treated planet. H. E. Evans says, at the beginning of his book on insects (Life on a little known planet): man goes to the moon and the stars, but does not know what is in his own backyard”.

SBMT: Dr. Carlos, is the work developed by Project Predict, funded by USAID, which takes samples of blood, saliva and other species of wild animals at high risk, and aims to create an archive of viruses to facilitate quick identification of those that could infect humans, the best action to take? Could this prevent future diseases?

CB: Its a very interesting initiative, and must be accompanied by many ecological studies of various environments. Im not sure what high risk species would be because, as the distinguished entomologist (and friend) Pedro Linardi says, an animal that is stupid now, could get smart next month.

SBMT: Is there a way to prevent against possible epidemics? What can be done?
CB: I hope the above initiative is accompanied by training of researchers and support for those who are already struggling to produce knowledge. With poor wages, precarious infrastructure (try asking for a car to go to the countryside or for a repair at a university or research institute), support from agencies distributed randomly and discontinuously, it is difficult to prevent the emergence of new epidemics, which will certainly come. Prudence when it comes to interference in the environment is certainly also very important.