MEDTROP 2027 desembarca em Natal com foco em ciência, inovação e dados

O 62º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical será realizado de 22 a 25 de agosto de 2027, no Centro de Convenções de Natal, reunindo comunidade científica, profissionais de saúde, gestores e estudantes
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A presidente MEDTROP 2027, Dra. Selma Jerônimo, comenta os preparativos para a nova edição e a expectativa de reunir os tropicalistas em Natal

O Rio Grande do Norte volta a sediar o Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP) em 2027, após receber as edições em 1980, 1990 e 2011. De 22 a 25 de agosto, Natal vai reunir pesquisadores, profissionais de saúde, gestores, estudantes e representantes da sociedade civil no Centro de Convenções, um dos principais espaços para eventos científicos e institucionais da região. Localizado na Via Costeira, entre a orla da capital potiguar e a rede hoteleira, o Centro de Convenções de Natal dispõe de infraestrutura completa para receber um dos maiores congressos de Medicina Tropical da América Latina, com condições para conferências, mesas-redondas, exposições, reuniões institucionais e apresentação de trabalhos científicos.

Ao retornar a Natal, um dos principais destinos turísticos do Nordeste, o MEDTROP 2027, que tem como tema “Ciência de dados, medicina translacional e Inovação para ação em Saúde e controle de doenças”, se dirige a um estado marcado pela diversidade ambiental, pela relevância estratégica para a saúde pública e por uma produção acadêmica consolidada. Além da programação científica, os participantes encontrarão uma cidade reconhecida pelas praias, dunas, patrimônio histórico, manifestações culturais e gastronomia que reúne sabores do litoral e do sertão, com pratos à base de peixes, frutos do mar, carne de sol, macaxeira e tapioca. Para apresentar mais detalhes sobre o evento, a assessoria de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) entrevistou a presidente do MEDTROP 2027, Dra. Selma M.B. Jerônimo.

Confira a entrevista na íntegra.

SBMT: Natal recebe novamente o MEDTROP. Qual é o significado de levar o congresso à capital potiguar em 2027?

Dra. Selma Jerônimo: Receber novamente o MEDTROP em Natal, pela quarta vez, é uma grande honra para os profissionais de saúde, gestores e a comunidade acadêmica do Rio Grande do Norte. O congresso representa um importante espaço para a apresentação e discussão de novos conhecimentos sobre as doenças tropicais e negligenciadas que ainda constituem desafios para o nosso País e para muitos países do mundo. Mais do que reunir especialistas, o MEDTROP nos permite conhecer o que há de mais atual, refletir sobre os desafios regionais e definir caminhos para transformar conhecimento científico em ações de prevenção, diagnóstico, tratamento e controle das doenças. Levar o congresso a Natal em 2027 também significa reconhecer a importância do Norte-Nordeste e de seus pesquisadores na produção de conhecimento em medicina tropical e reafirmar o compromisso da ciência com os problemas de saúde que afetam nossa população.

SBMT: O MEDTROP reúne diferentes áreas do conhecimento e da atuação em saúde. Para a senhora, qual papel o congresso desempenha na integração entre pesquisa, assistência, vigilância e gestão?

Dra. Selma Jerônimo: O MEDTROP é um espaço privilegiado de encontro entre atores de diferentes áreas do conhecimento do Brasil e do exterior. Essa integração é especialmente importante na Medicina Tropical, em que as condições ambientais, sociais e econômicas influenciam tanto o risco de adoecimento quanto a gravidade das doenças. O congresso cria um ambiente dinâmico para a troca de conhecimentos e experiências, reunindo dados colhidos por pesquisadores experientes, estudantes de graduação e pós-graduação, além das contribuições dos profissionais que atuam diretamente nos serviços de saúde. Essa interação é profícua, pois pode gerar novas perguntas ou estimular a busca de respostas para questões ainda não respondidas. As oficinas e os cursos pré-congresso ampliam ainda mais esse espaço de formação e discussão. A partir desse diálogo, podemos avaliar criticamente as evidências disponíveis, identificar lacunas e construir novas estratégias, aproximando a pesquisa das necessidades da assistência, da vigilância e da gestão. Assim, o MEDTROP não é apenas um espaço para apresentar resultados, mas um fórum para transformar conhecimento em ação e construir, de forma integrada, respostas mais efetivas aos desafios das doenças tropicais e negligenciadas.

SBMT: Quais desafios da Medicina Tropical e da saúde pública devem ocupar posição central nos debates do MEDTROP 2027?

Dra. Selma Jerônimo: Os desafios da Medicina Tropical ultrapassam as fronteiras dos países tropicais. Migrações, mudanças ambientais, ocupação de novos territórios e o aumento da temperatura global favorecem a expansão de vetores e patógenos, transformando doenças tropicais em problemas de saúde global. O MEDTROP 2027 deve discutir não apenas o controle das doenças, mas também seus determinantes ambientais e sociais, fortalecendo a prevenção, a educação, a vigilância contínua e as intervenções sustentadas.

Outro desafio é a inovação em diagnósticos, vacinas e medicamentos. Muitas doenças negligenciadas não representam mercados atrativos para a indústria, exigindo maior indução governamental, financiamento da pesquisa e parcerias entre academia, setor público e indústria. As populações vulneráveis enfrentam ainda uma dupla carga de doenças, combinando infecções com obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares.

O Brasil tem uma vantagem, uma atenção primária estruturada e capilarizada. Com capacitação, integração à vigilância e metas claras, suas equipes podem identificar riscos precocemente e aproximar academia, serviços e gestão. O MEDTROP 2027 deve, portanto, pensar a Medicina Tropical de forma integrada, articulando ciência, ambiente, inovação, atenção primária, vigilância e políticas públicas diante de problemas cada vez mais globais.

SBMT: As arboviroses seguem entre os principais desafios sanitários do País. Que contribuições o MEDTROP pode oferecer para qualificar a prevenção, a vigilância e o cuidado às pessoas afetadas?

Dra. Selma Jerônimo: As arboviroses são um grande desafio para o Brasil e para o mundo. O MEDTROP reúne pesquisadores, estudantes, profissionais do Ministério da Saúde e gestores, criando um ambiente único para integrar ciência, vigilância e assistência. Na prevenção, precisamos ir além das ações individuais. O controle do Aedes depende de ações macro, de decisões governamentais voltadas ao saneamento, abastecimento contínuo de água, condições ambientais adequadas e redução dos criadouros, associados à educação da população e a ações contínuas no território. O conhecimento sobre a adaptação do vetor e a resistência aos inseticidas deve orientar novas estratégias.

Na vigilância, é fundamental aproximar vigilância epidemiológica, entomológica e pesquisa. Ferramentas moleculares, como a qPCR para detecção de arbovírus em vetores, podem identificar precocemente a circulação viral e antecipar riscos. No cuidado, o conhecimento científico deve ser transformado em protocolos e estratégias para os serviços, com capacitação das equipes para reconhecer sinais de gravidade e organizar o atendimento nos períodos críticos. O MEDTROP é um fórum, mas enfrentar as arboviroses é uma responsabilidade compartilhada.

SBMT: O Nordeste apresenta experiências relevantes em pesquisa, formação profissional, assistência e vigilância em saúde. De que modo o MEDTROP 2027 pode dar visibilidade à produção científica e às práticas desenvolvidas na região?

Dra. Selma Jerônimo: O Norte e o Nordeste brasileiro possuem universidades, institutos de pesquisa, unidades da Fiocruz, programas de pós-graduação de excelência e uma importante rede de serviços de saúde que produz conhecimento a partir dos problemas da população. Essa capacidade científica tem reconhecimento nacional e internacional. A epidemia de Zika foi um exemplo marcante, com pesquisadores e profissionais do Nordeste contribuindo para identificar e caracterizar manifestações neurológicas e congênitas, transformando uma observação regional em questão de saúde pública global.

Realizado em Natal, o MEDTROP 2027 pode ampliar a visibilidade dessa produção, dando espaço a pesquisadores, estudantes, profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) e gestores para apresentar resultados e experiências de vigilância, assistência, prevenção e controle. É fundamental valorizar também os estudantes, aproximando aqueles que iniciam sua trajetória dos cientistas já estabelecidos.

Natal oferece ainda a oportunidade de incorporar a voz dos territórios e das populações afetadas. O conhecimento nasce nos laboratórios, mas também nos serviços, nas comunidades e na interação com a população. O MEDTROP 2027 pode mostrar ao Brasil e ao mundo que o Nordeste não é apenas território de doenças tropicais, mas também de ciência, inovação e soluções.

SBMT: O congresso também constitui um espaço estratégico para estudantes e jovens pesquisadores. Que oportunidades o MEDTROP 2027 deve oferecer a essa nova geração?

Dra. Selma Jerônimo: O congresso tem um papel importante nesse processo. Ele reúne estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e jovens pesquisadores com cientistas experientes, gestores e profissionais de saúde. Essa convivência permite que o jovem conheça problemas reais, descubra perguntas ainda sem resposta e perceba que essas lacunas podem se transformar em excelentes oportunidades de pesquisa.

No MEDTROP 2027, como nas edições anteriores do congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, continuaremos ampliando esses espaços de interação por meio de sessões de discussão entre estudantes e pesquisadores, encontros com grupos de pesquisa, atividades de mentoria e oportunidades para conhecer programas de pós-graduação, projetos de colaboração e possibilidades de formação e trabalho.

Também é importante que o estudante tenha a oportunidade de apresentar seu trabalho, receber críticas e sugestões e perceber que sua pergunta científica pode contribuir para solucionar um problema da sociedade. Mais do que oferecer oportunidades acadêmicas, queremos que o MEDTROP proporcione encantamento pela ciência. A nova geração precisa descobrir que fazer ciência é formular boas perguntas, enfrentar aquilo que ainda não sabemos e buscar soluções para problemas que afetam a vida das pessoas. O congresso deve ser, portanto, não apenas um espaço para apresentar a ciência que fazemos hoje, mas um lugar para inspirar os cientistas que construirão a ciência de amanhã.

SBMT: A ciência brasileira enfrenta desafios relacionados ao financiamento, à infraestrutura e à incorporação de evidências nas políticas públicas. Como o MEDTROP 2027 pode fortalecer esse debate?

Dra. Selma Jerônimo: Os desafios da ciência brasileira são enormes. É preciso garantir recursos para novos projetos e para manter e atualizar a infraestrutura construída nas últimas décadas, incluindo laboratórios, equipamentos, biobancos e plataformas de genômica e processamento de dados. A dependência de insumos e equipamentos importados eleva custos e ameaça a continuidade das pesquisas. É necessário facilitar importações e estimular uma indústria nacional de ciência, tecnologia e inovação, aproximando pesquisa, desenvolvimento e produção de diagnósticos, medicamentos e outras tecnologias em saúde.

O MEDTROP 2027 pode fortalecer esse debate, aproximando pesquisadores, gestores, agências de fomento, formuladores de políticas e a indústria. As sociedades científicas devem transformar evidências em recomendações que considerem eficácia, custos, implementação e impacto no SUS.

Também precisamos enfrentar as causas dos problemas de saúde, como desigualdades sociais, condições ambientais inadequadas e investimentos insuficientes em prevenção, atenção primária e saneamento. A experiência da Covid-19 mostrou a importância de manter pessoal qualificado e infraestrutura preparada. O congresso pode contribuir para uma agenda nacional que aproxime ciência e decisão pública, identificando problemas, soluções, lacunas e investimentos necessários para transformar conhecimento em saúde.

SBMT: Qual perfil de programação a senhora pretende construir para garantir debates plurais e alinhados às demandas atuais da Medicina Tropical?

Dra. Selma Jerônimo: A programação do MEDTROP 2027 será construída em diálogo com a comunidade da Medicina Tropical, considerando as demandas atuais da ciência, dos serviços, da vigilância e da gestão em saúde. Será plural, reunindo diferentes áreas do conhecimento, regiões do País e gerações de pesquisadores, além de aproximar a academia, profissionais de saúde, gestores e sociedade. A programação abordará os grandes problemas da Medicina Tropical, da epidemiologia à fisiopatologia, incorporando novas tecnologias e suas possibilidades de aplicação. O Brasil possui grande riqueza de dados epidemiológicos, sistemas de informação, centros de excelência e redes de pesquisa. A experiência da pandemia de Covid-19 mostrou a importância da produção e análise de dados para orientar decisões. Por isso, ciência de dados, inteligência artificial e ferramentas ômicas terão espaço, sem perder de vista a epidemiologia, fundamental para identificar problemas, populações vulneráveis, fatores de risco e lacunas.

Oficinas, cursos e conferências serão articulados a esses eixos, conectando epidemiologia, medicina translacional, inovação e aplicação prática. Mais do que uma sequência de conferências, queremos um ponto de convergência para identificar prioridades, estimular colaborações e construir uma agenda para o presente e o futuro; epidemiologia para conhecer o problema e compreender os ciclos de doenças, ciência de dados para encontrar padrões e medicina translacional para transformar descobertas em soluções.

SBMT: A senhora pode deixar um convite à comunidade científica, aos profissionais de saúde, aos gestores e aos estudantes para o MEDTROP 2027?

Dra. Selma Jerônimo: Meu primeiro convite é a todos que estiveram no MEDTROP 2026, em Brasília, que sejam multiplicadores e tragam para Natal novos colegas, estudantes, pesquisadores, profissionais de saúde e gestores. Um congresso é feito pelos seus participantes e para eles. O MEDTROP 2027 terá uma missão especial, a de buscar novos horizontes para reduzir o sofrimento causado pelas doenças tropicais e negligenciadas e transformar conhecimento em ação. Não podemos aceitar que um País com a capacidade científica, tecnológica e econômica do Brasil ainda conviva com tantas doenças evitáveis, incapacitantes e fatais. Precisamos agir no presente e construir o futuro, reunindo ciência, serviços, gestão e sociedade na busca de soluções. Natal será nosso ponto de encontro entre ciência, inovação, natureza e cultura, reunindo um ambiente científico vibrante, uma universidade e instituições comprometidas com a Medicina Tropical e, ao mesmo tempo, uma natureza extraordinária. O mar de Ponta Negra, as dunas, o sol e a paisagem potiguar podem tornar essa experiência ainda mais especial, tudo isto ao som de belas músicas nordestinas. Venham fazer ciência, compartilhar conhecimento, construir parcerias e transformar ideias em soluções.

SBMT: Gostaria de acrescentar algo?

Dra. Selma Jerônimo: Historicamente, dividimos o conhecimento em áreas e especialidades para compreender problemas cada vez mais complexos. Mas os desafios atuais não respeitam essas fronteiras. Vivemos rápidas transformações, marcadas por novas tecnologias, mudanças ambientais, mobilidade das populações e emergência e reemergência de doenças. A Medicina Tropical precisa acompanhar esse movimento, integrando epidemiologia, ciência de dados, pesquisa básica, medicina translacional, vigilância, assistência e políticas públicas.

Ao mesmo tempo, não podemos deixar que o fascínio pelas novas tecnologias nos faça esquecer problemas antigos. Precisamos usar o conhecimento e a inovação para enfrentar doenças que ainda causam sofrimento, incapacidade e mortes evitáveis. O Brasil tem biodiversidade, capacidade científica, universidades, instituições de pesquisa e um sistema de saúde de grande capilaridade. Precisamos unir essas forças, formar novas gerações e transformar conhecimento em soluções. Essa é a Medicina Tropical que queremos construir no MEDTROP 2027.

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