
Pesquisadores brasileiros envolvidos em estudos sobre vetores da leishmaniose encontraram, pela primeira vez nas Américas, larvas de um verme do gênero Onchocerca em mosquito palha, transmissor da leishmaniose. A professora da Universidade Federal do Acre (UFAC), doutora em saúde pública que lidera a pesquisa, Dra. Andreia Brilhante, publicou, em coautoria, um artigo científico na renomada revista Scientific Reports intitulado “First report of an Onchocercidae worm infecting Psychodopygus carrerai carrerai sandfly, a putative vector of Leishmania braziliensis in the Amazon” relatando essa importante descoberta na área da parasitologia. Os autores conseguiram ainda gravar um vídeo com o verme em movimento, disponível na publicação.
Apesar da larva encontrada no inseto ter características morfológicas, movimentação semelhante a L3, e a espécie de flebotomíneos na qual as larvas foram encontradas ser muito antropofílica, não se sabe se o filarídeo consegue desenvolver seu ciclo até tornar-se infectante no homem, ou em que outros animais. Há, portanto, necessidade de mais investigações a partir desta pesquisa e deste achado que trouxe novidades para ciência.
A descoberta pode impulsionar novas pesquisas sobre a investigação do papel dos flebotomíneos na transmissão de outros patógenos, diferentes daqueles que já se tem conhecimento. “Além disto, mostra a importância de realizar a investigação a fresco dos insetos coletados no campo, sobretudo na região Amazônica, onde se encontra a maior biodiversidade do mundo, mesmo que muitas vezes seja difícil devido à logística ou às condições físicas de localidades de difícil acesso, quando em algumas épocas do ano, como no período chuvoso, se torna mais complexo”, ressalta a Dra. Brilhante ao lamentar a destinação escassos de recursos financeiros à pesquisa.
A pesquisadora conta que tudo começou com a realização do projeto pesquisa de seu doutorado sobre fauna de flebotomíneos e leishmanioses no município de Xapuri, cidade que fica a 187 quilômetros da capital do Acre, Rio Branco. O trabalho buscava formas flageladas de tripassomatídeos em flebotomíneos, dissecando as fêmeas que eram examinadas sob o microscópio em busca dessas formas. “As dissecções foram realizadas ainda em campo, na Gerência de Endemias de Xapuri. Para fazermos a identificação das espécies de flebotomíneos, além de outras estruturas, observávamos a cabeça da fêmea. Foi quando observamos larva de filarídeo em duas fêmeas da espécie Psychodopygus carreirai. O achado foi uma grande surpresa, pois nunca havíamos visto nada assim”, detalha a Dra. Brilhante.
As larvas foram fotografadas e o material encaminhado ao Serviço de Referência Nacional em Filarioses e Fundação Oswaldo do Cruz (Instituto Aggeu Magalhães) para que o parasito pudesse ser caracterizado por ferramentas de biologia molecular. A identificação revelou ser a larva de Onchocercidae. Questionada sobre o que explica esses flebotomíneos infectados com a larva de filarídeo, a professora esclarece que o local onde os insetos foram coletados situa-se na região amazônica, com floresta preservada, presença de diferentes mamíferos silvestres, e no entorno, são encontrados animais domésticos comuns de área rural. Segundo ela, isso leva a crer que esses animais, silvestres e domésticos podem estar participando do ciclo de transmissão desse filarídeo e infectando flebotomíneos que se alimentam neles.
O artigo informa que não há registro de doenças parasitárias causadas por filárias no município Xapuri. Porém menciona que, no passado, havia a ocorrência nas circunvizinhanças de Mansonella ozzardi, filária pertencente à Família Onchocercidae, amplamente endêmica na Região do Amazonas. Após a publicação do artigo foram realizadas algumas coletas na região e até o momento outras espécies ou exemplares de flebotomíneos infectados com estas larvas não foram encontradas. “Vamos dar continuidade aos trabalhos de campo e as investigações com os vetores, além de começar as investigações em animais domésticos e silvestres para verificar se estão infectados com esse parasita ou outros, e elucidar um pouco mais sobre o papel desses animais e vetores nos ciclos de transmissão do verme, ou seja, se de fato há algum papel epidemiológico importante ou se foi uma infecção natural sem maiores implicações epidemiológicas”, finaliza a Dra. Brilhante. O projeto foi realizado por meio de colaboração entre a UFAC, a Fiocruz Pernambuco e o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), da Universidade Nova de Lisboa (POR).



