Naegleria fowleri: infecção rara mantém alerta para diagnóstico e vigilância

Especialista, referência nacional no tema, defende maior suspeição clínica, diagnóstico rápido e monitoramento ambiental no Brasil
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Não precisamos criar alarme em torno de Naegleria fowleri, mas precisamos deixar de tratá-la como se fosse uma possibilidade inexistente no Brasil, diz a Dra. Marilise Brittes Rott

Lillian Smart morreu em 22 de agosto, um dia depois de completar oito anos. A menina, moradora de Ruston, no norte da Louisiana, nos Estados Unidos, passou os últimos dias de vida em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica após contrair uma infecção por Naegleria fowleri, um microrganismo que a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Autoridades de saúde indicaram que a exposição mais provável ocorreu durante um banho no Lago Claiborne, dias antes. Foi o quarto caso registrado no estado desde 1937. O episódio foi noticiado pelo The Guardian e pela CNN .

O óbito da criança recolocou em destaques as amebas de vida livre, microrganismos presentes no solo, em biofilmes, reservatórios, sistemas de abastecimento e diferentes ambientes aquáticos. Ao contrário de parasitas como Entamoeba histolytica, causadora da amebíase, esses organismos não dependem de hospedeiros humanos para sobreviver. Algumas espécies podem provocar infecções graves. Naegleria fowleri causa a meningoencefalite amebiana primária (MAP), doença de evolução rápida e alta letalidade. Espécies de Acanthamoeba estão associadas à ceratite, mais frequente entre usuários de lentes de contato, e à encefalite amebiana granulomatosa (EAG), geralmente de progressão mais lenta. Balamuthia mandrillaris também causa formas neurológicas graves.

Termofílica, N. fowleri prolifera em águas doces quentes, apresenta crescimento ótimo em temperaturas elevadas e pode crescer em temperaturas próximas de 45 °C. A infecção não ocorre pela ingestão da água, mas quando água com trofozoítos, a forma ativa, móvel e de alimentação do protozoário, entra pela cavidade nasal. A ameba alcança o sistema nervoso central pela via olfatória. Não há transmissão de pessoa para pessoa. Os sintomas iniciais, como cefaleia intensa, febre, náuseas e vômitos, podem se confundir com os de meningites bacterianas ou virais. Em poucos dias, o quadro pode avançar para rigidez de nuca, confusão mental, convulsões, coma e morte. Nos Estados Unidos, cerca de 180 casos foram confirmados entre 1937 e 2025, quase todos fatais.

Um estudo divulgado como preprint no bioRxiv, no fim de 2025, investigou como amebas do gênero Naegleria se deslocam em espaços estreitos. O trabalho, intitulado “Naegleria amoebae seek confinement and crawl persistently through narrow spaces” , utilizou a espécie não patogênica Naegleria gruberi, do mesmo gênero de N. fowleri. Os autores observaram uma preferência por canais estreitos e levantaram a hipótese de que essa característica tenha relação com a busca por bactérias em fendas e sedimentos. A pesquisa foi destacada pela revista Science na reportagem “Brain-eating amoeba’ appears to love crawling into narrow spaces”.

Em 2025, Kerala, na Índia, registrou um grande surto de MAP. O estudo publicado em maio de 2026 na Communications Medicine, “Host factors, inflammatory markers, and clinical outcomes of Naegleria fowleri meningoencephalitis”, analisou 200 casos confirmados em laboratório. Entre os 134 pacientes que já apresentavam desfecho conhecido no fechamento do estudo, a letalidade foi de 45,5%, substancialmente inferior às taxas historicamente descritas. Os demais 66 pacientes ainda estavam em tratamento.

No Brasil, uma das principais lacunas é o subdiagnóstico. A professora Marilise Brittes Rott, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), referência nacional no tema, considera provável que exista subnotificação das infecções por amebas de vida livre. “No caso da meningoencefalite amebiana primária, causada por Naegleria fowleri, em artigos do nosso grupo de pesquisa já havíamos chamado atenção para isso. Encontramos cinco casos humanos descritos anteriormente no Brasil, todos antigos, das décadas de 1970 e 1980, sendo que alguns não possuíam confirmação por métodos mais específicos, como imunohistoquímica ou técnicas moleculares. Depois disso, houve um longo período praticamente sem registros”, afirma.

Para a pesquisadora, a escassez de notificações não deve ser interpretada como ausência da doença no País. O caso ocorrido no Ceará, em setembro de 2024, e confirmado em dezembro daquele ano, de um bebê de 15 meses que morreu após provável exposição à água de açude usada no banho doméstico, reforçou esse alerta. “Ele mostrou de forma concreta que a MAP pode ocorrer atualmente no Brasil e que não se trata apenas de uma doença descrita nos Estados Unidos, Paquistão ou outros países”, enfatiza. A especialista pondera que o episódio não produziu, necessariamente, uma mudança estrutural na vigilância nacional. Ela identifica quatro fatores críticos, baixa suspeição clínica, número reduzido de laboratórios com diagnóstico específico, conhecimento limitado sobre a distribuição ambiental dessas amebas e condições climáticas favoráveis à sua manutenção.

“O que mais me preocupa no Brasil é a combinação de quatro fatores, baixa suspeição clínica, poucos laboratórios com diagnóstico específico, conhecimento ainda limitado sobre a distribuição ambiental dessas amebas e condições climáticas muito favoráveis à sua manutenção”, frisa. O grupo coordenado pela Dra. Rott já identificou amebas de vida livre em torres de resfriamento de ar-condicionado, ambientes hospitalares, água, piscinas termais e outros sistemas aquáticos. A confirmação molecular de N. fowleri feita pela equipe ocorreu, porém, em tecido cerebral de um bovino no Rio Grande do Sul. “Nosso estudo é o primeiro a confirmar a presença de N. fowleri no Brasil por meio de diagnóstico molecular, e a sequência identificada foi depositada no GenBank”, complementa.

A ocorrência chama atenção para o risco potencial no Sul do País, região que costuma ser associada a temperaturas mais baixas. Estudos internacionais já descrevem casos em estados norte-americanos historicamente mais frios, como Minnesota, Kansas e Indiana, o que sustenta a hipótese de expansão geográfica associada ao aquecimento das águas. “Isso é particularmente relevante para o Sul do Brasil. Nós já confirmamos molecularmente N. fowleri em um bovino no Rio Grande do Sul, e houve dois casos bovinos no mesmo município em anos diferentes. Ambos ocorreram em propriedades com áreas sujeitas a alagamentos, e os casos foram registrados no verão, quando as temperaturas podem ultrapassar 30 °C. Portanto, eu não consideraria o Sul do Brasil, mesmo apresentando temperaturas mais frias, fora da área de risco potencial”, admite a pesquisadora.

Ao considerar o panorama brasileiro, a atenção deve abranger açudes, lagoas, rios de pouca circulação, águas rasas aquecidas pelo sol, fontes termais, piscinas com cloração inadequada e reservatórios sem manutenção. O risco também envolve situações em que a água entra pelo nariz, como mergulhos, saltos, brincadeiras aquáticas e irrigação nasal. “Em alguns locais, como no Paquistão, muitos casos ocorreram em pessoas que não tinham história de natação recreativa, mas tinham exposição nasal a água contaminada durante banho ou lavagem nasal. Por isso, no contexto brasileiro, é importante ampliar a percepção de risco para além do clássico ‘banho em lago’, assinala.

Para a Dra. Rott, a morte de Lillian Smart mostra que uma doença rara pode surgir quando calor, água doce e exposição nasal se combinam, sobretudo entre crianças e jovens. O risco individual, ressalta, é muito baixo, mas a informação dada ao profissional de saúde pode ser decisiva para a investigação. “Acho importante atentar que os sintomas podem surgir entre 1 e 12 dias após a exposição e que, depois do início clínico, a evolução pode ser extremamente rápida, levando à morte em poucos dias. O médico que recebe uma criança ou adulto jovem com meningoencefalite aguda deveria sempre perguntar se houve contato recente de água com as narinas. Essa pergunta simples pode mudar completamente a condução do caso”, diz.

O diagnóstico permanece difícil em razão da baixa suspeição clínica, das limitações laboratoriais e do número reduzido de laboratórios capacitados. A MAP pode se apresentar inicialmente de forma semelhante a uma meningite bacteriana ou viral, com febre, cefaleia, náuseas e vômitos, seguida de rápida progressão para manifestações neurológicas, como convulsões, o que faz com que alguns casos só sejam reconhecidos após o óbito. A microscopia do líquor pode demonstrar trofozoítos, mas exige experiência. Métodos moleculares permitem a detecção específica do agente. A reação em cadeia da polimerase (PCR) pode ser realizada diretamente em espécimes clínicos, sem depender necessariamente de cultivo prévio, enquanto a PCR em tempo real pode acelerar ainda mais a confirmação. “Portanto, o desafio é juntar suspeita clínica, acesso rápido ao laboratório de referência e método molecular”, argumenta.

Há pesquisas voltadas a ferramentas diagnósticas mais rápidas, como a técnica Loop-Mediated Isothermal Amplification, ou Amplificação Isotérmica Mediada por Loop (LAMP), e à ampliação dos bancos de dados de sequências genéticas de N. fowleri. Na área ambiental, a prioridade inclui tratamento adequado da água, cloração de piscinas, limpeza de reservatórios e monitoramento redobrado nos meses quentes. A pesquisadora também lembra a abordagem de Saúde Única (One Health), que integra saúde humana, animal e ambiental. “Esses organismos estão no ambiente e podem causar doença tanto em seres humanos quanto em animais. A ocorrência de dois casos de meningoencefalite por N. fowleri em bovinos no mesmo município do Rio Grande do Sul, em anos diferentes, já havia nos alertado para a possibilidade de ocorrência de casos humanos em regiões onde a infecção fosse identificada em animais. Os animais podem funcionar, portanto, como sentinelas ambientais”, cita.

Para a população, as principais medidas de redução de risco incluem evitar a entrada de água pelo nariz em lagos, rios, açudes e outras coleções de água doce aquecida; utilizar clipe nasal quando necessário; evitar mergulhos de cabeça e a movimentação do sedimento no fundo; não utilizar água de torneira sem fervura prévia, filtragem adequada ou outro tratamento para lavagem nasal; e manter piscinas sob tratamento e cloração adequados. Em situações de sintomas sugestivos de meningoencefalite após exposição nasal recente a água doce quente ou não tratada, a procura imediata por atendimento de saúde e o relato da exposição podem contribuir para a investigação clínica. Para a Dra. Rott, o País precisa reduzir a lacuna de conhecimento sobre esses organismos nas águas brasileiras. “Eu defenderia uma combinação de vigilância ambiental, diagnóstico precoce, saneamento, educação da população e pesquisa científica. Não precisamos criar alarme em torno de Naegleria fowleri, mas precisamos deixar de tratá-la como se fosse uma possibilidade inexistente no Brasil”, finaliza.

Desafios diante de um risco

Uma revisão publicada na Infectious Disease Reports, em 2026, intitulada “Global Review on Naegleria fowleri Cases: Contemporary Epidemiology, Diagnosis, Treatment and Outcomes”, analisou casos publicados entre 2000 e 2024. A média anual passou de cerca de um caso entre 2000 e 2005 para pouco mais de quatro entre 2020 e 2024. A maioria dos pacientes era do sexo masculino, e a idade mediana foi de 14 anos. Estados Unidos, Índia e China concentraram grande parte dos registros.

Outro estudo, publicado no Emerging Infectious Diseases, periódico do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), “Epidemiology of and Risk Factors for Amebic Meningoencephalitis, Kerala, India, 2025”, descreveu 159 casos de meningoencefalite amebiana em Kerala. Entre os casos confirmados por PCR em tempo real, a maioria foi causada por Acanthamoeba. O levantamento maior ocorrência de casos durante os períodos de monção e pós-monção e indicou a necessidade de investigar fontes de exposição que vão além dos locais de banho recreativo, incluindo o uso doméstico de água de poços não clorados.

No campo da ceratite amebiana, a forma mais comum de infecção por Acanthamoeba, um estudo brasileiro recente, intitulado “ Targeted Identification of Acanthamoeba in Clinical Corneal Specimens Using a Monoclonal Antibody: Proof of Concept for a New Diagnostic Tool”, avaliou o uso de anticorpo monoclonal e fragmentos recombinantes para identificar a ameba diretamente em amostras de córnea. O método reconheceu trofozoítos e cistos de Acanthamoeba, sem reação específica com fungos, bactérias ou tecido humano, e apresentou resultados promissores em espécimes clínicos. Trata-se de uma prova de conceito para uma potencial nova ferramenta diagnóstica, com resultados promissores, que ainda requer validação em estudos com maior número de amostras clínicas.

As mudanças climáticas ampliam a discussão sobre a presença dessas amebas em áreas antes consideradas de baixo risco. Uma revisão publicada em 2026 no International Journal of Environmental Research and Public Health, “Naegleria fowleri and Risk of Primary Amoebic Meningoencephalitis in a Changing Climate: A Scoping Review of Biomedical Literature”, reúne dados sobre a relação entre o aumento da temperatura das águas e a possibilidade de expansão da área de ocorrência do organismo.

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