Grande parte dos nossos problemas são de natureza econômica”, diz presidente da SBMT na abertura do MEDTROP 2026

Presidente do congresso defendeu a saúde como vetor de transformação da sociedade durante solenidade realizada neste domingo (16), em Brasília

O 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP 2026), teve oficialmente a solenidade de abertura nesse domingo (16), no Auditório Master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. O evento é o maior encontro da América Latina na temática e conta com uma diversificada programação, com o tema “Saúde nos trópicos, uma visão integradora sob a perspectiva do Sul Global”.

Mais de 3 mil congressistas participaram da abertura oficial, que reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, gestores e docentes. A edição deste ano conta com 520 palestrantes e cerca de 1.800 trabalhos científicos inscritos, além de mais de 100 mesas-redondas e quase 100 conferências.

O presidente do MEDTROP 2026 e da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), Dr. Gustavo Romero explicou que o tema desta edição surgiu em uma livraria de Belém, a partir do encontro com o livro “Memórias da Plantação”, de Grada Kilomba, e das leituras de Frantz Fanon. Segundo ele, a programação foi construída a partir de uma reflexão sobre o colonialismo estrutural e a permanência de uma atitude colonial do Norte Global.

No Brasil há 33 anos, Dr. Romero agradeceu a acolhida do País. “Esta se tornou a minha pátria, disse. Para ele, a economia está na origem de muitos dos problemas de saúde. “Grande parte dos nossos problemas são de natureza econômica. Sem compreender a economia, as ações de saúde podem aliviar os sintomas, mas não chegam à causa dos problemas”, afirmou.

Ele também defendeu a saúde como uma força capaz de mudar a sociedade. “Talvez o vetor transformador da sociedade mais potente que a comunidade tem na mão para decidir sobre o seu futuro e o seu destino”, sublinhou. Em outro momento da fala, ele disse que povo organizado é poder.

Saúde global

Diretor do TDR, programa especial de pesquisa e treinamento em doenças tropicais da Organização Mundial da Saúde (OMS) desde março deste ano, Dr. Marcus Lacerda, que também presidiu a SBMT participou da cerimônia de abertura. Nascido em Taguatinga (DF), formado pela Universidade de Brasília (UnB), e com 26 anos de atuação na Amazônia, ele falou sobre as mudanças em discussão na Saúde Global.

O Dr. Lacerda afirmou que a OMS discute atualmente uma nova arquitetura da Saúde Global e destacou o simbolismo de Brasília, conhecida internacionalmente por sua arquitetura. Para ele, a discussão não deve tratar apenas do que fazer com a Saúde Global, mas também de quem participa das decisões. “É a maioria global que deve definir os rumos do planeta aonde está vivendo, acrescentou.

Homenagem a João Carlos Pinto Dias

Um dos momentos mais emocionantes da cerimônia de abertura foi a homenagem, in memoriam, ao médico e pesquisador Dr. João Carlos Pinto Dias, falecido em dezembro de 2025, aos 87 anos. Ele foi lembrado pela atuação no enfrentamento da doença de Chagas e pela pesquisa voltada às populações mais vulnerável. A homenagem foi conduzida pela pesquisadora Dra. Liléia Diotaiuti, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Minas), terceira orientanda de mestrado de Pinto Dias. “Tive o privilégio de conviver com o João Carlos 48 anos”, lembrou. “Ele sempre foi referência para todos nós. Eu tenho pena dos que não conviveram, dos jovens”, lamentou.

O Dr. Pinto Dias assumiu a direção do posto de pesquisa de Bambuí (MG) após a morte do pai, Emmanuel Dias, e acompanhou por 50 anos a evolução clínica de pacientes com doença de Chagas. “Ele era capaz de ver a arritmia pelo pulso do paciente”, contou.

A pesquisadora também falou sobre o trabalho desenvolvido por ele com professores rurais, que reuniu Fiocruz, prefeitura e Superintendência de campanhas de saúde pública (Sucam) em uma estratégia de controle da doença com participação da comunidade. Foi nessa experiência, segundo ela, que nasceu pela primeira vez no Brasil alguma coisa que pode ser chamado de Sistema Único de Saúde (SUS). Na década de 70, ele nos ensinava sobre isso, e até hoje a gente ainda está no rastro dele”, afirmou.

A noite teve ainda a entrega do Prêmio Jovem Pesquisador MEDTROP 2026, criado em 2014 com o objetivo de estimular e reconhecer jovens pesquisadores e pesquisadoras da Medicina Tropical. A premiação contemplou trabalhos de graduação, mestrado e doutorado. Os primeiros colocados receberam certificado, inscrição para o MEDTROP 2027 e prêmio em dinheiro.

A Dra. Liléia Diotaiuti recebeu ainda a Medalha do Mérito Científico Carlos Chagas, concedida pela SBMT a pesquisadores seniores. Ela lidera, na Fiocruz Minas, o Laboratório de Referência em Triatomíneos e Epidemiologia da doença de Chagas, grupo do qual João Carlos também fazia parte.

Confira os premiados do Prêmio Jovem Pesquisador MEDTROP 2026

Graduação:

1º lugar: Matheus Trabuco Gonzalez, com “Transição Epidemiológica da Leishmaniose Tegumentar no Brasil (2007-2025) e seus Determinantes Socioambientais: Análise Espaço-Temporal Multimétodo de 350 mil Casos”.

2º lugar: Alfredo Vinicius Vieira Alves, com “Que percevejo é esse? Identificação automatizada de imagens de triatomíneos em condições de campo usando inteligência artificial”.

3º lugar: Antony Dias Falip Rosell, com “Imunodocking de peptídeos derivados de cisteíno-proteases de Plasmodium vivax para triagem in silico de potencial vacina”.

Mestrado:

1º lugar: Beatriz Brittes Kamiensky, com “Custos sanitários, no âmbito federal, dos componentes biomédicos da prevenção combinada ao HIV do SUS, Brasil, 2024”.

2º lugar: Adryele Figueiredo Pinheiro, com “Unidades de Pronto Atendimento como sentinelas para vigilância de arboviroses emergentes”.

3º lugar: Felipe da Silva Mendonça de Melo, com “Atividade nanomolar e redução significativa da parasitemia in vivo: LC-6 como candidato terapêutico para Doença de Chagas”.

Doutorado:

1º lugar: Amanda Cupertino de Freitas, com “First whole-genome detection of dengue virus in urban Aedes aegypti from Southern Brazil”.

2º lugar: Ilana Mazzoleni, com “Estudo dos Eventos Iniciais da Infecção Humana por Leishmania braziliensis em Explantes de Pele Humana”.

3º lugar: José Fabrício de Carvalho Leal, com “Identificação de lesões de leishmaniose cutânea por aprendizado profundo: estudo comparativo de algoritmos”.

 

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