Com casos mais graves e concentrados na região Norte, a doença desafia a vigilância epidemiológica e reforça a centralidade do diagnóstico precoce
A doença de Chagas, causada pelo parasito Trypanosoma cruzi, continua a ser registrada em diferentes regiões do Brasil, mas hoje se apresenta sob um perfil epidemiológico profundamente diferente daquele observado ao longo do século XX. A transmissão vetorial clássica, associada à presença do barbeiro no interior das residências, deixou de ser a principal via de infecção em decorrência do êxito das políticas de controle implementadas nas últimas décadas. Em seu lugar, a transmissão oral, relacionada ao consumo de alimentos contaminados, passou a responder pela ampla maioria dos casos agudos notificados no País.
Esse cenário ganhou destaque recentemente em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém (PA), onde a Secretaria Municipal de Saúde confirmou 42 casos da doença e quatro óbitos, o primeiro registrado em janeiro. O número é maior que todos os óbitos registrados nos últimos cinco anos no município. As investigações iniciais apontaram o consumo de açaí contaminado, comercializado em pontos da cidade, como a provável fonte de infecção. A situação mobilizou equipes de vigilância epidemiológica e sanitária, com inspeções em estabelecimentos, interdições de locais irregulares e coleta de amostras para análises laboratoriais, além do reforço de ações educativas voltadas a comerciantes e consumidores.
Segundo o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Rio de Janeiro), Dr. Otacílio Moreira, aproximadamente 90% dos novos casos agudos registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) já são atribuídos à transmissão oral, sendo mais de 95% concentrados na região Norte. Para ele, esses números não indicam um recrudescimento da doença, mas sim uma mudança na forma como ela se manifesta e é detectada. “A transmissão oral provavelmente sempre existiu, mas hoje conseguimos identificá-la melhor. Houve um fortalecimento da vigilância e um aumento importante na capacidade diagnóstica, especialmente no Pará”, afirma.
Na Amazônia, os surtos de transmissão oral apresentam padrão sazonal associado sobretudo à safra do açaí. Nos períodos de maior colheita e oferta do fruto, quando aumentam o consumo e o processamento artesanal, também cresce o risco de contaminação durante etapas como coleta, transporte e beneficiamento. O risco não está no alimento em si, mas na possibilidade de contato com os triatomíneos ou suas fezes, presentes na cadeia de produção. A sazonalidade, contudo, varia entre diferentes áreas da região amazônica, acompanhando os calendários locais de safra e de consumo do fruto
Embora a Amazônia concentre a maioria das notificações, episódios registrados no Nordeste mostram que a transmissão oral não se restringe à região Norte. Em Ibititá, na Bahia, seis adultos apresentaram sintomas agudos e alterações cardíacas após ingerir caldo de cana produzido de forma caseira, episódio ocorrido em setembro de 2025. A bebida foi identificada como provável fonte de infecção, possivelmente contaminada por fezes de barbeiro. No município de Serrolândia, também no interior baiano, em 2023, uma família de cinco pessoas foi infectada após consumir suco de acerola, resultando no óbito de uma adolescente. Situação semelhante havia sido registrada no Rio Grande do Norte, em 2016, quando um surto atingiu moradores de quatro municípios após o consumo de garapa de uma mesma origem.
De acordo com o Dr. Moreira, os casos adquiridos por via oral tendem a apresentar quadros clínicos mais graves, sobretudo em função da maior carga parasitária ingerida. “Na transmissão vetorial clássica, a quantidade de parasitas costuma ser menor. Na via oral, o indivíduo pode chegar a ingerir uma quantidade muito superior, o que favorece manifestações mais intensas e aumenta o risco de complicações cardíacas e óbito”, explica. Ainda assim, ele ressalta que o desfecho clínico é multifatorial. Idade, condições de saúde prévias e resposta imunológica individual influenciam diretamente a evolução da doença. “Em um surto, pessoas que consumiram o mesmo alimento podem evoluir de formas diferentes”, observa.
A rapidez no diagnóstico é apontada como um dos principais determinantes para reduzir a gravidade dos casos e a letalidade. Os métodos parasitológicos tradicionais, amplamente utilizados na rede pública, apresentam alta especificidade, mas sensibilidade limitada, especialmente nas fases iniciais da infecção. “O paciente, às vezes, precisa repetir o exame diversas vezes até que o parasita seja visualizado ao microscópio. Esse atraso pode comprometer de forma irreversível o prognóstico”, alerta o pesquisador.
É nesse ponto que o diagnóstico molecular passou a desempenhar papel estratégico. Desenvolvido pelo Dr. Moreira e Dra. Constança Britto, o Kit NAT-Chagas, primeiro teste molecular registrado no Brasil para a doença, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2022, permite a detecção do material genético do parasita mesmo quando a carga parasitária é muito baixa. “A PCR em tempo real consegue identificar a infecção antes do pico de parasitemia nos casos agudos. Isso abre uma janela decisiva para iniciar o tratamento precocemente e reduzir o risco de evolução para cardiopatias graves”, afirma.
Estudos conduzidos pelo grupo do pesquisador também avançaram no aprimoramento das técnicas de extração de DNA, aumentando ainda mais a sensibilidade dos testes. Foram validados protocolos automatizados compatíveis com a rotina dos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens), além de estratégias para coleta e transporte de amostras em áreas remotas, como o uso de sangue em papel de filtro. “Não adianta ter um teste sensível se a amostra não chega em condições adequadas ao laboratório. A logística é parte central do diagnóstico”, destaca.
A investigação de surtos por transmissão oral segue um fluxo que envolve a identificação do caso índice, a confirmação laboratorial e o inquérito epidemiológico para rastrear a fonte alimentar comum. No entanto, esse processo tem se tornado mais complexo. Segundo o Dr. Moreira, muitos episódios recentes não estão associados a pontos comerciais, mas a microssurtos familiares, sobretudo entre populações ribeirinhas que produzem e consomem o próprio açaí em casa, sem realizar o branqueamento (imersão rápida do fruto em água aquecida para reduzir o risco de contaminação) adequado. Ainda, segundo ele, esses surtos domiciliares são mais difíceis de identificar e investigar, o que demonstra a importância de ações permanentes de educação em saúde.
Apesar do Pará concentrar a maior parte das notificações, o pesquisador pondera que isso reflete, em grande medida, maior capacidade de detecção. “O estado notifica mais porque investiga mais. Há equipes treinadas, maior oferta de exames e um fluxo mais estruturado para o diagnóstico”, afirma. Ele atenta, contudo, para a possibilidade de subnotificação em outros estados, onde a transmissão oral pode estar ocorrendo sem ser reconhecida. “A ausência de casos notificados nem sempre significa ausência de transmissão”, acrescenta o pesquisador.
Os desafios logísticos na Amazônia Legal permanecem significativos, incluindo longas distâncias, dificuldade no transporte de amostras, rotatividade de profissionais e demora na liberação de resultados. Ainda assim, Dr. Moreira reforça que o tratamento instituído na fase aguda pode alcançar taxas de cura superiores a 80%. “É uma janela de oportunidade que não pode ser perdida. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de evitar sequelas e mortes”, enfatiza.
Para o pesquisador, comunicar os riscos da transmissão oral exige equilíbrio para não estigmatizar alimentos tradicionais nem comprometer economias locais. “O problema não é o açaí, o caldo de cana ou a acerola em si, mas a forma como esses alimentos são processados. Quando há higienização adequada e boas práticas, eles são seguros”, afirma. Ele defende que o enfrentamento à doença de Chagas passe por uma abordagem integrada, envolvendo vigilância epidemiológica, atenção primária, pesquisa científica e políticas públicas baseadas em evidências.
Atualmente, o Dr. Moreira coordena o estudo DiaChO (Diagnóstico da doença de Chagas Oral), desenvolvido nos estados do Pará, Amapá e Amazonas. A pesquisa avalia, de forma observacional, o desempenho de métodos moleculares, como a PCR em tempo real com o Kit NAT-Chagas e a técnica de LAMP, em comparação aos exames parasitológicos e sorológicos utilizados na rotina do sistema de saúde. O objetivo é gerar evidências robustas que subsidiem mudanças nas diretrizes nacionais de diagnóstico e aprimorem a resposta aos surtos por transmissão oral, especialmente na região amazônica.
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



