Entre os dias 16 e 19 de agosto, Brasília se torna um dos principais centros de discussão científica em Medicina Tropical. Durante o 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP 2026), a capital federal também sedia o XI Workshop de Genética, Biologia Molecular e Controle de Insetos Vetores de Doenças Tropicais (Entomol XI), consolidado como espaço estratégico para o intercâmbio entre pesquisadores da área. Além de promover atualização científica, o encontro estimula a participação de profissionais envolvidos na implementação de ações de vigilância em saúde nos níveis municipal, estadual e federal no Sistema Único de Saúde (SUS).
Realizado paralelamente ao MEDTROP, o Entomol reúne especialistas, estudantes e profissionais da saúde pública para discutir temas relacionados à biologia, genética e controle de vetores, com ênfase na integração entre diferentes abordagens científicas. A proposta do evento é ampliar o diálogo entre pesquisas desenvolvidas no país e no exterior e fortalecer a colaboração entre instituições, contribuindo para o avanço do conhecimento aplicado à vigilância e ao controle de doenças transmitidas por vetores.
O Coordenador do Entomol XI, Dr. Sinval Pinto Brandão Filho, destaca o caráter aplicado das discussões. “Reunimos diversos pesquisadores e profissionais de saúde que atuam na vigilância em saúde para apresentar avanços recentes dos estudos em controle de vetores em diferentes realidades epidemiológicas no País e alguns estudos no exterior, fortalecendo a área de entomologia médica no Brasil. A ideia é discutir resultados recentes e, sobretudo, como incorporá-los às ações de vigilância e prevenção”, ressalta. Ainda segundo ele, a realização conjunta com o MEDTROP amplia a interlocução entre áreas complementares da Medicina Tropical, favorecendo o diálogo entre academia, pesquisa aplicada, serviços de saúde pública e formuladores de políticas públicas. “O Entomol contribui para aproximar a produção científica das demandas dos serviços de vigilância em saúde”, acrescenta.
Alinhado ao tema central do MEDTROP 2026, “Saúde nos trópicos: uma visão integradora sob a perspectiva do Sul Global”, o Entomol XI também se insere nesse debate ao abordar a complexidade dos agravos transmitidos por vetores em contextos marcados por desigualdades sociais, mudanças ambientais, urbanização acelerada e limitações estruturais dos sistemas de saúde. Nesses cenários, a produção e a aplicação do conhecimento científico ganham papel estratégico na formulação de respostas mais eficazes e adaptadas às realidades locais, especialmente no campo da vigilância e do controle de doenças.
Para o Dr. Brandão Filho, considerar essas variáveis tem sido importante para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes e adaptadas a cada região. Segundo ele, o avanço das ferramentas em biologia molecular e genética tem ampliado as possibilidades de estudos dos vetores e de suas interações com os agentes infecciosos transmitidos. “Esse conjunto de conhecimentos contribui para orientar as políticas públicas, garantindo que resultados de pesquisa contribuam efetivamente para reduzir riscos à saúde de populações vulneráveis e onde essas doenças permanecem como desafio relevante”, assinala.
No Brasil, um dos exemplos mais evidentes desse desafio é a ampla diversidade de arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti. Estudos voltados ao monitoramento genético de populações vetoriais, à identificação de mecanismos de resistência e à avaliação de novas tecnologias aplicadas ao controle em campo estão entre os temas contemplados na programação do Entomol. As leishmanioses também ilustram a complexidade do controle de vetores, com a expansão de flebotomíneos em áreas periurbanas modificando padrões clássicos de transmissão, enquanto ciclos silvestres continuam ativos em áreas endêmicas. O mapeamento genético dos vetores surge como ferramenta relevante para antecipar mudanças nos padrões de transmissão e orientar ações de vigilância, especialmente em regiões com menor capacidade de resposta.
Para o Dr. Brandão Filho, o avanço da entomologia molecular e da genômica tem redefinido o campo. “Hoje conseguimos identificar mecanismos de resistência, acompanhar a dispersão de vetores e testar intervenções de forma mais precisa antes da aplicação extensiva em campo, com impacto direto na implementação e no sucesso das estratégias de controle”, acrescenta.
Criado com o objetivo de fortalecer a pesquisa em entomologia médica no Brasil, o Entomol se firmou como um espaço de referência para discussão de temas relacionados à biologia, genética e ecologia de populações de mosquitos, triatomíneos e flebotomíneos, entre outros vetores. A programação contempla desde aspectos básicos da biologia dos insetos vetores até estratégias voltadas ao seu controle, reunindo diferentes perspectivas de estudo. Ao aproximar áreas do conhecimento e integrar pesquisa, vigilância e gestão das ações de controle, o Entomol XI ressalta o papel da entomologia médica como eixo central no enfrentamento das doenças tropicais, desafio que permanece urgente nos países do Sul Global.
Mais informações: https://medtrop2026.com.br/
Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.



