Duas décadas de leishmaniose visceral no Brasil: estudo aponta persistência de focos endêmicos e desigualdades sociais

Estudo publicado na RSBMT reúne dados de 75 pesquisas realizadas entre 2002 e 2022 e revela padrões de transmissão ligados a vulnerabilidade socioambiental
Crianças e homens adultos continuam entre os grupos mais vulneráveis à leishmaniose visceral no Brasil, especialmente em cenários de pobreza e urbanização acelerada

A leishmaniose visceral humana (LVH) continua sendo um desafio de saúde pública no Brasil, mesmo após a redução recente no número de casos notificados em âmbito nacional. Uma revisão de 75 estudos publicados ao longo de 20 anos, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), traçou um panorama abrangente da doença e mostrou que ela persiste em áreas endêmicas, avança para novas regiões e se estabelece cada vez mais em ambientes urbanos. O artigo “Human Visceral Leishmaniasis in Brazil in the Past 20 Years: An Epidemiologic Update foi publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT).

A análise identificou a região Nordeste como a mais afetada, mas também destacou registros em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e em outros estados das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte. Municípios como São Luís, Fortaleza, Teresina, Petrolina, Juazeiro, Montes Claros, Campo Grande e cidades do interior paulista evidenciaram processos de urbanização da transmissão, rompendo o padrão historicamente rural da doença. Em São Paulo, a dispersão acompanhou grandes rodovias, como a Marechal Rondon, formando corredores de expansão. No Norte, pesquisas em áreas do Pará e Tocantins relacionaram a ocorrência da LVH ao desmatamento, à fragmentação florestal e ao uso intensivo do solo, com destaque para regiões de mineração, pecuária e crescimento de novos núcleos urbanos.

Segundo o estudo, os grupos mais vulneráveis seguem sendo homens adultos e crianças com menos de de 10 anos. Entre os adultos, fatores ocupacionais e comportamentais explicam a maior exposição ao vetor. Já nas crianças, a vulnerabilidade está associada ao sistema imunológico em desenvolvimento, agravado pela desnutrição e pelo contato frequente com animais infectados. “Não se trata apenas de uma infecção parasitária”, afirma o professor Sebastião Rodrigo Ferreira, um dos autores do estudo. Para ele, a leishmaniose visceral reflete desigualdades sociais e ambientais, atingindo de forma desproporcional os grupos mais fragilizados.

O trabalho também demonstrou a influência de condições climáticas. No Mato Grosso do Sul, a ocorrência da doença aumentou em períodos de La Niña e diminuiu durante El Niño, indicando que o comportamento do vetor Lutzomyia longipalpis sofre impacto direto das oscilações ambientais. Outro achado importante relacionou indicadores de desenvolvimento humano (IDH) à incidência. Na Paraíba, por exemplo, um aumento de 1% na proporção da população vivendo em pobreza foi associado a um crescimento em 5% da probabilidade de ocorrência da doença.

A revisão destacou ainda limitações na vigilância epidemiológica, como a subnotificação e a fragmentação dos dados entre diferentes níveis de gestão e áreas de monitoramento. Mais da metade dos estudos analisados considerou apenas os casos notificados, sem confirmação laboratorial, o que dificulta estimar a real magnitude da doença no País. A heterogeneidade metodológica, com diferentes critérios diagnósticos e períodos de coleta de dados, também foi apontada como um obstáculo  à comparabilidade entre os trabalhos.

De acordo com o Dr. Ferreira, o estudo fornece uma visão abrangente da evolução da leishmaniose visceral no Brasil, ressaltando que os principais determinantes da transmissão continuam sendo pobreza, habitações precárias, ausência de saneamento básico, coleta inadequada de resíduos sólidos, crescimento urbano desordenado e degradação ambiental. A adaptação do vetor a ambientes urbanos e a presença de cães domésticos infectados reforçam o risco em áreas periurbanas.

“Apesar da queda recente nos números nacionais, a persistência de áreas endêmicas, sobretudo nas regiões Nordeste e Norte, evidencia que a leishmaniose visceral ainda representa uma preocupação relevante”, reforça o Dr. Ferreira. Para ele, o enfrentamento da doença exige uma abordagem que vá além do campo biomédico. “O controle efetivo depende de políticas públicas integradas que envolvam saneamento, habitação, meio ambiente e redução das desigualdades sociais”, atenta o pesquisador.

Confira o artigo “Human Visceral Leishmaniasis in Brazil in the Past 20 Years: An Epidemiologic Update” publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0019-2025.

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