Acesso ao soro antiveneno ainda limita resposta a acidentes ofídicos na Amazônia, afirma especialista

Alta incidência, barreiras logísticas e atraso no tratamento mantêm impacto elevado entre populações indígenas e áreas remotas
ARTIGO 1

Na Amazônia, distância e falta de estrutura ainda atrasam o acesso ao soro antiveneno, fator decisivo para a gravidade dos acidentes com serpentes

Na Amazônia brasileira, os acidentes por serpentes seguem um padrão próprio, são mais frequentes, podem ser mais graves e, muitas vezes, são mais difíceis de tratar. A incidência chega a cerca de 55 casos por 100 mil habitantes, cinco vezes acima da registrada em outras regiões do País. Mas o dado, por si só, não explica o problema. É no caminho entre a picada e o acesso ao tratamento que se define a evolução do caso. E o impacto vai além da urgência clínica. Estima-se que os acidentes ofídicos gerem cerca de 8 milhões de dólares por ano em custos sociais na região, impulsionados por perda de produtividade, incapacidades e mortes precoces. Em áreas hiperendêmicas, especialmente entre populações indígenas, as sequelas fazem parte da rotina, ainda que faltem estudos sistemáticos de longo prazo.

O Dr. Wuelton Marcelo Monteiro, pesquisador da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), explica que o atraso no tratamento é determinante. Não é só uma questão de acesso, mas também de tempo. “Esse tempo raramente joga a favor do paciente. Em partes da Amazônia, até metade das pessoas picadas por serpentes não recebe atendimento no sistema público de saúde. E, quando chega, nem sempre encontra o soro, que está disponível apenas em alguns hospitais das áreas urbanas. Na maior parte das unidades o cuidado se limita ao básico, limpeza da lesão, analgesia, observação e encaminhamento do paciente. O antiveneno, única terapia específica, não está disponível”, lamenta.

Bothrops atrox, jararaca-da-Amazônia, serpente responsável por cerca de 90% dos acidentes ofídicos na região

A estrutura da assistência ajuda a entender a situação. Nos territórios indígenas, organizados em Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), o atendimento ocorre em unidades básicas. Não há hospitais nesses territórios. Casos mais graves dependem de remoção para centros urbanos, o que pode significar horas ou dias de deslocamento por rio e estrada. “O modelo atual foi desenhado com base em uma lógica hospitalar, mas essa lógica não conversa com a realidade da Amazônia profunda”, resume o Dr. Monteiro.

A dificuldade não é apenas geográfica. O próprio soro antiveneno impõe limites, pois exige uma cadeia de frio rigorosa do início ao fim. Produzido por instituições públicas brasileiras, como o Instituto Butantan, ele é eficaz e, em geral, seguro. Cerca de 10% dos pacientes podem apresentam reações precoces, geralmente leves, como urticária ou prurido. “Manter essa cadeia em áreas remotas é um desafio enorme. E, sem isso, o soro simplesmente não chega aonde deve estar”, reconhece o pesquisador. O resultado é um descompasso evidente. A região com maior incidência é, ao mesmo tempo, a que enfrenta mais obstáculos para tratar os casos. Isso se reflete na letalidade, que varia entre 0,5% em áreas urbanas a até 2% entre populações indígenas.

Nos últimos anos, uma tentativa de mudar essa realidade começou a ganhar forma. A proposta, segundo o Dr. Monteiro é relativamente simples em seu princípio, mas, na prática, envolve uma mudança importante de abordagem, ou seja, levar o antiveneno até o paciente. Esse é o objetivo do Programa Snakebite AntiVenom Implementation Need to Be Guaranteed (SAVING), que vem estruturando a oferta de soro em polos de saúde indígena, com equipes treinadas para o manejo dos casos. A iniciativa surgiu, de certa forma, a partir da pressão de lideranças indígenas, que passaram a demandar acesso ao tratamento dentro dos próprios territórios. Para o professor, a descentralização é, antes de tudo, uma resposta a uma necessidade concreta, pois não faz sentido manter o tratamento distante de quem mais precisa.

O programa foi financiado e conta com apoio do Ministério da Saúde, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e do National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos. A execução é conduzida pela Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) e pelo Ministério da Saúde, por meio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA). A próxima etapa, prevista ainda para este semestre, inclui a expansão do programa para mais 14 polos de saúde indígena, que já foram mapeados, visitados e contam com profissionais previamente capacitados.

A implementação envolveu articulação entre diferentes instituições, ajustes logísticos e interrupções provocadas pela pandemia de Covid-19. Ainda assim, o programa avançou, e os resultados começam a aparecer. Após a descentralização, a proporção de pacientes que receberam antiveneno nas primeiras seis horas praticamente dobrou, saltando de 40,8% para 75,8%. Também aumentou a proporção de casos leves atendidos e houve redução da mortalidade, que caiu de 4% para 0,8%. Segundo o Dr. Monteiro, na prática, isso significa menos complicações, menos sequelas e mais chances de recuperação. A experiência, segundo ele, também ajudou a enfrentar uma preocupação recorrente, a de que o uso do antiveneno fora de ambiente hospitalar poderia ser arriscado. “Entre os pacientes atendidos, apenas 2,4% tiveram reações adversas leves, todas manejadas localmente. É um tratamento seguro, desde que haja equipe treinada. E isso abre uma possibilidade real de ampliar o acesso”, destaca o Dr. Monteiro.

Outro efeito igualmente relevante foi o aumento da confiança das comunidades nos serviços de saúde. Com o tratamento disponível no território, a tendência é que o paciente procure ajuda mais cedo, o que, nesse tipo de acidente, pode fazer toda a diferença. “A experiência ainda é limitada a alguns polos, mas aponta um caminho. Mais do que expandir a oferta de um insumo essencial, trata-se de reorganizar a lógica de cuidado, considerando as distâncias, a cultura local e as condições reais de acesso. Se quisermos reduzir de fato a morbimortalidade por acidentes ofídicos na Amazônia, precisamos adaptar o modelo. Não dá para insistir em soluções que não chegam até o paciente”, frisa o Dr. Monteiro.

Primeiro tratamento com antiveneno em unidade de saúde indígena

O primeiro atendimento realizado no âmbito do Programa SAVING mostrou, na prática, os desafios e as possibilidades da descentralização do tratamento. Em 1º de dezembro de 2022, uma menina de 8 anos, da etnia Tikuna, moradora da Vila Novo Cruzador, atendida pelo polo de saúde Belém do Solimões, foi picada no pé esquerdo enquanto brincava em uma área próxima à sua casa, no interior do Amazonas. Inicialmente, a família recorreu a práticas tradicionais, aplicando sal e ervas trituradas no local da picada. Mesmo com a piora progressiva do quadro, os responsáveis resistiram em buscar atendimento médico. A situação só chegou ao conhecimento da equipe de saúde por meio de vizinhos.

Um enfermeiro e um auxiliar de enfermagem percorreram cerca de duas horas até a comunidade, em um trajeto que combinou deslocamento fluvial e caminhada pela mata, com suporte remoto de um médico. Ao chegarem, encontraram a criança em estado grave, com dor intensa, edema extenso no membro afetado, hematomas, sangramentos espontâneos, palidez acentuada e prostração. Diante da gravidade do quadro e da possibilidade de recusa de remoção, a equipe optou por levar o antiveneno até a aldeia, acondicionado em caixa térmica. A soroterapia foi iniciada 48 horas após a picada, com administração de 12 frascos de antiveneno antibotrópico, após pré-medicação.

Equipe realizando o resgate da primeira paciente

Após a infusão, a paciente foi transferida para o polo de saúde, transportada em rede. Nas horas seguintes, apresentou melhora clínica progressiva, com normalização do tempo de coagulação em cerca de 12 horas. Não houve reações adversas ao soro. Durante a internação, evoluiu com infecção bacteriana secundária, e foi tratada com antibiótico no polo. Recebeu alta dois dias depois, sem queixas.

“O caso sintetiza aspectos centrais do manejo de acidentes ofídicos na Amazônia. O atraso no acesso ao tratamento, a influência de práticas culturais, os entraves logísticos e, ao mesmo tempo, o potencial resolutivo da oferta descentralizada de antiveneno. É um exemplo claro de como o tratamento pode chegar ao paciente, mesmo em condições adversas, e mudar completamente a evolução do caso”, conclui o Dr. Monteiro. Para ele, a experiência demonstra que, apesar das limitações estruturais, o uso de antivenenos em unidades de saúde indígenas é viável e seguro quando há capacitação e suporte adequados, e pode representar um aprimoramento importante na resposta aos acidentes ofídicos em áreas remotas.

Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.

Gostou do conteúdo? Compartilhe com colegas e ajude a fortalecer a ciência.

Últimas notícias

plugins premium WordPress