Presidente do ChagasLeish 2026, Dr. Rodrigo Gurgel, defende maior integração entre produção científica, vigilância e tomada de decisão em saúde pública
Às margens do Lago Paranoá, em Brasília, o debate sobre doenças historicamente negligenciadas ganha contornos mais estratégicos e estruturais. Entre os dias 15, com oficinas pré-congresso, e 19 de agosto, o encontro de pesquisa aplicada em doença de Chagas e leishmanioses, ChagasLeish, integra a programação do 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP 2026), propondo uma inflexão no debate. Mais do que apresentar avanços científicos, o foco recai sobre como transformar conhecimento acumulado em resposta efetiva nos sistemas de saúde. Com o tema “Caminhos da inovação para fortalecer a integração da vigilância, controle e assistência nos Sistemas Universais de Saúde”, o encontro traz para o debate um dos principais entraves contemporâneos no campo das Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs), a persistente dissociação entre produção científica, organização dos serviços e implementação de políticas públicas.
A doença de Chagas e as leishmanioses ilustram de forma concreta esses gargalos. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que aproximadamente 8 milhões de pessoas vivem com a doença de Chagas no mundo, enquanto estimativas globais indicam entre 600 mil e 1 milhão de novos casos de leishmaniose cutânea (LC) e entre 50 mil e 90 mil novos casos de leishmaniose visceral (LV) anualmente, distribuídos em diferentes continentes. No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que a doença de Chagas crônica ainda afeta milhões de pessoas, muitas delas sem diagnóstico, e segue associada a elevada carga de mortalidade por complicações cardíacas. Já a leishmaniose visceral registra, em média, milhares de casos anuais, com letalidade que pode superar 8% a 10% em determinados contextos, o que reflete falhas no diagnóstico precoce e no acesso oportuno ao tratamento.
Apesar de avanços relevantes na compreensão da biologia dos parasitos, na identificação de biomarcadores e no desenvolvimento de novas ferramentas diagnósticas, a incorporação dessas inovações ocorre de forma lenta, desigual e frequentemente desassociada das necessidades dos territórios, especialmente em regiões marcadas por vulnerabilidades sociais. No caso da doença de Chagas, causada por Trypanosoma cruzi, o Brasil enfrenta uma transição epidemiológica complexa. A redução da transmissão vetorial clássica, resultado de políticas de controle bem-sucedidas, convive com a emergência de novos padrões, como a transmissão oral, particularmente na região Amazônica. Essa mudança impõe desafios à vigilância, que precisa atuar em contextos mais heterogêneos, muitas vezes associados a cadeias produtivas informais e de difícil regulação sanitária. Além disso, a persistência de um contingente expressivo de indivíduos na fase crônica, frequentemente sem diagnóstico ou acompanhamento clínico, demonstra limitações estruturais do sistema de saúde, desde o rastreamento na atenção primária até a confirmação diagnóstica e o manejo especializado. Trata-se de uma situação em que o subdiagnóstico e o diagnóstico tardio continuam sendo determinantes centrais da carga da doença no País.
As leishmanioses, por sua vez, revelam a crescente complexidade da interface entre saúde, ambiente e urbanização. Causadas por protozoários do gênero Leishmania e transmitidas por flebotomíneos, essas doenças apresentam dinâmicas fortemente influenciadas por mudanças no uso do solo, expansão urbana desordenada e alterações climáticas. No Brasil, a leishmaniose visceral consolidou-se como problema urbano e periurbano, enquanto a forma tegumentar mantém ampla distribuição territorial, frequentemente associada a processos de ocupação de áreas ambientalmente vulneráveis. Para se ter uma ideia da gravidade do problema, a leishmaniose tegumentar está amplamente distribuída, com registro de casos autóctones em todas as unidades federadas. No período de 2021 a 2024, conforme dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) extraídos em setembro de 2025, foram registrados 56.448 casos de leishmaniose tegumentar no País, dos quais 50.621 eram casos novos, representando média anual de 12.655 casos e coeficiente de detecção médio de 6,09 casos por 100 mil habitantes. A distribuição da leishmaniose tegumentar no Brasil é heterogênea, com maior incidência nas Regiões Norte e Nordeste, onde fatores ambientais e sociais favorecem a proliferação do vetor e a manutenção da transmissão.
Diante desse quadro, o ChagasLeish se consolida como espaço de articulação entre pesquisa, serviços e gestão, ao colocar no centro do debate o acesso ao diagnóstico e ao tratamento no contexto dos sistemas universais de saúde, o desenvolvimento de linhas de cuidado integradas e os desafios operacionais para o controle dessas doenças em cenários complexos. O encontro também direciona atenção para a incorporação de inovações em vigilância, diagnóstico e terapêutica, além de discutir estratégias de gestão, capacitação profissional e disseminação do conhecimento, elementos considerados críticos para que os avanços científicos se traduzam em resposta efetiva nos territórios. Ao mesmo tempo, reforça que o enfrentamento dessas enfermidades exige respostas estruturais, capazes de reduzir desigualdades que sustentam sua persistência, especialmente nos países do Sul Global. O ChagasLeish inclui oficinas, cursos, mesas-redondas, conferências e outras atividades relacionadas a esses agravos, sendo um dos principais eventos de inovação e desenvolvimento científico e tecnológico em doença de Chagas e leishmanioses.
Segundo o professor da Universidade de Brasília (UnB) e presidente do ChagasLeish 2026, Dr. Rodrigo Gurgel, o principal desafio está em superar a fragmentação histórica entre os diferentes níveis de resposta. “Há um acúmulo importante de conhecimento científico, mas ainda seguimos com dificuldades para traduzir esses avanços em práticas efetivas no sistema de saúde. O ChagasLeish se propõe a discutir essa distância”, ressalta. Para ele, a realização simultânea ao MEDTROP amplia o potencial de abrangência ao favorecer a interlocução entre campos que tradicionalmente operam de forma pouco integrada. “Quando aproximamos pesquisa, assistência e gestão, criamos condições mais concretas para que a inovação não permaneça restrita ao campo acadêmico, mas alcance os serviços e, sobretudo, as populações mais vulneráveis”, assinala. Ele ainda enfatiza a necessidade de avançar no desenvolvimento de tecnologias para facilitar a assistência e vigilância. “Queremos aproximar ainda mais os pesquisadores em doença de Chagas e leishmanioses dos serviços, para desenvolver soluções voltadas a problemas de acesso, linhas de cuidado e controle, baseadas em inovações e na aplicação de tecnologias. Objetivamos fortalecer a incorporação das inovações, para que a ciência produzida na área de Medicina Tropical esteja a serviço da sociedade, em um Sistema Universal de Saúde”, acrescenta.
Criado na década de 1980 por iniciativa de pesquisadores dedicados ao estudo da doença de Chagas, o encontro acompanhou a própria evolução do campo da Medicina Tropical no Brasil. A incorporação das leishmanioses ao longo do tempo ampliou o escopo temático. Essa trajetória refletiu a complexidade crescente dessas enfermidades, que demandam abordagens interdisciplinares e respostas coordenadas entre diferentes níveis do sistema de saúde. Mais recentemente, a realização conjunta com o MEDTROP tem fortalecido a interface entre produção científica, organização dos serviços e estratégias de vigilância e controle. “Em 2026, o ChagasLeish busca se posicionar como um espaço estratégico de articulação entre pesquisa, assistência e políticas públicas diante de agravos que seguem impactando populações em diversas regiões do Brasil e de outros países tropicais. Em um mundo marcado pela persistência das DTNs no Sul Global, o ChagasLeish pretende mostrar que, sem integração efetiva entre conhecimento científico, sistemas de saúde e realidades territoriais, os avanços tendem a permanecer subutilizados e as desigualdades tendem a se perpetuar”, finaliza o Dr. Gurgel.
Mais informações: https://medtrop2026.com.br/
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



