
O Brasil permanece no centro da Chikungunya, doença viral transmitida por mosquitos que provoca principalmente febre alta e dores articulares que podem durar meses ou até anos. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em 3 de outubro, o vírus voltou a circular de forma expressiva no mundo, com 40 países relatando casos autóctones ou importados. A Região das Américas concentra a maior parcela das notificações, e o Brasil continua sendo o país mais afetado, respondendo por quase 96% das infecções confirmadas na região.
Entre janeiro e setembro de 2025, o País contabilizou 96.159 casos confirmados e 111 mortes, tornando-se o principal contribuinte para o aumento global de casos. O levantamento da OMS destaca que a transmissão persiste em áreas urbanas densamente povoadas, pressionando sistemas de vigilância e tornando o diagnóstico diferencial mais complexo, especialmente em contextos de circulação simultânea de arboviroses como dengue, febre do Oropouche e Zika.
Para o epidemiologista Dr. Luciano Pamplona, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o cenário atual evidencia que a Chikungunya já não é uma doença localizada, mas um desafio permanente de saúde pública. “A doença deixou de ser um problema pontual e se tornou endêmica em várias regiões do País. Isso significa que o vírus encontra condições favoráveis para circular continuamente, o que exige ações de vigilância e controle durante a maior parte do ano”, explica o pesquisador.
Na América Latina, a Bolívia aparece como o segundo país mais afetado, com 5.372 casos, 73% confirmados, e quatro mortes concentradas em Santa Cruz. Globalmente, até setembro, foram relatados 445.271 casos suspeitos e confirmados e 155 mortes em 40 países. Outros surtos significativos ocorreram em Maurício (1.583 casos) e no Quênia (614 casos em Mombaça), na África, na província chinesa de Guangdong (16.452), e na Indonésia, que registrou aumento de 158% em relação a 2024, além das ilhas do Oceano Índico, como La Réunion, com 54.517 casos e 40 mortes.
A OMS alerta que a expansão global da Chikungunya reflete uma combinação de fatores, entre eles, urbanização desordenada, alterações climáticas, falhas no controle vetorial e baixa imunidade populacional. Segundo o Professor Pamplona, o quadro reforça o impacto das mudanças climáticas e da desigualdade urbana na propagação do vírus. “Estamos falando de mais uma doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, vetor totalmente adaptado ao nosso ambiente urbano e domiciliar, e que exige esforços de todos, governo, sociedade civil organizada e população, para uma resposta integrada. Sem uma resposta integrada, continuaremos vendo novos picos de transmissão a cada ano”, alerta. Para o epidemiologista, o controle do vetor, por meio da eliminação de criadouros, da incorporação de novas tecnologias e da mobilização comunitária, deve ser a principal medida para interromper a transmissão.
No Brasil, as ações de enfrentamento à Chikungunya incluem campanhas comunitárias de conscientização, inspeções domiciliares para eliminação de criadouros de mosquitos, capacitação de profissionais de saúde e monitoramento contínuo do vetor, em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Apesar desses esforços, a persistência da doença revela que o desafio vai além do controle imediato do mosquito, exigindo investimentos contínuos em infraestrutura urbana, saneamento e educação em saúde, além de engajamento comunitário ativo para reduzir a transmissão. “Não é apenas uma questão de saúde, mas de políticas públicas que envolvem também fornecimento contínuo de água e saneamento básico. Precisamos de um esforço coordenado entre vigilância, saneamento, manejo adequado de casos e educação, porque o mosquito se beneficia exatamente das falhas nesses setores”, completa o Professor Pamplona.
Em relação à prevenção imunológica, a vacina VLA1553, desenvolvida pela Valneva, foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril para uso em adultos acima de 18 anos. O registro foi solicitado em parceria com o Instituto Butantan, que mantém um acordo com a farmacêutica franco-austríaca para produzir uma versão adaptada ao contexto brasileiro, voltado às necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS). O imunizante, porém, ainda não está disponível comercialmente. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) suspendeu temporariamente a licença comercial devido a preocupações relacionadas a eventos adversos. A Agência Regulatória Europeia (EMA) mantém a licença da vacina. A OMS acompanha os dados de eficácia, efetividade e segurança, reforçando que a vacina é uma ferramenta complementar a outras estratégias de prevenção.
O impacto da doença vai além do sistema de saúde. Dores articulares crônicas e limitações físicas reduzem a capacidade de trabalho e afetam o cotidiano de milhares de brasileiros, especialmente em comunidades de baixa renda, onde o acesso a cuidados médicos é limitado. Além disso, estudos recentes reforçam o potencial que a doença tem de causar excesso de óbitos. Para a OMS, a doença expõe desigualdades estruturais e evidencia a necessidade de políticas públicas que integrem vigilância epidemiológica, atenção primária fortalecida e pesquisa em vacinas e terapias específicas.
Por fim, o professor Pamplona destaca que, com a chegada do verão e o aumento das chuvas, o risco de novos surtos se eleva. “O período de calor e maior umidade favorece a proliferação do mosquito. Se não houver uma mobilização intensa de agora até dezembro, podemos começar 2026 com um novo aumento de casos”.
Em meados de outubro, as autoridades de saúde de Nova York confirmaram que uma pessoa residente em Long Island foi infectada pelo vírus Chikungunya. De acordo com informações divulgadas, trata-se do primeiro caso de transmissão local registrado nos Estados Unidos desde 2019. A confirmação ocorreu após análises realizadas pelo Wadsworth Center, laboratório de saúde pública do estado, localizado em Albany. O alerta foi emitido pouco depois de os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) recomendarem vigilância reforçada frente aos recentes surtos reportados em Cuba e na China.
Sobre a doença
A Chikungunya é causada por um vírus do gênero Alphavirus e transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, os mesmos vetores da dengue e da Zika. Os sintomas aparecem entre quatro e oito dias após a picada e incluem febre súbita, dores articulares intensas, manchas vermelhas na pele e fadiga extrema. Em casos graves, podem ocorrer complicações neurológicas, cardíacas ou oculares, com maior risco para recém-nascidos, idosos e pessoas com doenças crônicas.
O diagnóstico é realizado principalmente por RT-PCR na fase aguda e por sorologia em etapas posteriores. Não há antiviral específico; o tratamento é sintomático, com analgésicos e antitérmicos, evitando o uso de anti-inflamatórios até que a dengue seja descartada para prevenir risco de hemorragia. É importante o diagnóstico diferencial o quanto antes para que o paciente receba o manejo adequado.



