Apoio internacional: os dois lados do auxílio aos países pobres

Pesquisador do Ipea destaca que ajuda de países ricos tem seus méritos, desde que acompanhada de um “impulso interno de mudança”
Amidst an impasse in the theme, the most affected countries are those that, besides poverty, are directly or indirectly involved in armed conflicts or extreme droughts affecting agricultural production
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Em meio ao impasse sobre o tema, os países mais afetados são aqueles que, além da pobreza, estão envolvidos direta ou indiretamente em conflitos armados ou secas extremas que afetam severamente a produção agrícola

Nações com péssimas condições de habitação, falta de saneamento e crescimentos populacionais desordenados estão entre as mais propensas à incidência de conhecidas doenças tropicais como esquistossomose e leishmaniose. Não há dúvida de que países nessas condições, como o Sudão do Sul, precisam urgentemente de apoio internacional. Mas até que ponto esse tipo de auxílio é positivo?

Especialista em temas como mobilidade social, pobreza e desigualdades, o doutor em Sociologia Rafael Guerreiro Osório ressalta haver duas visões sobre o tema: tanto os dos que acreditam ser impossível a superação da pobreza sem a ajuda internacional, quanto os que consideram tipo de auxílio mais como danoso do que ajudado no desenvolvimento.

Em relação aos aspectos negativos, Osório – também pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – destaca o argumento de alguns especialistas de que o apoio de países ricos pode dificultar o surgimento de um impulso interno pela mudança social. “[Quem compartilha dessa visão] considera a ajuda internacional como mais causa de danos do que de ajuda no desenvolvimento. Seja por efeitos econômicos adversos – pois quando é muito grande em relação à economia do país pode causar ou potencializar a ‘doença holandesa’ [um mal ocorrido na Holanda em 1960, quando o aumento do preço do gás atraiu capitais e valorizou o câmbio, reduzindo a competitividade dos produtos manufaturados], seja por que, ao ser apropriada por elites dominantes, gera um desinteresse dessas pelo desenvolvimento humano, institucional e econômico do país, incentivando a manutenção do establishment que as beneficia”. Ainda de acordo com o pesquisador, nessa visão, a mudança precisa vir de dentro, já que a ajuda internacional é contraproducente e paternalista. “Ao carregar o fardo do homem branco, a ajuda internacional pode mesmo dificultar o surgimento desse impulso pela mudança social”, diz.

De outro lado, há os que acreditam ser impossível a superação da pobreza pelas nações mais pobres sem a ajuda externa, já que esses países se constituíram mais tarde e se integraram a uma ordem internacional na qual simplesmente não podem ser competitivas. “Isso por razões que vão da geografia às próprias circunstâncias da pobreza, como: não ter recursos naturais; ter um território com grandes áreas sujeitas a secas ou outros eventos climáticos extremos; não ter acesso ao litoral; estar cercado por – ou próximo a – nações em conflito ou também muito pobres; ter aglomerados urbanos insalubres em expansão desordenada em áreas recentemente desmatadas ou atingidas por processos súbitos de urbanização, ter grandes parcelas da população sem acesso a serviços minimamente estruturados de educação e saúde etc”, lembra o sociólogo.

Porém, explica o pesquisador, qualquer um com alguma vivência na área, creio, reconheceria a pertinência de evidências e de argumentos apresentados pró e contra a ajuda internacional, que indubitavelmente tem seus méritos, mas precisa estar acompanhada de um impulso interno de mudança.

Em meio ao impasse sobre o tema, os países mais afetados são aqueles que, além da pobreza, estão envolvidos direta ou indiretamente em conflitos armados ou secas extremas que afetam severamente a produção agrícola, de acordo com Osório. E é difícil, segundo ele, tentar prever o que acontecerá com essas nações. “Fenômenos recentes e não antecipados, ou considerados improváveis, como o Brexit e a eleição de Trump, parecem fazer parte de uma onda que inclui movimentos isolacionistas, xenófobos e uma redução generalizada de recursos de variadas ordens que apoiavam ou estimulavam o desenvolvimento. Mas nada impede que uma eventual reação gere, daqui há um década, um contexto mais favorável para o desenvolvimento das nações mais pobres”, finaliza.

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