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Crianças podem auxiliar a combater doença de Chagas na Amazônia Children could help fight Chagas’ disease in the Amazon

Experiência bem sucedida em Minas Gerais é exemplo, onde professores treinaram alunos a identificarem o transmissor em casa e a levá-lo em uma caixa de fósforo para, posteriormente, ser identificado em laboratórioA well-succeeded experience in Minas Gerais is an example, where teachers trained students to identify the vector at home and put it in a matchbox for further lab identification

06/01/2015

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A doença de Chagas afeta principalmente moradores de países tropicais. Aproximadamente 8 milhões de pessoas no mundo, a maioria pobres, estão infectadas

O Brasil reduziu drasticamente o número de novos casos anuais de doença de Chagas desde os anos 1970 (de 150 mil para cerca de 200 atualmente). No entanto, as ações de vigilância e controle devem ser intensificadas, principalmente na região Amazônica, onde, devido às dimensões continentais, é impossível borrifar inseticida em todos os locais ou tratar cada portador da enfermidade – geralmente pessoas de baixa renda. Segundo o chefe do Laboratório de Doenças Parasitárias do Instituto Oswaldo Cruz, José Rodrigues Coura, a melhor forma de lidar com o tema é a partir da educação.

Dr. Coura, que se define como um “tropicalista” (que trata das doenças que afetam os países tropicais), alerta que correm mais riscos de serem infectados os profissionais que coletam vegetais, principalmente de piaçava, palmeira que tem uma fibra utilizada para fazer vassoura. “O sujeito passa uma boa parte do ano nos piaçavais, onde faz coletas das fibras da planta. Isso porque, na Amazônia, durante seis meses os igarapés secam e não há como as pessoas se locomoverem por barcos, obrigando-as a ficarem seis meses com a família nesses locais”, explica.

Os triatomíneos, transmissores da doença de Chagas, são conhecidos popularmente como barbeiros e se alimentam do sangue de animais silvestres. Como esses animais são utilizados para fonte de proteína para as pessoas que vivem nas regiões dos piaçavais, os insetos acabam migrando da floresta para o ambiente ao redor das residências e até mesmo aos domicílios, aumentando os riscos de contaminação. “Há lugares que têm 11% de indivíduos altamente expostos infectados com T.cruzi”, afirma o médico, acrescentando que a população local já se acostumou a matar o barbeiro como se fosse mosca, não tomando medidas preventivas eficazes.

Como não é possível retirar os trabalhadores e as famílias dos piaçavais, por ser muitas vezes a única forma de sustento, Dr. Coura sugere que sejam adotadas ações educativas, especialmente com as crianças. Ele cita uma experiência, realizada a partir de 1974, que ajudou na erradicação da doença no município de Bambuí, em Minas Gerais. Lá, os professores foram treinados a orientar os alunos a identificarem o barbeiro em casa, guardarem o inseto em caixas de fósforo e, em seguida, levarem à escola. As caixas eram rotuladas e enviadas para exame laboratorial a fim de confirmar o tipo e se a espécie estava realmente contaminada com o parasita causador de Chagas, o Trypanosoma cruzi (T. cruzi). Por último, um guarda sanitário visitava a residência onde o inseto foi encontrado e borrifava inseticida no local.

“Às vezes os adultos, mesmo informados, não tomam atitude. Com a criança é mais simples, pois elas se interessam em ajudar. Menino acha tudo. Como quase todas as comunidades têm uma escola, é preciso treinar os professores de curso básico para orientarem os alunos a procurem focos do barbeiro pela casa”, explica o especialista.

Dr. Coura também sugere a criação de mosquiteiros específicos contra os triatomíneos para serem utilizados nas residências. Ainda segundo o médico, no laboratório em que trabalha, foi elaborado um manual pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para treinar os microscopistas especializados em malária, com o objetivo de identificar o T. cruzi. “Caso seja identificado algum individuo infectado, este deve ser chamado imediatamente para tratamento”, ressalta.

Apesar de casos de migrantes para os Estados Unidos, Europa e outros países da Ásia, a doença de Chagas afeta principalmente moradores de países tropicais. Cerca de 8 milhões de pessoas que vivem na América do Sul, Central e México estão infectadas com o T. cruzi, que causa mais de 12 mil mortes por ano.

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Chagas’ disease strikes especially people from tropical countries. Around 8 million people in the world, mostly poor, are infected

Brazil has drastically reduced the number of new annual Chagas’ disease cases since the 70s (from 150 thousand to current 200). However, the surveillance and control actions must be intensified, especially in the Amazon, where, due to its continental size, it is impossible to spray insecticide everywhere or treat every person carrying the disease – mainly poor people. According to the head of the Parasitary Diseases Laboratory at the Oswaldo Cruz Institute, Dr. Jose Rodrigues Coura, the best way to deal with the theme is starting from education.

Dr. Coura, who defines himself as a “tropicalist” (those who treat diseases that strike the tropical countries), alerts that among those with greater risk of infection, are the professional vegetable collectors, especially of piaçava, a palm tree which’s fiber is used for broom manufacturing. “People spend great part of their years in the piaçava forests, collecting fibers. This happens because in the amazon, for 6 months the riverbeds dry and there is no way to get around with boats, forcing people to spend six months with their families in these places”, explains.

The triatomes or kissing bugs, the Chagas’ disease vectors, are commonly known in Brazil as “barbeiros” and feed on wild animal’s blood. Since these animals are a protein source for people living in the piaçava forests, the insects end up migrating from the forests to the environments around the residences or even inside the households, increasing the risk of infection. “There are places where 11% of the individuals are highly exposed to T. cruzi” affirms the physician adding that the local population is used to kill the kissing bug as if they were flies, not making use of any effective preventive measure.

Since it is not possible to remove the workers and their families from the piaçava forests, since many times it is their only source of income, Dr. Coura suggests putting educational measures in practice, especially among the children. He quotes an experiment, conducted from 1974, that helped eradicate the disease in the city of Bambuí, in Minas Gerais. At the time, teachers were trained to teach their students to collect the insects in matchboxes and, then, bring to school. The boxes were then labelled and sent for laboratory examination in order to confirm the type and if the specimen was actually infected with the causing agent of Chagas’ disease, the Trypanosoma cruzi (T. cruzi). At last, a sanitary agent would visit the residences where the insects were found and spray insecticide at the sites.

“Sometimes the adults, even after notice, do not take action. Children are simpler, since they are interested in helping. Kids find everything. Since almost every community has a school, the teachers should undergo a basic course to guide their students to look for kissing bug’s developing points around the house”, explains the expert.

Dr. Coura also suggests the creation of specific mosquito nets against triatomes to be used inside the households. Still according to the doctor, the World Health Organization developed a manual in his laboratory to train microscopy experts specialized in malaria to identify the T. cruzi. “In case any individual is identified, this person should be immediately called in for treatment”, he stresses.

Despite cases involving migrants in the USA, Europe and some Asian countries, Chagas’ disease strikes especially those in tropical countries. Around 8 million people living in South and Central Americas and Mexico are infected by the T. cruzi, which kills over 12 thousand people every year.