A leishmaniose visceral (LV) passou a ocupar de forma permanente o cenário epidemiológico do Sul do Brasil. O que até o início dos anos 2000 aparecia na região apenas em registros importados, associados a pessoas infectadas em estados endêmicos, hoje se apresenta como transmissão autóctone estabelecida em diferentes municípios do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. A mudança é detalhada em uma revisão publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), intitulada “Visceral Leishmaniasis in Southern Brazil: an overview of current epidemiology“, que reuniu dados científicos e epidemiológicos acumulados entre 2008 e 2024 para reconstruir a trajetória recente da doença na região Sul.
O estudo mostra que a expansão da enfermidade ocorreu de maneira progressiva, inicialmente entre cães e, posteriormente, em humanos, repetindo o padrão já observado em outros estados brasileiros. Os autores analisaram artigos científicos nacionais e internacionais, sistemas oficiais de vigilância, boletins epidemiológicos estaduais e bases do Ministério da Saúde para compreender a dinâmica de dispersão da leishmaniose visceral em áreas anteriormente consideradas livres de transmissão autóctone. Causada, no Brasil, principalmente pelo protozoário Leishmania infantum e transmitida pela picada de fêmeas de flebotomíneos infectadas, a leishmaniose visceral está entre as doenças tropicais negligenciadas (DTN) de maior impacto global. Nas Américas, mais de 90% dos casos concentram-se no Brasil. Sem diagnóstico e tratamento oportunos, a doença pode evoluir para comprometimento sistêmico grave, com febre prolongada, perda de peso, anemia, hepatoesplenomegalia e risco elevado de óbito.
Até 2008, não havia confirmação de transmissão autóctone da doença nos estados do Sul. O primeiro registro ocorreu em São Borja, no Rio Grande do Sul, município localizado na fronteira com a Argentina, onde foi identificado um caso canino autóctone. No ano seguinte, surgiu o primeiro caso humano da região. Desde então, a transmissão expandiu-se para outros municípios gaúchos, incluindo Porto Alegre, Santa Maria, Itaqui e Uruguaiana. Entre 2009 e 2023, o Rio Grande do Sul confirmou 52 casos humanos autóctones e oito mortes relacionadas à enfermidade. Porto Alegre concentrou o maior número de registros. O dado chama atenção porque a capital gaúcha não possui confirmação documentada da presença de Lutzomyia longipalpis, considerado o principal vetor da leishmaniose visceral nas Américas. De acordo com o Dr. Mario Steindel, coordenador do trabalho, o que se observa hoje no Sul do Brasil é um processo de adaptação da doença a novos ambientes urbanos, com características epidemiológicas diferentes das áreas historicamente endêmicas.
A ausência desse vetor clássico em áreas com transmissão ativa levou os pesquisadores a investigar o possível papel de outras espécies de flebotomíneos. Em Porto Alegre, estudos identificaram DNA de Leishmania infantum em espécies como Pintomyia fischeri, Migonemyia migonei e Lutzomyia gaminarai. Em Santa Catarina, análises moleculares também detectaram infecção natural por Leishmania infantum em Nyssomyia neivai. Esses achados sugerem que outras espécies de flebotomíneos, além do vetor classicamente associado à doença no Brasil, podem participar da transmissão em ambientes urbanos e periurbanos da região Sul. A revisão aponta que parte expressiva dos casos humanos ocorreu em municípios sem registro confirmado de Lutzomyia longipalpis. “A ausência do vetor clássico em parte das áreas com transmissão reforça a necessidade de ampliar os estudos entomológicos e compreender melhor o papel de outras espécies de flebotomíneos na circulação do parasito”, acrescenta o Dr. Steindel.
A Dra. Patricia Flávia Quaresma, uma das autoras do estudo, avalia que a circulação da doença no Sul ainda pode estar subestimada. Segundo ela, a leishmaniose visceral permanece fora das hipóteses diagnósticas em parte dos serviços de saúde humana e veterinária da região. “A prevalência da LV pode ser muito maior que o registro de casos notificados”, afirma a pesquisadora.
No Paraná, a expansão da doença ganhou força a partir de 2012, quando Lutzomyia longipalpis foi identificado pela primeira vez em Foz do Iguaçu, município localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Pouco depois, surgiram os primeiros casos caninos e, em 2015, foi confirmado o primeiro caso humano autóctone do estado. Entre 2015 e 2022, municípios da região de fronteira confirmaram 26 casos humanos autóctones e seis mortes. Levantamentos sorológicos realizados em cães revelaram índices elevados de circulação parasitária. Um estudo conduzido em Foz do Iguaçu identificou soroprevalência próxima de 38% entre mais de 12 mil animais avaliados.
A Dra. Quaresma observa que o intenso fluxo populacional e comercial entre os países da fronteira sul-americana pode favorecer a dispersão da doença. “Estudos genéticos citados na revisão sugerem diferentes rotas de introdução de Leishmania infantum no Sul do Brasil, incluindo trajetos relacionados à circulação entre Paraguai, Argentina e estados brasileiros, além de movimentos migratórios associados ao período de construção do gasoduto Bolívia-Brasil”, complementa a pesquisadora.
Em Santa Catarina, a transmissão canina começou em Florianópolis, em 2010, inicialmente nos bairros Canto dos Araçás e Lagoa da Conceição. Nos anos seguintes, a doença avançou para outras regiões do estado, incluindo o oeste, o meio-oeste e sul catarinense. Entre 2017 e 2023, Florianópolis confirmou cinco casos humanos autóctones. Até 2024, o município contabilizava 1.058 casos caninos distribuídos em 11 dos 18 distritos. Diferentes estudos analisados pelos autores mostraram que grande parte dos cães infectados não apresentava sintomas clínicos evidentes. Alguns estudos incluídos na revisão identificaram elevada frequência de cães assintomáticos. Para a Dra. Quaresma, o comportamento epidemiológico da doença no Sul demonstra que a dinâmica de transmissão na região possui características próprias e ainda não totalmente compreendidas. Segundo ela, o avanço da enfermidade em Santa Catarina alerta para a gravidade clínica da leishmaniose visceral e para o risco associado ao diagnóstico tardio. “A doença é grave e, se não tratada, apresenta risco elevado de óbito”, ressalta.
O estudo também discute as limitações das estratégias atuais de controle. O cão doméstico permanece considerado o principal reservatório urbano da doença, motivo pelo qual a eliminação de animais soropositivos integra as recomendações sanitárias brasileiras há mais de cinco décadas. Entretanto, os autores destacam que diferentes estudos vêm questionando a efetividade dessa medida quando aplicada isoladamente. Desde 2016, o Brasil autorizou o uso de miltefosina no tratamento veterinário da leishmaniose visceral canina. Ainda assim, a revisão destaca que não existem evidências consistentes de cura parasitológica definitiva nos animais tratados, o que mantém a preocupação sobre a permanência desses cães como reservatórios capazes de sustentar a transmissão para flebotomíneos.
O trabalho cita ainda estratégias complementares atualmente empregadas em diferentes municípios, como uso de coleiras impregnadas com inseticidas, vacinação, manejo ambiental e fortalecimento da vigilância entomológica. Florianópolis implantou tratamento gratuito para cães de famílias de baixa renda, enquanto Santa Catarina tornou compulsória a notificação da leishmaniose visceral canina em 2024. Outro ponto enfatizado pelos autores envolve inconsistências encontradas entre dados científicos, registros estaduais e sistemas nacionais de informação. Municípios classificados oficialmente como áreas de transmissão autóctone nem sempre apresentavam confirmação consistente nos estudos revisados. As divergências incluem diferenças nos métodos diagnósticos, limitações de vigilância entomológica e subnotificação de casos humanos e animais.
Segundo a Dra. Quaresma, compreender a expansão da leishmaniose visceral no Sul exige integração permanente entre saúde humana, saúde animal e vigilância ambiental. A pesquisadora destaca que a circulação da doença envolve diferentes animais, vetores e fatores ambientais, tornando insuficientes abordagens fragmentadas de controle. A expansão territorial da leishmaniose visceral no Sul do Brasil já representa uma realidade epidemiológica consolidada. Para o Dr. Steindel, a situação exige o fortalecimento da vigilância epidemiológica, a padronização diagnóstica, o monitoramento contínuo da circulação parasitária e o aprofundamento de pesquisas sobre vetores alternativos e reservatórios animais capazes de manter a transmissão em áreas urbanas e de fronteira. O pesquisador ressalta que a consolidação da transmissão na região demanda monitoramento constante e maior integração entre as diferentes áreas da saúde. “Quando os primeiros casos humanos aparecem, geralmente a circulação do parasito já está estabelecida há bastante tempo naquele território”, conclui.
Confira a revisão “Visceral Leishmaniasis in Southern Brazil: an overview of current epidemiology” publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0240-2025.
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



