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Vacinas eficientes contra leishmaniose podem levar décadas para serem produzidas, diz pesquisador

Complexidade biológica e epidemiológica das leishmanioses é um dos motivos para a demora

12/05/2016
Dr.

Dr. Alexandre Reis, que defende a união de esforços de diferentes grupos e países em torno do tema, acredita que o impasse vem sendo superado, sendo o Brasil, juntamente com a SBMT, um protagonista

Uma vacina contra a malária, que vem sendo empregada com sucesso em países africanos e reduzindo as mortes pela doença, mostra o avanço das pesquisas na área para doenças parasitárias. Porém, quando o assunto é leishmaniose, ainda estamos no início de uma “longa estrada”, de acordo com o professor de Parasitologia Clínica da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Alexandre Barbosa Reis.

“Até caminharmos para chegar a produtos efetivamente potentes e eficientes para serem reconhecidos como vacinas, vamos precisar de anos e talvez décadas”, aponta o doutor Alexandre. Segundo ele, entre os motivos para essa demora está o fato das leishmanioses serem doenças multifacetadas, de uma complexidade biológica e epidemiológica “absurdamente distante” de outras patologias infecciosas causadas por protozoários, bactérias e/ou vírus transmitidas por insetos vetores.

O pesquisador ainda defende a união de esforços de diferentes grupos e países em torno do tema. Porém, ele acredita que o impasse vem sendo superado, sendo o Brasil, juntamente com a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), um protagonista na matéria. “Em uma iniciativa inédita realizamos dois Leishvacines, onde juntamos os principais grupos que atuam com vacinas para discutir o tema. E mais: para compor networks que hoje se traduzem em diversas iniciativas e esforços da comunidade mundial de pesquisadores no desenvolvimento de vacinas”, aponta o pesquisador.

Para ele, somente com a soma de esforços de diferentes grupos de pesquisa, com uma forte associação de empresas, é que chegaremos a vacinas de fato poderosas para serem empregadas em uso maciço nas áreas endêmicas. O doutor Alexandre acredita que, sem essa cooperação, estaremos nadando até naufragar ou caminhando em um deserto até termos a sorte de achar um oásis.

Vacinas para cães

No campo da vacinologia, a produção de imunizantes tem se mostrado mais atraente contra a Leishmaniose Visceral Canina (LVC) do que para a humana, já que a proporção de cães positivos nas áreas endêmicas atinge cerca de 10, 20, 30 vezes mais do que pessoas infectadas. “Isto não significa que a vacina para LV humana não seja importante. É sim, principalmente para áreas onde a doença se comporta como uma antroponose, ou seja, é transmitida de homem para homem”, explica o doutor Alexandre.

A prioridade para a LVC, segundo ele, deve-se, entre outros, à questão mercadológica. Isso porque a área de produtos veterinários para pequenos animais superaqueceu nas duas últimas décadas. Movidos por este e outros aspectos, pesquisadores passaram a focar esforços em vacinas especificamente para a proteção de cães. “O grande problema é que nenhuma destas vacinas foi aplicada como um instrumento de imunização populacional. E, sem este emprego, estes imunobiológicos terão um fraco alcance em saúde publica”, afirma o doutor Alexandre.

Ele aponta como exemplo que, no Brasil, somente uma das vacinas contra LVC é disponível atualmente no mercado. E, mesmo assim, ainda é exclusivamente para uso veterinário individual, ou seja, aplicada em clínicas ou pet shops. “Isto significa que esta vacina ainda não foi empregada como um instrumento de profilaxia no programa de controle da Leishmaniose Visceral (PCLV) no Brasil. Os resultados até então obtidos não convenceram os órgãos públicos em investir no emprego destas vacinas de forma ampla na população canina com imunizações em larga escala dos cães das áreas endêmicas”, destacou.

Pesquisas promissoras

Das pesquisas em vacinas para LV que o doutor Alexandre participou nos últimos 20 anos, ele destacou um imunizante de proteoma completo com proteção heteróloga, ou seja, composta por antígenos de L. braziliensis tendo saponina como adjuvante (LBSap). Além disto, o grupo de pesquisa que o especialista participa tem investido nos estudos de adjuvantes, que são utilizados para potencializar a resposta imune quando administrados junto com o antígeno, não devendo ser tóxicos e nem causar efeitos colaterais graves.

Os pesquisadores do grupo ainda rastrearam “incessantemente”, nos últimos 10 anos, os genomas de L. braziliensis e L. infantum, selecionando diversas proteínas codificadas que poderiam ser empregadas como candidatos vacinais.

“Por fim, trabalhando com o que chamamos de vacinologia racional, ou seja, desenhando e estudando por diversos métodos os candidatos vacinais, bem como os adjuvantes empregados, iremos propor vacinas multipeptídicas e quiméricas”, destacou ao acrescentar que estes imunizantes ofertam um repertório antigênico mais qualificado do que as vacinas de um único antígeno, considerando a proteção contra uma doença cujo agente etiológico possui uma complexidade proteômica “gigantesca.