Medicina Tropical ainda não é reconhecida como especialidade clínica, e sua inclusão nos programas de residência em infectologia permanece limitada e fragmentada
A Colômbia reúne condições ambientais e epidemiológicas que favorecem a circulação de diversas doenças infecciosas associadas a ambientes tropicais. Apesar desse cenário, a Medicina Tropical ainda não é reconhecida como especialidade clínica no país, e sua presença na formação de médicos especialistas permanece limitada. A constatação faz parte do artigo “Establishing tropical medicine as a recognized medical specialty or strengthening its training within infectious diseases residency programs in Colombia: an urgent need” publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), que analisa a estrutura da formação médica na área e discute lacunas na preparação de profissionais para lidar com enfermidades endêmicas que afetam sobretudo populações em regiões rurais e áreas de maior vulnerabilidade social.
O estudo investiga o panorama da Medicina Tropical na Colômbia, país localizado integralmente na zona intertropical e marcado por ampla diversidade ecológica e epidemiológica. A maior parte do território situa-se em áreas de clima tropical, com extensas regiões amazônicas, andinas e caribenhas que favorecem a presença de diferentes vetores e reservatórios naturais de patógenos. Esse contexto ambiental sustenta a circulação de numerosas doenças infecciosas e parasitárias, muitas delas associadas a condições socioambientais específicas e à distribuição desigual de serviços de saúde.
Entre os vetores de maior relevância epidemiológica estão mosquitos dos gêneros Anopheles e Aedes, associados a doenças como malária e dengue, além de flebotomíneos do gênero Lutzomyia, responsáveis pela transmissão da leishmaniose. A presença desses e de outros artrópodes vetores reflete a diversidade de ecossistemas do país e contribui para a manutenção de ciclos de transmissão que envolvem reservatórios animais e populações humanas em diferentes regiões. Determinantes sociais e ambientais também influenciam a dinâmica desses agravos. Transformações no uso do território, mudanças ambientais e desigualdades no acesso a serviços de saúde contribuem para a manutenção de diferentes doenças infecciosas em áreas onde condições socioeconômicas e ambientais favorecem a transmissão.
Nesse contexto epidemiológico, a Colômbia convive com um amplo conjunto de doenças tropicais relevantes para a saúde pública. Entre as mais representativas estão malária, dengue, leishmaniose e doença de Chagas, todas com transmissão registrada em diferentes regiões do território colombiano. A dengue figura entre as arboviroses de maior impacto em áreas tropicais do país, associada à ampla distribuição de Aedes aegypti e a fatores ambientais e urbanos que favorecem a circulação viral.
Outras infecções também compõem o panorama das doenças tropicais na Colômbia. A leptospirose é descrita como causa relevante de febre aguda indiferenciada em determinadas regiões, enquanto riquetsioses, bartonelose e hantaviroses aparecem entre as doenças infecciosos cuja presença pode permanecer subdiagnosticada em diferentes áreas do território. Além das infecções, acidentes por animais peçonhentos integram o campo da Medicina Tropical e representam importante causa de morbidade em regiões rurais. Acidentes por serpentes, escorpiões e aranhas, assim como acidentes provocados por lagartas do gênero Lonomia, estão entre os eventos que exigem diagnóstico e manejo clínico adequados em serviços de saúde.
Apesar da magnitude dessa realidade, o estudo aponta que a formação médica especializada ainda dedica espaço reduzido ao ensino sistemático da Medicina Tropical. Atualmente, sete universidades oferecem programas de residência em infectologia para adultos na Colômbia, concentrados principalmente em grandes centros urbanos como Bogotá, Medellín e Cali. De acordo com Dr. Álvaro A. Faccini-Martínez, autor correspondente do estudo, esses programas priorizam a formação voltada para a assistência hospitalar, com ênfase no manejo de infecções associadas à assistência à saúde, no uso racional de antimicrobianos e no tratamento de enfermidades como HIV, tuberculose e infecções respiratórias. Nessa perspectiva, a Medicina Tropical aparece de forma heterogênea nos currículos, com carga horária limitada ou, em alguns casos, ausente entre os módulos obrigatórios”, complementa.
Segundo o pesquisador, a Medicina Tropical ainda não é reconhecida como especialidade clínica na Colômbia, e sua inclusão nos programas de residência em infectologia permanece limitada e fragmentada. “Como resultado, médicos especialistas podem concluir sua formação com exposição clínica restrita a doenças endêmicas que continuam presentes em diferentes regiões do país. Mesmo nos programas em que o tema está formalmente incluído, a carga de ensino costuma representar apenas uma fração da formação total. Em alguns cursos, o conteúdo corresponde a poucos créditos acadêmicos ou a períodos curtos de atividades ao longo da residência”, ressalta o Dr. Faccini-Martínez.

Outro aspecto destacado diz respeito ao local de formação clínica em Medicina Tropical. Como as residências estão concentradas em hospitais de grandes centros urbanos, a exposição direta a casos de doenças tropicais permanece limitada. Muitas dessas enfermidades ocorrem com maior frequência em áreas rurais ou regiões periféricas, e parte dos casos não chega aos hospitais universitários onde ocorre a formação especializada. “Também identificamos integração limitada entre atividades clínicas e pesquisa em Medicina Tropical durante a residência. Embora existam instituições com tradição em investigação nessa área no país, a participação de residentes em projetos científicos ou estágios em centros especializados permanece restrita”, lamenta o pesquisador.
O estudo revela que experiências internacionais apresentam modelos de formação mais integrados. Programas desenvolvidos em diferentes países combinam ensino teórico, prática clínica, atividades de campo em áreas endêmicas e participação em pesquisa. Esse modelo amplia a exposição dos profissionais à diversidade de doenças tropicais e fortalece a abordagem interdisciplinar necessária para o enfrentamento desses agravos. Na América Latina, iniciativas de formação em Medicina Tropical encontram-se consolidadas em países como Brasil e Peru, onde programas acadêmicos e clínicos integram assistência, ensino e pesquisa em regiões com circulação dessas enfermidades.
Com base nesse panorama, o artigo aborda caminhos para ampliar a capacidade clínica e científica da Colômbia nessa área. Uma das estratégias consiste em fortalecer a Medicina Tropical dentro das residências já existentes em infectologia, com ampliação da carga horária dedicada ao tema e inclusão sistemática desse conteúdo nos programas de formação. Outra possibilidade analisada envolve a criação de um programa clínico específico de pós-graduação em Medicina Tropical. A proposta prevê formação voltada ao diagnóstico, ao manejo e à prevenção dessas doenças, associada a disciplinas como entomologia médica, ecoepidemiologia e atividades em regiões endêmicas.
Segundo o Dr. Faccini-Martínez, ampliar a formação clínica nesse campo contribui para aumentar a capacidade diagnóstica e aprimorar o manejo de doenças tropicais presentes em diferentes regiões do país, muitas delas com impacto relevante sobre populações historicamente expostas a condições de maior vulnerabilidade social e ambiental.
Confira o artigo “Establishing tropical medicine as a recognized medical specialty or strengthening its training within infectious diseases residency programs in Colombia: an urgent need” publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0527-2025.
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



