Ao longo de mais de seis décadas, o envolvimento com a doença deixou de ser apenas objeto de estudo ou campo de trabalho e passou a orientar escolhas, pesquisas e posicionamentos técnicos
A trajetória profissional do Dr. Pedro Tauil se entrelaça com a história do enfrentamento da malária no Brasil contemporâneo. Neste mês em que se celebra o Dia Mundial da Luta Contra a Malária, em 25 de abril, revisitar esse percurso ajuda a compreender por que, no País, o controle da doença nunca se restringiu ao campo biomédico. Ao longo de décadas, sua atuação contribui para consolidar uma vida que integra produção científica, organização dos serviços de saúde e condições sociais que favorecem a manutenção da transmissão.
Formado em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), com residência em clínica médica no Hospital das Clínicas, sua aproximação com a malária não ocorreu inicialmente pela via acadêmica, mas pela experiência direta no interior do País. No início da carreira, integrou uma equipe multiprofissional que se deslocou para Porto Nacional, então no norte de Goiás, atual estado do Tocantins. Ali, diante de uma realidade marcada por elevada incidência da doença e sofrimento recorrente das populações locais, a malária deixou de ser um tema abstrato e passou a se impor como problema concreto, cotidiano e insuficientemente enfrentado pelas respostas então disponíveis.
Esse contato direto com a insuficiência das medidas de controle foi decisivo. A partir dessa experiência, Dr. Tauil passou a direcionar sua formação acadêmica para o tema, desenvolvendo o mestrado com foco na epidemiologia da malária na região, sob orientação do malariologista Leônidas de Mello Deane. O que começou como inquietação diante da prática clínica e da realidade local se transformou em linha de investigação e, posteriormente, em um dos principais eixos de sua trajetória profissional.
O reconhecimento desse trabalho ampliou sua inserção na docência e na gestão em saúde. Vinculado à Universidade Federal de Goiás (UFG), atuou na formação de estudantes em campo e, na sequência, assumiu funções no Ministério da Saúde. Na então Coordenadoria de Saúde da Amazônia, passou a lidar mais diretamente com a malária em sua expressão mais complexa, concentrada em territórios marcados por intensos fluxos populacionais, expansão ocupacional e limitações estruturais. Nesse contexto, ampliou sua atuação para além da pesquisa, assumindo funções de apoio técnico, supervisão e organização das ações de controle em articulação com estados e municípios.
A passagem pela Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) aprofundou sua atuação em epidemiologia aplicada e gestão de programas. Em um período em que o controle de endemias era conduzido por estruturas centralizadas, com forte presença federal nas áreas endêmicas, Dr. Tauil consolidou experiência na formulação e coordenação de estratégias de controle. Esse percurso contribuiu para a estruturar uma visão que, ao longo do tempo, dialogaria com a descentralização e à adaptação às realidades locais.
Sua inserção internacional também marcou esse trajeto. Ao longo da carreira, participou de discussões estratégicas no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS), incluindo reuniões que redefiniram o enfoque global da malária, da erradicação para o controle, diante das limitações operacionais observadas em diferentes países. A partir dessa experiência, atuou também como consultor em nações africanas, como Gana, levando a expertise acumulada no Brasil para contextos igualmente desafiadores.
Paralelamente à gestão e à cooperação internacional, sua atuação na formação de profissionais se manteve constante. Ao longo de décadas, contribuiu para a qualificação de quadros técnicos no Ministério da Saúde e em instituições acadêmicas, participando diretamente da formação de gerações de especialistas em vigilância, controle e manejo da malária. Como professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), consolidou essa dimensão como parte indissociável de sua contribuição.
Mesmo após a aposentadoria, manteve presença ativa nos espaços de formulação e acompanhamento das políticas públicas. Passou a integrar instâncias técnicas do Ministério da Saúde, com destaque para o Comitê Técnico Assessor (CTA) em Malária, no qual atuou no assessoramento direto às estratégias de controle e eliminação da doença. Nesse espaço, sua experiência acumulada ao longo de décadas se traduziu em orientação técnica para programas nacionais, mantendo sua contribuição conectada aos desafios contemporâneos da doença no País.
Mais do que uma trajetória institucional, trata-se de uma construção conceitual. Dr. Tauil sustenta, de forma consistente, que a malária não pode ser compreendida fora de seu contexto social. Em entrevista à SBMT, em 2016, destacou que o enfrentamento das doenças tropicais passa necessariamente pela redução da pobreza e pela melhoria das condições de vida. Essa leitura se confirma na dinâmica atual da doença no Brasil, hoje concentrada em áreas específicas da Amazônia, especialmente entre populações indígenas, comunidades em situação de vulnerabilidade e regiões associadas à atividade garimpeira, onde as condições de moradia, saneamento e acesso aos serviços de saúde permanecem precárias.
Essa perspectiva amplia o alcance das estratégias clássicas. Diagnóstico, tratamento oportuno e controle vetorial seguem fundamentais, mas encontram limites quando dissociados das condições estruturais que sustentam a transmissão. Ao longo de sua carreira, Dr. Tauil contribuiu para evidenciar essa interdependência, influenciando a formulação de políticas que integram vigilância, assistência e organização territorial do cuidado.
O reconhecimento a essa trajetória se expressa em diferentes dimensões. Recentemente, recebeu homenagem do Programa Nacional de Prevenção, Controle e Eliminação da Malária (PNCEM), gesto que sintetiza o impacto de sua atuação na construção das políticas públicas voltadas à doença no Brasil. Mais do que um reconhecimento formal, trata-se de um marco que reafirma a relevância de uma trajetória construída na interseção entre campo, ciência e gestão.

Ao olhar para esse percurso, emerge também uma dimensão pessoal que atravessa toda a sua atuação e se consolida como compromisso de vida. A malária, como ele próprio define, tornou-se uma paixão, acompanhada da expectativa de ver, ainda em vida, sua eliminação no País. Ao longo de mais de seis décadas dedicadas à pesquisa e à educação, a trajetória do Dr. Pedro Tauil, marcada pela produção científica e pela atuação na formulação de políticas públicas, ajudou a redefinir estratégias de controle da malária no Brasil. Em uma realidade em que a doença permanece associada a desigualdades históricas e desafios territoriais complexos, seu percurso demonstra que o enfrentamento da malária depende da capacidade de articular ciência, políticas públicas e transformação social. É nesse encontro que se sustenta, ainda hoje, a possibilidade concreta de sua eliminação.
Ao celebrar o Dia Mundial da Luta Contra a Malária, a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical se ancora nesse legado, que reafirma a centralidade da ciência, sem dissociá-la do compromisso com a redução das desigualdades que sustentam a persistência da doença no Brasil. Mais do que uma trajetória exemplar, seu percurso evidencia que a eliminação da malária no País é uma construção possível, desde que sustentada por ciência, continuidade das políticas públicas e enfrentamento das desigualdades.
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



