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OMS define febre de Vale do Rift como grande potencial de emergência de saúde pública

A febre de Vale do Rift é transmitida pelo Aedes aegypti, mas também pode ser transmitida pelo Culex, o mosquito doméstico. Até o momento a circulação do vírus se restringe ao continente africano e ao Oriente Médio

04/02/2019
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Se o vírus RVF é introduzido em uma área com um sistema de irrigação intensiva, por exemplo, Nilo ou Sul da Europa, com lotes de mosquitos, então ele poderia criar um grande surto em animais domésticos e em seres humanos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou em janeiro a revisão de sua lista de agentes patogênicos prioritários, que podem causar uma emergência de saúde pública e para as quais não existem medidas suficientes. Entre a lista das doenças infecciosas emergentes que requerem esforços urgentes de pesquisa e desenvolvimento está a febre de Vale do Rift (RVF). A doença é causada por um vírus transmitido por mosquitos e moscas que se alimentam de sangue que normalmente afeta animais (geralmente bovinos e ovinos), mas também pode envolver seres humanos. Em humanos, a doença varia de uma doença leve semelhante à gripe a uma febre hemorrágica grave que pode ser letal.

Para saber mais sobre o assunto, a Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) entrevistou o Dr. Pierre Formenty, que lidera a equipe viral e febre hemorrágica (VHF) para a OMS. O especialista foi enfático em dizer que comunidade científica precisa ajudar e apoiar o roteiro R & D para RVF em animais e humanos. “Precisamos treinar os trabalhadores da linha de frente nos países afetados para detectar os principais surtos quando eles começam”, atenta.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

SBMT: A febre de Vale do Rift é uma das doenças que exige a atenção dos pesquisadores. Em sua opinião, ela realmente tem potencial de pandemia?

Dr. Pierre Formenty: A febre do Vale do Rift se espalhou duas vezes para fora de sua zona ecológica, gerando grandes epidemias:

Em 1977 no Egito: 600 mortes, 20.000 infecções registradas, 200.000 infecções estimadas

Em 2000 na Arábia Saudita e Yemen: 87 e 121 mortes respectivamente, 30.000 e 40.000 infecções estimadas.

Se o vírus da FVR for introduzido numa área com sistemas de irrigação intensivos, como no Nilo ou Sul da Europa, com muitos mosquitos, então existe um potencial de epidemia entre animais domésticos e humanos.

SBMT: Caso a doença chegue a outros continentes, como Américas e Europa e caso haja expansão rápida, qual cenário podemos esperar?

Dr. Pierre Formenty: Um cenário similar ao que aconteceu regiões irrigadas, a exemplo dos surtos registrados no Egito, Arábia Saudita e Iêmen. Nós podemos esperar epidemias de grandes proporções entre animais domésticos, seguidas de infecções e mortes entre humanos.

SBMT: Investimento em P & D pode ajudar a evitar que isso ocorra?

Dr. Pierre Formenty: Sim, a P&D deve ajudar a desenvolver produtos que devem proteger e controlar surtos de FVR. Precisamos de uma abordagem One Health (Saúde Única) com três tipos de produtos:

Diagnóstico (para animais e humanos): existe uma necessidade de ter, à venda, próximo ao animal/paciente métodos de diagnóstico seguros, que quantifiquem a viremia, detectem cepas de FVR geneticamente diferentes em tempo hábil e com as características operacionais adequadas para uso em campo ou com poucos recursos e/ou estruturas de baixa capacidade. Plataformas simplificadas como GenXpert, Alere, filmarray ou outros são desejáveis.

Vacinas para animais: dada a falta de transmissão entre humanos comprovada, uma vacina humana pode não ser a medida mais viável a longo prazo ou com o melhor custo-benefício. O desenvolvimento de vacinas altamente imunogênicas e baratas deve ser uma prioridade para vacinar animais domésticos e prevenir surtos de grandes proporções entre animais e assim, mitigar o risco de infecções entre humanos.

Terapias: Ainda há muito que descobrir na busca por um tratamento eficaz de FVR (doença e sequelas). Alguns dos novos compostos e antibióticos monoclonais apresentaram resultados promissores. Pesquisas bem-sucedidas na terapia de FVR dependerão da colaboração entre países endêmicos e de uma frente unida pelo compartilhamento de informação entre as comunidades de saúde e pesquisa.

SBMT: A pesquisa necessária inclui pesquisa básica/fundamental e de caracterização, bem como estudos epidemiológicos, entomológicos ou multidisciplinares ou ainda esclarecimento adicional das rotas de transmissão, bem como pesquisa em ciências sociais. Neste sentido, como a comunidade médica pode ajudar?

Dr. Pierre Formenty: A comunidade científica deve ajudar e incentivar o roteiro de P&D para animais e humanos (veja acima os três principais objetivos).

SBMT: Grande parte da comunidade médica possivelmente não está preparada para identificar uma possível epidemia da febre de Vale do Rift. Como trabalhar e treinar estes profissionais da saúde para prevenir sua propagação já em um estágio inicial?

Dr. Pierre Formenty: Nós precisamos treinar os profissionais da linha de frente nos países afetados para que possam detectar os principais surtos assim que começarem. Como surtos de FVR entre animais sempre precedem os casos humanos, estabelecer uma vigilância ativa para detectar casos entre animais é essencial para alertar com antecedência para as autoridades de saúde pública humana e animal.

SBMT: Um monitoramento utilizando tecnologia espacial, por exemplo dados de satélites, poderia ajudar a prevenir e antecipar uma possível epidemia da febre do Vale Rift?

Dr. Pierre Formenty: Sim, o monitoramento pode prever condições climáticas que estão frequentemente associadas a um aumento no risco de surtos, e podem ajudar no controle da doença. Na África, Arábia Saudita e no Iêmen, os surtos de FVR estão altamente correlacionados a períodos com chuvas acima da média. A resposta da vegetação a níveis elevados de chuva pode facilmente ser medida e monitorada por Sistema de Detecção Remoto através de Imagens. Além disso, surtos de FVR no Leste africano estão bem associados a chuvas volumosas que ocorrem durante a fase quente do fenômeno El Niño / Oscilação do Sul (ENOS).

Estas descobertas nos permitiram desenvolver, com sucesso, modelos de predição e sistemas de alerta antecipado para FVR usando imagens de satélites e dados de previsão do tempo/clima. Sistemas de alerta antecipados, como estes, poderiam ser utilizados para detectar casos entre animais em um estágio inicial de um surto e permitiriam que as autoridades implementassem medidas para evitar epidemias iminentes.

Dentro da estrutura das Regulações Internacionais de Saúde (2005), a previsão e detecção prévia de surtos de FVR, juntamente com uma análise abrangente do risco de difusão para novas áreas, são essenciais para permitir a implementação de medidas de controle efetivas e oportunas.

SBMT: A presença dos mosquitos não indica necessariamente a existência da doença, mas é impossível ter a doença sem o mosquito. Com este entendimento podemos dizer que o investimento em Pesquisa & desenvolvimento deve focar cada vez mais à emergência dos vetores?

Dr. Pierre Formenty: O vírus da FVR foi encontrado em 8 famílias distintas de artrópodes, dos quais 6 eram mosquitos (Aedes, Culex, Mansonia, Anopheles, Coquillettidia e Eretmapodites); foram provadas que cerca de 30 espécies de mosquitos agiram como vetores. Outros artrópodes incluem culicoides, flebótomos e carrapatos.

A doença precisa de mosquitos para se espalhar entre animais, mas também poderia ser transmitida por contato (doenças transmitidas por via sanguínea).

A P&D deve investir em controle de vetores para muitas doenças transmitidas por vetores.

SBMT: Gostaria de acrescentar algo?

Dr. Pierre Formenty: Acerca da FVR é importante ressaltar a necessidade de uma abordagem One Health (Saúde Única). Precisamos controlar o vírus da FVR em nível animal, antes dele alcançar os humanos, quando seria muito tarde. O impacto econômico da FVR para fazendeiros africanos é imenso em nível microeconômico.

Saiba mais:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30261226/

http://advances.sciencemag.org/content/4/12/eaau9812

https://www.who.int/emergencies/diseases/rift-valley-fever/en/

https://www.who.int/features/qa/one-health/en/

https://www.who.int/blueprint/en/