Transmissão do P. vivax, principal agente causador da malária na fronteira franco-brasileira, envolve fatores ecológico-ambientais, biológicos e sociais que se expressam na elevada vulnerabilidade social da população
A sobreposição entre malária e arboviroses deixou de ser uma simples hipótese para se tornar parte do cotidiano de muitas regiões tropicais, com implicações diretas tanto para a assistência ao paciente quanto para a vigilância epidemiológica. Uma revisão sistemática intitulada “Worldwide distribution, symptoms and diagnosis of the coinfections between malaria and arboviral diseases: a systematic review” , conduzida pelo Dr. Marcelo Cerilo-Filho e pelo Dr. Ricardo Machado, juntamente com a equipe do Centro de Investigação de Microrganismos (CIM) da Universidade Federal Fluminense (UFF), e publicada na Revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (MIOC), reuniu evidências de diferentes continentes, demonstrando que coinfecções envolvendo parasitos do gênero Plasmodium e arbovírus como dengue, chikungunya e Zika são documentadas em diferentes situações, ainda que permaneçam subestimada pelos serviços de saúde.
Ao organizar dados até então dispersos, o estudo revela um padrão epidemiológico típico de territórios onde múltiplos vetores circulam ao mesmo tempo. Nessas áreas, a síndrome febril aguda nem sempre tem uma única etiologia; ela pode refletir a interação entre agentes infecciosos que compartilham ambiente, sazonalidade e determinantes sociais. Embora a literatura registre casos em diferentes regiões do mundo, a detecção ainda depende da disponibilidade de investigação laboratorial ampliada, que continua limitada na maior parte das áreas endêmicas.
Na Amazônia brasileira, esse fenômeno ganha contornos mais definidos. A pesquisa de campo “Co-circulation of Plasmodium vivax and Arboviruses in the Brazil-French Guiana Border”, também realizada pelos pesquisadores e publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), identificou, em Oiapoque, município de fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, a circulação simultânea de Plasmodium vivax e vírus como dengue, chikungunya e Zika. Os achados demostram que múltiplas infecções coexistem no território e, em alguns casos, podem ocorrer no mesmo paciente. Ou seja, a coinfecção pode integrar a dinâmica epidemiológica local e não deve ser descartada em áreas de transmissão sobreposta.
Os pesquisadores do Centro de Investigação de Microrganismos explicaram que a resposta clínica na região ainda se baseia em um padrão consolidado ao longo de décadas, a associação imediata entre febre e malária. De acordo com o Dr. Cerilo-Filho, a centralidade histórica da doença orienta tanto a percepção da população quanto a prática dos serviços de saúde. “O resultado é a priorização de testes para a malária, muitas vezes sem dar continuidade à investigação após um resultado positivo”, assinala.
Para o Dr. Machado, o principal desafio está na sobreposição dos sinais clínicos. “Quando a investigação se encerra no primeiro diagnóstico, perde-se a oportunidade de identificar outras infecções que podem estar presentes no mesmo paciente”, completa. A semelhança clínica entre malária e arboviroses justifica esse processo. Febre, cefaleia, mialgia e, em alguns casos, exantema aparecem de forma transversal, o que dificulta a distinção baseada apenas na avaliação clínica.
A revisão sistemática mostrou que pacientes coinfectados apresentam combinações variáveis de sintomas, o que aumenta a incerteza diagnóstica e a necessidade de exames laboratoriais. “As implicações clínicas são claras. A malária exige tratamento antiparasitário específico, que reduz rapidamente a carga parasitária e contribui para interromper a transmissão. Já as arboviroses demandam monitoramento clínico contínuo para detectar sinais de gravidade, como complicações hemorrágicas no caso da dengue. Quando a coinfecção não é identificada, o manejo torna-se parcial, com foco em apenas um dos agentes”, alerta o Dr. Machado.
O estudo aponta limitações estruturais importantes, segundo o Dr. Cerilo-Filho. No âmbito laboratorial, a testagem ainda segue, em grande parte, um modelo sequencial e não integrado, investiga-se um agente por vez, conforme a suspeita inicial. A confirmação de um diagnóstico costuma interromper o processo, o que reduz a chance de detectar coinfecções. Além disso, a disponibilidade de testes moleculares ou sorológicos para arboviroses varia bastante entre regiões, o que gera heterogeneidade nos dados.
Para o Dr. Cerilo-Filho, esse padrão se reflete diretamente na vigilância epidemiológica. “A subnotificação de coinfecções impede a construção de séries históricas consistentes e limita a capacidade de planejamento das ações de saúde. Sem dados consolidados, a circulação simultânea de agentes permanece parcialmente invisível, o que compromete desde a alocação de recursos até a definição de protocolos clínicos”, afirma. Ele reconhece que a dinâmica territorial também contribui. “Regiões de fronteira, como o extremo Norte do Brasil, reúnem vários fatores que favorecem a sobreposição de doenças: mobilidade populacional intensa, semelhança clínica entre as doenças, limitações na vigilância integrada e atividades como o garimpo, que aumentam a exposição a vetores”, frisa.
Os autores ressaltam ainda que a circulação de mosquitos Anopheles e Aedes no mesmo espaço cria um ambiente favorável para a transmissão simultânea de diferentes agentes. “Esses ciclos não necessariamente coincidem, mas se sobrepõem ao longo do tempo. Essa presença simultânea de agentes torna ainda mais urgente o aprimoramento das estratégias de diagnóstico e vigilância, acrescenta o Dr. Machado.
Ao reunir evidências de estudos globais e confrontá-las com achados recentes em uma região de fronteira na Amazônia brasileira, os pesquisadores endentem que o estudo reposiciona a coinfecção como um elemento importante nas síndromes febris em regiões tropicais. “Nossos dados mostram que enfrentar essa realidade exige uma mudança na abordagem diagnóstica, com a incorporação de protocolos que prevejam a investigação simultânea de múltiplos agentes, especialmente em áreas onde diferentes patógenos circulam ao mesmo tempo. Sem essa ampliação, uma parcela significativa dos casos continua invisível para os serviços de saúde. O resultado são diagnósticos incompletos, tratamento fragmentado e uma compreensão epidemiológica que não reflete a real complexidade dos territórios onde essas doenças coexistem”, finaliza.
Confira os estudos “Worldwide distribution, symptoms and diagnosis of the coinfections between malaria and arboviral diseases: a systematic review” publicado na Revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz: , e “Co-circulation of Plasmodium vivax and Arboviruses in the Brazil-French Guiana Border” publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0226-2025.
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



