Febre do Oropouche deixa de ser restrita à Amazônia e confirma transmissão sustentada em Minas Gerais

Artigo publicado na RSBMT identifica 278 casos autóctones em 2024, revela padrões distintos de circulação e expõe lacunas na vigilância de arboviroses emergentes
Distribuição dos casos confirmados de febre do Oropouche em Minas Gerais, em 2024, coloca Joanésia e Piau como os principais focos de transmissão local no estado

Artigo publicado na RSBMT identifica 278 casos autóctones em 2024, revela padrões distintos de circulação e expõe lacunas na vigilância de arboviroses emergentes

A febre do Oropouche, por décadas considerada uma arbovirose restrita à região Amazônica, passou a integrar de forma consistente o cenário epidemiológico de Minas Gerais. Ao longo de 2024, o estado confirmou 278 casos autóctones da infecção, distribuídos em dez municípios, com maior concentração em áreas rurais e periurbanas. Os dados, analisados a partir da vigilância oficial estadual e publicados no artigo “Oropouche fever in Minas Gerais, Brazil, 2024: Epidemiological characterization, spatial distribution, and clinical implications”, na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), confirmam que a circulação do vírus Oropouche (OROV) no Sudeste não se limita a eventos pontuais ou casos importados.

As confirmações ocorreram após a ampliação da investigação laboratorial para arboviroses emergentes, com diagnóstico por RT-PCR realizado na Fundação Ezequiel Dias (Funed). Até então, a infecção permanecia fora do radar em regiões não endêmicas, em parte pela ausência de definição de caso suspeito e pela semelhança clínica com outras doenças febris. “Durante muito tempo, o Oropouche não entrou no campo de visão da vigilância fora da Amazônia. Sem critérios clínicos definidos e com testagem restrita, a tendência era que os casos permanecessem subnotificados”, explica o pesquisador Edmundo Rinolino Magalhães Flores, um dos autores do estudo.

A distribuição dos casos em Minas Gerais mostrou um padrão territorial bem delimitado. Dois municípios concentraram a maior parte das notificações, Joanésia, no Vale do Rio Doce, e Piau, na Zona da Mata. Em Joanésia, os registros se intensificaram no primeiro semestre, já em Piau, o pico ocorreu no final de 2024. Para a Dra. Flavia Ribeiro Soares Cruzeiro, que integra a equipe de autores, esse comportamento indica que o Oropouche já apresenta transmissão local sustentada fora da Amazônia, com padrão epidemiológico próprio em diferentes territórios.

O perfil dos casos aponta leve predominância do sexo feminino, responsável por 55% das notificações, e maior incidência entre adultos de 20 a 59 anos. A idade média foi de 40 anos. A maioria dos pacientes residia em áreas rurais ou periurbanas, ambientes que favorecem a presença de Culicoides paraensis, considerado como principal vetor do OROV. Mais da metade dos infectados relatou a presença de animais domésticos ou de criação no entorno da residência ou do local de trabalho, especialmente cães, aves e bovinos. Também foram registros episódios de mortes não acidentais de animais silvestres nas proximidades das áreas afetadas. Segundo a Dra. Iara Fabíola Rocha, que também assina o artigo, a alta frequência de casos em ambientes com presença de animais demonstra a importância de considerar fatores ambientais e ecológicos na vigilância do Oropouche, bem como a necessidade de uma abordagem integrada.

Do ponto de vista clínico, o quadro observado em Minas Gerais segue o padrão descrito em outras regiões do País. Febre, cefaleia e dores musculares estão entre os sintomas mais frequentes, acompanhados por manifestações gastrointestinais e dor retro-orbitária. Alterações do paladar, prurido e lesões cutâneas também foram relatadas. Um dado interessante foi a recorrência dos sintomas, registrada em cerca de 25% dos pacientes, geralmente poucos dias após a melhora inicial. “Mesmo quando a doença não evolui para formas graves, esse quadro prolonga o período de adoecimento e interfere diretamente na rotina e na capacidade funcional das pessoas”, observa a Dra. Caroline Macedo Gonçalves, pesquisadora da equipe.

A análise comparativa entre homens e mulheres revelou maior frequência de cefaleia, mialgia, sintomas gastrointestinais, prurido e alterações cutâneas entre as mulheres. Embora o estudo não investigue os mecanismos dessas diferenças, a Dra. Thais Cristina Nazaré Freitas, autora também, destaca que o padrão merece atenção em análises futuras. “Chamou atenção a maior ocorrência de alguns sintomas no sexo feminino, o que pode influenciar tanto a percepção da doença quanto a procura por atendimento”, afirma.

Entre as comorbidades mais registradas estiveram hipertensão arterial e diabetes mellitus, condições frequentes na população adulta brasileira. Dois casos ocorreram em gestantes, ambos sem registro de complicações maternas ou fetais, e não foram identificadas manifestações neurológicas graves no período analisado. Ainda assim, os autores ressaltam a importância do monitoramento contínuo, diante de relatos recentes de transmissão vertical descritos na literatura científica.

A Dra. Daniela Caldas Teixeira, que também integra a equipe, lembra os desafios diagnósticos impostos pela sobreposição de sintomas com outras arboviroses. “Sem diagnóstico molecular, o Oropouche tende a ser confundido com outras infecções mais conhecidas e acaba invisível nos sistemas de informação”, frisa. Ainda segundo ela, ao documentar de forma detalhada a ocorrência desta arbovirose em um estado fora da área historicamente endêmica, o estudo amplia a compreensão sobre a circulação recente do vírus no País. “Os dados indicam a importância de ampliar a vigilância laboratorial, integrar o monitoramento entomológico e incluir o OROV de forma sistemática na investigação de síndromes febris agudas. Em um período marcado pela expansão territorial de arboviroses e por desafios persistentes no diagnóstico, o Oropouche deixa de ser um evento regional e passa a ocupar lugar permanente na agenda da saúde pública brasileira”, conclui a pesquisadora.

Confira o artigo “Oropouche fever in Minas Gerais, Brazil, 2024: Epidemiological characterization, spatial distribution, and clinical implications” publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0109-2025.

 

Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.

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