Brasil totaliza 110 casos prováveis ou confirmados de Febre do Nilo Ocidental em 13 estados entre 2014 e 2024
A confirmação de infecção pelo vírus da Febre do Nilo Ocidental (FNO) em um bebê de três meses, residente em Campo Novo do Parecis, no interior de Mato Grosso, recoloca em pauta a presença discreta, porém persistente, desse arbovírus no território nacional. Embora o número de casos clínicos humanos permaneça baixo, há evidências consistentes de circulação viral em diversos estados do Brasil há mais de uma década.
O episódio não representa fato isolado. Estudo epidemiológico publicado na revista The Lancet, intitulado “Active West Nile virus transmission in Brazil: an epidemiological study” , reuniu dados de 2014 a 2024 e identificou 110 casos prováveis ou confirmados, distribuídos em 59 municípios de 13 unidades federativas. O Piauí concentrou o maior número absoluto de registros no período, incluindo o primeiro caso humano com manifestação neurológica confirmado no País, em 2014, por detecção molecular em líquido cefalorraquidiano. Desde então, as notificações surgem de forma esparsa em diferentes regiões, sem caracterização de surtos amplos ou sustentados. Há registros em estados como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, o que afasta a hipótese de concentração geográfica restrita. O padrão observado indica dispersão territorial compatível com a ecologia do agente e de seus vetores.

Além das ocorrências em humanos, estudos sorológicos e entomológicos identificaram evidências de circulação viral em mosquitos, aves e equídeos em diversos estados. Esses achados demonstram que o vírus se mantém ativo em diferentes biomas e contextos ecológicos. Pertencente ao gênero Orthoflavivirus, o mesmo que inclui dengue, febre amarela e Zika entre outros vírus causadores de doença em humanos, o agente mantém ciclo natural envolvendo aves como reservatórios e mosquitos do gênero Culex como vetores. Humanos e equídeos atuam como hospedeiros acidentais, com viremia de curta duração e insuficiente para sustentar a cadeia de transmissão.
Do ponto de vista clínico, a maioria das infecções é assintomática. Dados internacionais indicam que cerca de 20% das pessoas infectadas apresentam quadro febril inespecífico, com cefaleia, fadiga e mialgia. Aproximadamente um caso de doença neurológica grave ocorre a cada 150 infecções, com possibilidade de encefalite, meningite ou paralisia flácida aguda. Idosos e indivíduos com comorbidades apresentam maior risco de evolução desfavorável. Não há vacina licenciada para uso humano nem antiviral específico aprovado. O manejo permanece de suporte, com atenção às complicações neurológicas, conforme protocolos vigentes do Ministério da Saúde.
No caso de Mato Grosso, a resposta incluiu investigação epidemiológica minuciosa, com análise de possíveis exposições ambientais, revisão de atendimentos prévios e busca ativa de casos na comunidade. A vigilância entomológica complementou a apuração, com inspeção de criadouros e avaliação da densidade de Culex na área residencial.
Para o Dr. Pedro Vasconcelos, pesquisador do Instituto Evandro Chagas (IEC) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Estado do Pará (UEPA), e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Vírus Emergentes e Reemergentes, pesquisador referência em arboviroses, o cenário requer atenção técnica contínua. “O vírus da Febre do Nilo Ocidental está estabelecido no Brasil há anos. O fato de registrarmos poucos casos clínicos não significa ausência de circulação”, afirma. Segundo ele, a detecção depende da capacidade diagnóstica e da suspeição clínica. “Quando ampliamos a vigilância laboratorial, passamos a enxergar melhor a real dimensão da circulação viral”, complementa.
A ampla distribuição do vetor em áreas urbanas e rurais, associada à presença de aves silvestres, sustenta a ocorrência eventual de infecções humanas, inclusive em localidades sem histórico prévio de casos. De acordo com o Dr. Vasconcelos, a identificação oportuna depende essencialmente de dois fatores, suspeita clínica qualificada e acesso a diagnóstico laboratorial específico, já que o quadro inicial pode se confundir com outras arboviroses endêmicas, bem como outras doenças infecciosas febris.
No cenário internacional, o vírus mantém circulação contínua desde sua introdução nas Américas, em 1999, quando foi identificado pela primeira vez no hemisfério ocidental, em Nova York. Nos Estados Unidos, a doença integra o sistema regular de vigilância coordenado pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), com notificação anual de casos humanos e monitoramento em aves, equinos e mosquitos. Em 2023, o país registrou mais de duas mil ocorrências, incluindo formas neuroinvasivas e óbitos associados.
Na Europa, o comportamento é sazonal, com maior incidência nos meses mais quentes. Países do sul e do leste concentram parte expressiva dos registros. O European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) consolida dados regionais e articula estratégias integradas entre saúde humana e animal. Em 2022, o continente contabilizou mais de mil casos humanos, um dos maiores volumes da última década, com maiores ocorrências na Itália, Grécia e Romênia.
Na Ásia, há registros esporádicos em humanos e detecções em aves e vetores, com variação conforme a capacidade de vigilância de cada país. A experiência internacional demonstra que a circulação do vírus muitas vezes precede o reconhecimento clínico.
Para o Dr. Vasconcelos, o alerta central permanece claro. “Não se trata de alarmismo, mas de vigilância qualificada. Arbovírus silenciosos podem permanecer anos em silenciosa circulação (leg phase) até que um caso grave revele sua presença, ou seja o prenúncio de um surto ou epidemia. O papel da saúde pública é manter os olhos abertos antes que isso aconteça”, conclui.
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



