
De acordo com o Dr. Ali Khamesipour , a presença da leishmaniose, ainda que em baixas incidências, é um desastre para a Europa. Ele é categórico ao dizer que existe um risco potencial, não para toda a Europa, mas para partes do continente. Ainda de acordo com ele, o avanço da leishmaniose entre imigrantes do Oriente Médio que chegaram ao Novo Mundo nos últimos anos é possivelmente um reflexo da mudança climática e de flebótomos mais prevalentes. O especialista também chama a atenção para a expansão da leishmaniose para áreas não endêmicas devido às mudanças climáticas, que podem fazer com que regiões se tornem propensas ao desenvolvimento de flebótomos, o que permitiria que a doença migrasse para esses locais.
Para saber mais sobre este assunto, veja a entrevista completa com o Dr. Ali Khamesipour.
SBMT: Qual é a situação dos refugiados do Oriente Médio na Alemanha em relação à leishmaniose?
Dr. Ali Khamesipour: Foi relatado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – ACNUR que cerca de 65,3 milhões de pessoas tenham se deslocado até o final de 2015, das quais 40,8 milhões se deslocaram internamente, 21,3 milhões eram refugiados e 3,2 milhões buscavam asilo. O número de sírios refugiados pela guerra é aproximadamente 5 milhões apenas nos países vizinhos. Mais de um milhão de imigrantes e pessoas em busca de asilo chegaram à Alemanha em 2015.
SBMT: Há um risco potencial de um surto de leishmaniose na Europa, em virtude desses refugiados?
Dr. Ali Khamesipour: É muito pessimismo prever um surto de leishmaniose na Europa, mas mesmo a presença de leishmaniose, ainda que com baixa incidência, é um desastre para a Europa e tudo que é possível dizer é que há um risco potencial – não para toda a Europa – mas para algumas partes, pelas seguintes razões:
- A leishmaniose atualmente é endêmica em alguns lugares da Europa, e no passado também foi endêmica em outras regiões.
- Os flebótomos, que são os vetores das leishmanioses existem em algumas partes da Europa.
- Embora cada espécie de flebótomo seja vetor de um tipo específico de Leishmania, algumas espécies de flebotomíneos atuam como vetores permissivos, transmitindo mais de uma espécie de Leishmania.
SBMT O que pode ser feito para evitar que isso ocorra?
Dr. Ali Khamesipour: As autoridades devem permanecer alertas. Refugiados, especialmente aqueles oriundos de áreas endêmicas ou que tenham viajado para estes lugares recentemente, devem passar por exames físicos com precisão. Identificar os pacientes e cuidar de lesões é crucial. É preciso considerar que o período de incubação é longo, geralmente até 8 meses, mas pode ser ainda mais.
SBMT: Existe a possibilidade de uma proliferação de leishmaniose entre os imigrantes do Oriente Médio que chegaram no novo mundo nos últimos anos como refugiados?
Dr. Ali Khamesipour: Sim, existe essa possibilidade devido ao clima tropical e flebotomíneos mais prevalentes.
SBMT: Podemos dizer que a doença se tornou um efeito colateral da crise dos refugiados? Na Síria, por exemplo, a doença é endêmica desde épocas remotas – o primeiro caso foi diagnosticado em 1745 – mas antes da guerra limitou-se a duas áreas em torno de Alepo e Damasco. Em 2016, de acordo com um artigo publicado na revista científica PLoS Neglected Tropical Diseases, o número de casos ultrapassou 100.000 por ano. Os autores atribuíram esse aumento ao deslocamento em massa de populações no país e a mudanças no habitat dos flebótomos. O que você acha que mudou desde então?
Dr. Ali Khamesipour: Com certeza é verdade. A incidência anual de Leishmaniose cutânea em toda a Síria era inferior a 30.000 casos por duas décadas antes da guerra, mas a incidência de 100.000 mencionada no trabalho é apenas para as regiões sob domínio do governo Sírio, então no país inteiro pode ser maior ainda.
SBMT: Casos de leishmaniose já foram reportados em todos os continentes, exceto Austrália e Antártica. Você acredita que a mudança climática pode levar a doença a esses lugares também?
Dr. Ali Khamesipour: A expansão da Leishmaniose para áreas não-endêmicas com mudanças climáticas que acontece agora, pode tornar algumas regiões propícias ao desenvolvimento de Phlebotomus e a doença poderá migrar para esses lugares.
SBMT: Quais são as perspectivas em relação ao desenvolvimento de vacinas para leishmaniose humana?
Dr. Ali Khamesipour: Teoricamente, o desenvolvimento de vacinas contra leishmaniose não é difícil. Pessoas que moram em áreas endêmicas para leishmaniose cutânea (LC) e desenvolvem a doença uma vez, estarão protegidas pelo resto da vida após a cicatrização, e o uso da leishmanização, que é a inoculação de Leishmania major virulenta em uma pessoa para induzir uma lesão de LC artificial, após a cicatrização a pessoa adquire proteção natural. Além disso, a cura da lesão de LC ocorre juntamente com uma forte resposta imune contra antígenos de Leishmania, que é possível de ser demonstrado através de testes in vivo e in vitro. Praticamente nenhuma vacina está disponível contra qualquer forma de leishmaniose. Eu pessoalmente considero crítica a falta de colaboração real entre os laboratórios de alta tecnologia – que estão bem equipados e têm dinheiro suficiente e as áreas endêmicas que geralmente carecem de infraestrutura com o problema da doença. Se houvesse colaboração entre ambos o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento, a criação de uma vacina protetora para humanos seria possível.
SBTM: Você poderia falar sobre as precauções a serem tomadas em relação à segurança da vacina?
Dr. Ali Khamesipour: Eu não vejo nenhuma manifestação de preocupação em relação a vacinas contraLeishmania entre cientistas em relação ao fato de que milhões de pessoas já se infectaram ao redor do mundo e a doença não gera nenhum problema além dela própria. Milhões de pessoas foram leishmanizadas, e o único problema foi o desenvolvimento de lesão de LC. Milhares de pessoas no novo e no velho mundos foram vacinadas usando vacinas de primeira geração ou usando o antígeno leishmanin (Montonegro), e nenhum efeito colateral foi constatado excedo do que já era previsto, como reação local.
SBMT: Gostaria de acrescentar algo mais?
Dr. Ali Khamesipour: Eu gostaria de acrescentar que a ferramenta mais prática para controlar a doença é o desenvolvimento de uma vacina, mas francamente, os esforços para o desenvolvimento de uma vacina até agora foram muito menores do que era esperado para que se pudesse cogitar o desenvolvimento de uma vacina contra uma doença parasitária. Você pode comparar o orçamento atribuído a este problema.
A leishmaniose é uma doença negligenciada e as ferramentas disponíveis para diagnósticos e tratamentos são primitivas, com pouco avanço, independentemente de avanços em outras ciências médicas. Talvez seja o momento certo para dar um passo à frente e fazer algo sobre a leishmaniose.



