O 59° Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP 2024) que aconteceu entre os dias 22 e 25 de setembro em São Paulo, teve como tema Medicina Tropical sob Olhar da Saúde Única. Essa é uma definição acordada com várias entidades e está focada em considerar a saúde dos seres humanos, de outras espécies animais e do meio ambiente. A ideia é mostrar que há uma conexão entre essas áreas e que, se não olharmos para o conjunto, continuaremos a ter problemas de saúde”, explicou a médica Hiro, presidente do MEDTROP e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Focado nesse tema, Thomas Van Boeckel, professor da Universidade de Zurique, na Suíça, e diretor do One Healthy Institute, falou sobre o uso de antimicrobianos em animais e o impacto disso na saúde global. Os antimicrobianos podem ser classificados como antifúngicos, antivirais ou antibacterianos e são usados em animais de consumo, como gado, porcos, galinhas e peixes. “As práticas modernas de produção animal estão associadas ao uso regular de antimicrobianos, o que pode contribuir para o desenvolvimento de bactérias resistentes, tanto em animais quanto em seres humanos, representando uma ameaça significativa à saúde pública”, disse Thomas Van Boeckel.
Em conjunto com outros especialistas, Boeckel criou o primeiro mapa global (cobrindo 228 países) do consumo de antibióticos na pecuária. Estima-se que, em 2010, o consumo total de antimicrobianos foi de 63.151 toneladas. Até 2030, esse número deverá aumentar em 67%, com quase o dobro de crescimento previsto para países como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “Esse aumento provavelmente será impulsionado pela crescente demanda dos consumidores por produtos de origem animal em países de renda média e pela transição para fazendas de grande escala, onde os antimicrobianos são usados rotineiramente. Nossas descobertas exigem iniciativas para preservar a eficácia dos antibióticos, ao mesmo tempo em que garantimos a segurança alimentar em países de baixa e média renda”, afirmou.
As bactérias resistentes a antimicrobianos (ARBs) têm implicações significativas para a saúde pública: as de origem animal podem ser transmitidas aos seres humanos por meio do ambiente, dos alimentos e pelo contato direto com trabalhadores rurais. Um estudo realizado em sete países europeus (Noruega, Suécia, Dinamarca, Áustria, Suíça, Holanda e Bélgica) mostrou uma forte correlação entre os níveis de consumo de oito classes de antimicrobianos e a prevalência de Escherichia coli comensal resistente a antimicrobianos em suínos, aves e bovinos. Além disso, vários estudos sugerem que a exposição repetida a baixas doses de agentes antimicrobianos cria condições ideais para o surgimento e a disseminação de bactérias resistentes em animais.
Em países de baixa e média renda, há um crescimento sem precedentes na demanda por proteína animal e, como resultado, a biomassa global de animais criados para alimentação agora excede a biomassa global de seres humanos. Na Ásia, a ingestão diária de proteína animal aumentou de 7 gramas per capita por dia para 25 gramas per capita por dia entre 1960 e 2013, enquanto a proporção da dieta proveniente de arroz e trigo diminuiu progressivamente, principalmente entre adultos de renda mais alta. Para atender a essa demanda, países como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) adotaram sistemas de produção de gado, altamente econômicos e verticalmente integrados.
E qual é a solução?
Segundo Thomas Van Boeckel, para os mais cautelosos, a solução seria cortar ou, ao menos, reduzir o uso desses produtos em animais. Os agnósticos pediriam mais dados e mais tempo para chegar a soluções definitivas. No entanto, ele afirmou em sua palestra que o ideal seria consumir menos proteína animal – a redução sem dúvida ajudaria no movimento como um todo.




