O avanço recente do Ebola na África Central recolocou a doença entre os principais alertas sanitários globais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) acompanha a expansão do surto provocado pelo vírus Bundibugyo na República Democrática do Congo (RDC), que já resultou em casos confirmados em Uganda e levou ao reforço da vigilância sanitária em países vizinhos. O evento ocorre em uma região marcada por conflitos armados, deslocamentos populacionais intensos e limitações persistentes na infraestrutura sanitária. As autoridades congolesas reconhecem este como o 17º surto de Ebola registrado no país desde 1976.
O foco principal concentra-se na província de Ituri, no nordeste da RDC, especialmente nas zonas de saúde de Mongbwalu, Rwampara e Bunia. O primeiro alerta chegou à OMS em 5 de maio, após relatos de mortes associadas a uma síndrome febril hemorrágica de alta letalidade, inclusive entre profissionais da saúde. Amostras analisadas pelo Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica (INRB) confirmaram, em 15 de maio, a circulação do vírus Bundibugyo, uma das espécies do gênero Orthoebolavirus associadas à febre hemorrágica Ebola. Até o fechamento desta reportagem, autoridades sanitárias da República Democrática do Congo contabilizavam 635 casos confirmados e 127 mortes associadas ao surto. A transmissão já havia sido identificada em 26 zonas de saúde do país, com predominância na província de Ituri, responsável pela maior parte dos registros. Uganda também notificou casos relacionados ao evento epidemiológico, incluindo transmissão secundária e mortes associadas à circulação do vírus originada na RDC.
A identificação de casos fora do epicentro inicial demonstra o potencial de propagação transfronteiriça do vírus. Organismos internacionais acompanham com atenção corredores migratórios entre RDC, Uganda, Sudão do Sul e Ruanda, especialmente em regiões ligadas ao garimpo informal, comércio regional e aos deslocamentos populacionais associados à violência armada. O virologista Maurício Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), afirma que a velocidade de expansão do surto e o volume de casos registrados nas primeiras semanas chamam a atenção das equipes de vigilância epidemiológica. “O que mais preocupa nesse surto é a rapidez com que ele está avançando e o número de casos registrados, o que pode indicar falhas na detecção precoce. Quando há muitos casos em um curto intervalo de tempo, o controle da transmissão se torna mais difícil”, destaca. Segundo ele, embora surtos de Ebola sejam considerados controláveis com medidas clássicas de contenção, o contexto regional amplia significativamente a complexidade operacional da resposta sanitária. “Quando esses surtos acontecem em áreas de conflito ou em regiões muito carentes, surge um grau adicional de dificuldade. São locais onde as equipes médicas nem sempre conseguem atuar da forma necessária, e isso favorece o aumento do número de casos”, acrescenta.
A médica e doutora em Medicina Tropical pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Dra. Elba Lemos, coordenadora do serviço regional de referência em hantaviroses e rickettsioses do Ministério da Saúde, observa que a contenção do surto depende de uma combinação simultânea de vigilância epidemiológica, assistência clínica, capacidade laboratorial e medidas rigorosas de biossegurança, uma vez que o Ebola permanece entre os agentes biológicos de maior risco. Segundo ela, o controle da transmissão exige identificação precoce dos casos, rastreamento de contatos e acesso rápido a suporte clínico intensivo, especialmente diante da elevada letalidade associada ao vírus Bundibugyo. A pesquisadora ressalta ainda que a transmissão ocorre por contato direto com fluidos corporais, como sangue, vômito, fezes, urina, saliva, leite materno e sêmen, além de superfícies contaminadas com material biológico, o que amplia a importância das medidas de proteção individual e coletiva.
Entre os fatores que mais dificultam a contenção do surto, Dra. Lemos assinala o prolongado conflito armado na RDC, os ataques a instalações de saúde e as dificuldades de acesso das equipes médicas a áreas remotas. Ela também chama atenção para a possibilidade de disseminação silenciosa do vírus nas semanas anteriores à confirmação laboratorial, além da limitada capacidade diagnóstica regional, situação que pode favorecer subnotificação e dificultar estimativas mais precisas sobre a dimensão real da emergência sanitária. Outro ponto detalhado pela pesquisadora envolve o impacto das atividades econômicas informais na dinâmica epidemiológica da região. Segundo ela, o intenso fluxo de pessoas associado às rotas de mineração dificulta o monitoramento sanitário e favorece a circulação regional do vírus. Os rituais funerários tradicionais também seguem entre os principais desafios para interrupção das cadeias de transmissão.
O vírus Bundibugyo integra o grupo dos filovírus e provoca quadro clínico semelhante ao observado em outras formas de Ebola. A transmissão ocorre por contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou cadáveres contaminados, além de superfícies expostas a material biológico. O período de incubação varia entre dois e 21 dias, e os indivíduos geralmente não são considerados infecciosos antes do início dos sintomas. Os sinais iniciais incluem febre, fadiga intensa, cefaleia, dores musculares e dor de garganta. Em parte dos pacientes, o quadro evolui para vômitos, diarreia, disfunção orgânica e manifestações hemorrágicas. Diferentemente do vírus Ebola Zaire, responsável pela grande epidemia da África Ocidental entre 2013 e 2016, o vírus Bundibugyo não possui vacinas nem antivirais específicos licenciados. O tratamento permanece baseado em suporte intensivo, incluindo reposição volêmica, correção de distúrbios eletrolíticos e manejo de complicações clínicas. Estudos anteriores indicam letalidade histórica entre 25% e 50% nos surtos provocados pelo vírus Bundibugyo.
O Dr. Nogueira reconhece que a ausência de ferramentas terapêuticas específicas amplia a importância das medidas clássicas de contenção epidemiológica. “O controle do Ebola continua dependente da identificação precoce dos casos, do isolamento rápido dos pacientes e do monitoramento rigoroso de contatos”, afirma. Ele argumenta ainda que surtos recentes demonstraram o papel central da adesão comunitária às medidas sanitárias. “Experiências anteriores mostraram que estratégias de controle perdem efetividade quando não existe confiança entre comunidades e autoridades sanitárias”, complementa.
Na avaliação da Dra. Lemos, o avanço do Ebola representa um exemplo claro de emergência e reemergência de zoonoses. A pesquisadora explica que os vírus causadores do Ebola, mpox, Marburg e hantaviroses fazem parte de um grupo de agentes infecciosos mantidos na natureza em diferentes reservatórios animais, tendo o ser humano como hospedeiro acidental. Ela lembra que entre 60% e 75% das doenças infecciosas emergentes têm origem zoonótica e que alterações ambientais vêm ampliando o risco de transbordamento de patógenos entre espécies, fenômeno conhecido como “spillover”. Segundo a especialista, fatores como desmatamento, ocupação desordenada de áreas florestais, expansão urbana sobre ambientes silvestres, perda da biodiversidade, migração desordenada associada a conflitos armados e comércio clandestino de animais silvestres contribuem para modificar o cenário mundial das doenças infecciosas. A circulação internacional acelerada e os deslocamentos populacionais durante períodos de incubação também favorecem a disseminação de agentes infecciosos entre países e continentes.
A atual resposta envolve o Ministério da Saúde da RDC, a OMS, o Africa CDC, a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) e diferentes parceiros internacionais. As ações concentram-se em vigilância ativa, investigação epidemiológica, rastreamento de contatos, instalação de centros de tratamento, reforço das medidas de prevenção e controle de infecção nas unidades de saúde e comunicação de risco junto às comunidades locais. O Dr. Maurício Nogueira enfatiza que experiências anteriores demonstram a importância da articulação internacional para interromper cadeias de transmissão. “Os surtos anteriores mostraram que o Ebola pode ser controlado com medidas adequadas de detecção precoce, isolamento e assistência médica. Existe hoje uma experiência acumulada importante de organismos internacionais e equipes treinadas para esse tipo de resposta. As medidas não são complexas, mas exigem grande esforço coletivo”, conclui.
Em 17 de maio, a OMS classificou o evento como de alto risco regional devido à transmissão comunitária sustentada, às infecções em profissionais da saúde, à presença de óbitos não investigados e às incertezas sobre a extensão real da circulação viral. A Organização não recomenda fechamento generalizado de fronteiras nem restrições de viagens, mas orienta reforço da vigilância, da preparação de países vizinhos e da comunicação de risco para viajantes e populações em áreas afetadas. O avanço do surto também levou países fora da África a revisar protocolos de biossegurança e vigilância para doenças hemorrágicas virais. Na Alemanha, um médico norte-americano infectado pelo vírus Bundibugyo após atuar na RDC foi transferido para tratamento em uma unidade de isolamento especializada em Berlim. Autoridades sanitárias alemãs também monitoraram contatos considerados de alto risco, alguns deles encaminhados para acompanhamento em outros países europeus. Nos Países Baixos, um caso suspeito mobilizou protocolos de contenção em uma unidade hospitalar especializada, mas exames posteriores descartaram infecção por Ebola. Até o momento, não há registro de transmissão sustentada fora do continente africano. Esses episódios demonstram a preocupação internacional com a possibilidade de casos importados e a necessidade de resposta rápida em aeroportos, hospitais e centros de referência.
A circulação do vírus em Ituri expõe fragilidades históricas da região. A província reúne fatores tradicionalmente associados à emergência de doenças infecciosas, entre eles deslocamentos populacionais intensos, insegurança alimentar, garimpo informal, desmatamento e contato frequente entre humanos e animais silvestres. Após décadas de enfrentamento do Ebola na África, Dra. Lemos atenta que persistem fragilidades importantes na vigilância epidemiológica e no controle de surtos hemorrágicos virais. Entre os principais desafios apontados pela pesquisadora estão as dificuldades de diagnóstico precoce, a baixa capacidade laboratorial em áreas remotas, a ausência de integração entre vigilância ambiental e epidemiológica e a precariedade da infraestrutura hospitalar em regiões afetadas por conflitos e instabilidade política. Ela frisa ainda que muitos países mantêm vigilância concentrada apenas em aeroportos, enquanto fronteiras terrestres vulneráveis seguem sem monitoramento adequado. Essa situação favorece o deslocamento de indivíduos infectados durante o período de incubação e amplia o risco de disseminação internacional de agentes infecciosos.
A RDC acumula ampla experiência no enfrentamento de Ebola. Entre 2018 e 2020, um grande surto atingiu as províncias de Kivu do Norte e Ituri, provocando milhares de casos e levando a OMS a declarar emergência internacional após a chegada do vírus à cidade de Goma. A epidemia mais devastadora ocorreu entre 2013 e 2016, na África Ocidental, quando Guiné, Libéria e Serra Leoa registraram mais de 28 mil casos e cerca de 11 mil mortes. Nos anos seguintes, novos episódios foram registrados em diferentes países africanos, incluindo surtos localizados na RDC, Uganda e Guiné. Em 2022, Uganda enfrentou um surto causado pela cepa Sudan, outra espécie de Orthoebolavirus sem vacina aprovada à época. O episódio também demonstrou a importância de ampliar continuamente a vigilância epidemiológica, a capacidade laboratorial e a preparação hospitalar em regiões vulneráveis.
Enquanto autoridades sanitárias ampliam centros de tratamento, enviam suprimentos e treinam equipes locais, permanece a preocupação com possível subnotificação em áreas de difícil acesso. Óbitos comunitários sem investigação laboratorial e dificuldades logísticas em regiões remotas dificultam estimativas mais precisas sobre a dimensão real do surto. A OMS e os Ministérios da Saúde da RDC e de Uganda mantêm atualizações regulares sobre a evolução epidemiológica. O avanço do surto mantém em alerta organismos internacionais e autoridades sanitárias africanas. Mais uma vez, o Ebola revela os desafios históricos para conter doenças de alta letalidade em regiões marcadas por instabilidade política, fragilidade estrutural dos serviços de saúde e intensa circulação populacional.
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



