
O fortalecimento das publicações de artigos originais sobre doenças tropicais e negligenciadas é um dos desafios da Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), assim como a necessidade de cobrar dos órgãos federais o fomento para a produção técnico-científica. É o que acredita o editor da publicação, doutor Dalmo Correia Filho. Ele afirma que a independência da RSBMT é seu maior patrimônio, já que a revista está apta a receber contribuições de toda comunidade científica, sempre seguindo os preceitos éticos, cujos conteúdos publicados são 100% gratuitos e estão disponíveis online.
Apesar de a RSBMT ser uma referência tanto no Brasil quanto no exterior, o Dr. Dalmo mostra-se preocupado quanto à política adotada em relação às publicações científicas em periódicos nacionais. “É uma realidade que órgãos reguladores/avaliadores e que classificam os periódicos científicos nacionais exercem pressão sobre os cursos de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado), exigindo que, para serem melhor avaliados e qualificados os pesquisadores têm de publicar em revistas internacionais. O fator de impacto é simplesmente o que está sendo avaliado, enquanto o fomento para a pesquisa de modo geral é drasticamente reduzido”, lamenta.
“As pesquisas publicadas em revistas nacionais não podem ser inabilitadas. Pelo contrário, deveriam ser validadas e valorizadas. E os cursos não podem ser prejudicados por causa disso”, afirma o editor. Ele acredita que essa política precisa e deve ser mudada, já que ela pode decretar a falência das publicações científicas no Brasil. Além disso, somente o fator de impacto não reflete a qualidade técnico-científica do que está sendo publicado. Outros indicadores podem e devem ser utilizados nesse processo Em entrevista concedida em 25/05/2015, o Editor Chefe da revista “The Lancet” informou que quase 50% das pesquisas publicadas nas revistas médicas – inclusive as de alto fator de impacto – podem ser falsas. Outros problemas são o plágio e a redundância na publicação.
E o problema vai além, como as descobertas sobre a epidemia de Zika no Brasil sendo publicadas em periódicos de alto impacto internacional. “A maioria esmagadora desses artigos deveria ser publicada em nossas revistas, porque aqui é que a população padece. Temos que ter suficiência técnico-científica para buscar as soluções em parceria, sem deixar que essa parceria imperialista e extrativista venha para cá”, explica o editor.
O médico destaca ainda que é preciso ampliar o auxílio às publicações nacionais, além de apoiar as pesquisas na origem. “Temos que garantir, ainda, fomento para as revistas se manterem, e que órgãos como o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) fomentem os periódicos científicos nacionais e não simplesmente empregue rios de dinheiro em outros países a fundo perdido por um viés político, sem preocupação com a pesquisa científica e inovação tecnológica fundamentais para a autonomia técnico-científica de nosso País”, diz.
Prioridades
A revista da SBMT é um dos periódicos que tem valorizado a produção de pesquisas nacionais. O periódico, criado em 1967, tem prestado enorme contribuição à comunidade científica nacional e internacional, na divulgação de artigos científicos sobre as doenças tropicais e negligenciadas. Os periódicos científicos nacionais contribuem de modo decisivo para a formação de um sistema acadêmico e autônomo de divulgação dos resultados de pesquisas científicas relevantes.
“Ela tem como missão dar prioridade a publicação desses assuntos. Não entendemos que há privilégio, mas necessidade de divulgar problemas e doenças que afligem nossa sociedade. É importante ressaltar que a emergência de doenças como a dengue e, agora, a chikungunya e a zika, mudaram a prioridade de publicação”, aponta o doutor Dalmo. As prioridades são estabelecidas a cada ano, conforme decisão em assembleia da SBMT e do Conselho Editorial da revista.
As agências de fomento no Brasil, especialmente a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e os editores de periódicos científicos nacionais concordam que é preciso valorizar as revistas científicas nacionais por meio de um processo de avaliação mais amplo, onde outros indicadores sejam adotados permitindo uma avaliação mais individualizada a partir do escopo de cada periódico e da interpretação dos seus indicadores bibliométricos. Este processo de avaliação permitirá que periódicos científicos nacionais classificados como de bom padrão editorial, sejam reconhecidos por essas agências e atraiam o interesse dos pesquisadores nacionais que terão a certeza de que publicando nessas revistas sua produção científica será valorizada.
“Reconheço o importante papel desempenhado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), ao manter seus programas de apoio aos periódicos científicos nacionais, por meio de editais específicos de fomento à editoração e publicação de periódicos científicos nacionais, cujo auxílio financeiro recebido tem sido de inexorável importância para a elevação do nível técnico-científico e a manutenção da periodicidade de publicação dos números da RSBMT com acesso “online” 100% aberto e sem cobrar nenhuma taxa dos autores”, finaliza o editor da revista.



