Artigo publicado na RSBMT analisa a permanência das infecções pelos vírus das hepatites B e Delta entre populações indígenas e ribeirinhas e descreve a contribuição da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado para a assistência, a vigilância e a pesquisa
As hepatites virais B e Delta permanecem como um importante problema de saúde pública na Amazônia Ocidental, que, em sua porção brasileira, abrange os estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. A circulação dos vírus atinge de modo desproporcional povos indígenas e populações ribeirinhas. A análise consta no artigo “Hepatitis B and Delta and the role of the Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado”, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT). O trabalho reúne elementos históricos, epidemiológicos e assistenciais para examinar a presença do vírus da hepatite B (VHB) e do vírus da hepatite D, ou Delta (VHD), na região, além de recuperar a trajetória da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), em Manaus, como unidade de referência.
A Amazônia Ocidental integra um amplo território amazônico compartilhado por Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela e Equador, marcado por extensas áreas rurais, comunidades de difícil acesso e uso predominante das vias fluviais em diversos municípios. A organização da rede de saúde enfrenta limites relacionados às grandes distâncias, aos longos deslocamentos fluviais e terrestres, à disponibilidade irregular de profissionais especializados e à concentração da assistência de maior complexidade em Manaus. Os autores registram que, mesmo após mais de três décadas de vacinação universal contra a hepatite B no Brasil, a região ainda apresenta endemicidade moderada e número expressivo de pessoas com infecção crônica pelo VHB. Apesar da disponibilidade de vacinas, testes e outras medidas preventivas, barreiras logísticas, socioeconômicas e territoriais ainda restringem o acesso oportuno a essas ferramentas em parte das comunidades da região.
A hepatite B resulta da infecção pelo vírus VHB, transmitido principalmente por contato com sangue e outros fluidos corporais infectados, relações sexuais sem preservativo e transmissão vertical, da gestante para o bebê, sobretudo no período do parto. A doença pode se manifestar de forma aguda ou evoluir para infecção crônica. Em parte dos casos, a infecção persistente eleva o risco de cirrose e carcinoma hepatocelular. Já a hepatite Delta depende da presença do VHB para se replicar no organismo. Por essa razão, o VHD não provoca infecção isolada, pode ocorrer como coinfecção, quando os dois vírus são adquiridos simultaneamente, ou como superinfecção, quando afeta uma pessoa que já vive com hepatite B crônica. Essa característica biológica explica por que a vacinação contra a hepatite B também previne a hepatite Delta.
De acordo com o artigo, a vacinação infantil contra hepatite B, inclusive com a dose administrada ao nascer, ocupa posição central no controle da transmissão. O impacto dessa estratégia, contudo, depende de cobertura vacinal adequada, logística para transporte e conservação dos imunobiológicos, presença regular de profissionais e acesso das famílias aos serviços de saúde. Em localidades rurais e ribeirinhas, essas condições variam conforme as características territoriais e a estrutura disponível em cada município ou distrito sanitário. Povos indígenas e ribeirinhos também convivem com obstáculos que ultrapassam o campo estritamente clínico. Custos e tempo associados ao deslocamento, ausência de transporte regular, condições socioeconômicas, diferenças linguísticas, especificidades culturais e lacunas na oferta de profissionais capacitados podem atrasar a realização de testes, a confirmação diagnóstica, o encaminhamento para serviços especializados e a continuidade do acompanhamento clínico.
O autor correspondente do estudo, Dr. Wornei Silva Miranda Braga, epidemiologista e médico-pesquisador da FMT-HVD, ressalta a centralização da assistência especializada em Manaus. “Embora a capital concentre estrutura diagnóstica e equipes com experiência no manejo de hepatites virais, essa organização exige que parte dos pacientes percorra trajetos prolongados para realizar exames complementares, avaliações especializadas ou iniciar tratamentos indicados. Para uma região cuja extensão territorial e rede hidrográfica condicionam a mobilidade, a distância assume impacto direto sobre a continuidade do cuidado”, afirma.
A FMT-HVD ocupa posição histórica na resposta às hepatites B e Delta no Amazonas. A instituição participou da identificação da magnitude dessas infecções no estado, acumulou experiência no cuidado às pessoas diagnosticadas, apoiou ações de vigilância epidemiológica e ampliou a produção científica sobre a circulação viral e seus impactos na população amazônica. O artigo apresenta a Fundação como polo regional de diagnóstico, manejo clínico, pesquisa e qualificação de profissionais de saúde. Sua trajetória se vincula à história da investigação das hepatites virais na Amazônia. Estudos desenvolvidos na região contribuíram para a compreensão da distribuição heterogênea do VHB e do VHD entre comunidades, da ocorrência de transmissão em idades precoces e da relevância da transmissão intrafamiliar em determinados contextos. Os resultados obtidos contribuíram para orientar ações de imunização, rastreamento e vigilância, embora o acesso aos serviços permaneça desigual.
O Dr. Braga destaca a necessidade de integrar assistência, vigilância e pesquisa. “O artigo aponta que a vacinação universal, a ampliação dos testes rápidos e os esforços de descentralização constituem fatores que favorecem o controle das infecções. A avaliação, porém, associa esses avanços à necessidade de reduzir obstáculos territoriais, sociais e culturais que ainda retardam o diagnóstico e o acesso ao acompanhamento”, observa. Segundo o pesquisador, a ampliação dos testes rápidos para hepatite B figura entre as frentes prioritárias. “Esses exames facilitam a identificação inicial de pessoas com marcadores de infecção, mas o resultado precisa estar vinculado a uma uma rede capaz de garantir confirmação diagnóstica, avaliação da função hepática, quantificação de carga viral quando indicada, busca ativa de contatos, vacinação de pessoas suscetíveis e acompanhamento regular. Sem essa sequência, conhecida como linha ou cascata de cuidado, o diagnóstico não se converte necessariamente em assistência contínua”, acrescenta.
No caso da hepatite Delta, a identificação do VHD requer atenção específica entre pessoas com hepatite B. A presença do vírus pode modificar a evolução clínica e demanda avaliação especializada. Por isso, o artigo inclui a ampliação da capacidade diagnóstica entre as medidas necessárias para estimar a carga real da infecção pelo VHD entre pessoas com hepatite B no Amazonas e orientar a organização dos serviços. A agenda proposta pelos autores reúne vigilância integrada, estudos genômicos, investigações clínico-epidemiológicas, avaliação da cascata do cuidado e fortalecimento da atenção primária. “A proposta parte da premissa de que dados mais consistentes sobre circulação viral, perfis clínicos, acesso ao diagnóstico e permanência no cuidado permitem identificar lacunas de maneira mais precisa”, frisa o Dr. Braga.
O pesquisador esclarece que a vigilância integrada pode reunir informações sobre vacinação, resultados laboratoriais, notificações, atendimentos clínicos e desfechos relacionados à doença hepática. “Os estudos genômicos, por sua vez, contribuem para mapear variantes virais e compreender cadeias de transmissão. Já as análises clínico-epidemiológicas permitem relacionar dados laboratoriais, características demográficas, território de residência e evolução da doença”, detalha. Na avaliação do especialista, o fortalecimento da atenção primária integra esse conjunto por aproximar vacinação, testagem, educação em saúde, acompanhamento e encaminhamento da população. “Em áreas remotas, unidades básicas, polos de saúde indígena e equipes locais assumem papel estratégico na identificação precoce de casos e na redução da dependência exclusiva de serviços especializados situados em grandes centros urbanos”, assinala.
A meta de eliminação das hepatites virais como problema de saúde pública até 2030, estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), prevê redução de novas infecções e ampliação do diagnóstico e do tratamento. Na Amazônia, o alcance desse objetivo depende não apenas da disponibilidade de vacinas, testes e medicamentos, mas também da adaptação das políticas às características dos territórios e às necessidades das populações que neles vivem. “Nosso estudo aponta que a resposta às hepatites B e Delta no Amazonas depende da articulação entre medidas já estabelecidas: vacinação contra o VHB no período oportuno e com esquema completo, ampliação da testagem, qualificação da vigilância epidemiológica, acesso a exames e à atenção especializada, descentralização do cuidado e fortalecimento da atenção primária. A FMT-HVD integra esse percurso por sua experiência acumulada na assistência, na produção científica e na estruturação de redes voltadas às hepatites virais na Amazônia”, conclui o Dr. Braga.
Confira o artigo “Hepatitis B and Delta and the role of the Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado”, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0505-2025.



