Zika vírus chegou ao Brasil possivelmente através da América Central, aponta estudo da Fiocruz PE

Ao contrário do que se pensava, o vírus Zika não entrou no País durante a Copa do Mundo de 2014, tampouco durante o Campeonato Mundial de Canoagem, realizado em agosto de 2014 no Rio de Janeiro
Results may support health managers in the monitoring and early detection of possible arboviruses imported from Central America and the Caribbean to Brazil, especially in ports, airports and border regions
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Resultados podem embasar gestores de saúde quanto ao monitoramento e detecção precoce de possíveis arbovírus importados da América Central e do Caribe para o Brasil, sobretudo em portos, aeroportos e em regiões de fronteira

Um estudo publicado recentemente no International Journal of Genomics intitulado Revisiting Key Entry Routes of Human Epidemic Arboviruses into the Mainland Americas through Large-Scale Phylogenomics preencheu uma lacuna na literatura sobre o Zika vírus ao traçar a rota da chegada ao Brasil. De acordo com o pesquisador Lindomar Pena, um dos autores da pesquisa, a importância principal do estudo é que ele identifica a América Central e o Caribe como rotas importantes para a entrada de Zika e outros arbovírus, como dengue e chikungunya, no Brasil. “Essa informação é importante para embasar os gestores de saúde quanto ao monitoramento e detecção precoce de possíveis arbovírus importados dessa região para o Brasil, sobretudo em portos, aeroportos e em regiões de fronteira com outros países”, destaca. O Dr. Gabriel Wallau, que também participou da pesquisa, acrescenta que essas regiões, junto com portos e aeroportos, deveriam ser priorizadas para monitoramento viral tanto em pessoas quanto em vetores que podem ser carregados através de diferentes meios de transporte. “Uma vigilância epidemiológica bem montada poderia detectar rapidamente a passagem de um novo patógeno e então permitiria a tomada de decisão sobre as medidas de controle e contenção para evitar que o novo patógeno se espalhe”, afirma.

Rota de entrada dos vírus

O Dr. Pena explica que, ao contrário do que se pensava, o vírus Zika não entrou no Brasil durante a Copa do Mundo de 2014, tampouco durante o Campeonato Mundial de Canoagem, realizado em agosto de 2014 no Rio de Janeiro. Ainda segundo o Dr. Pena, os resultados indicam que o vírus chegou ao País no final de 2013, vindo da América Central e do Caribe. Assim, o Zika vírus seguiu a mesma rota do genótipo asiático dos vírus chikungunya e dengue: da Ásia para a Oceania, emergindo na América Central e Ilhas do Caribe, e finalmente chegando à América do Sul. “Não sabemos como ele foi importado para o Brasil e talvez jamais iremos saber, pois nunca foi identificado o primeiro paciente que veio infectado para o Brasil antes do início da epidemia. Entretanto, como existe um fluxo de imigrantes ilegais vindos do Haiti e militares brasileiros viajaram em missão de paz para lá até 2017, essa é uma possível maneira pela qual o vírus Zika pode ter chegado ao Brasil”, acrescenta o pesquisador ao observar que outras possibilidades não podem ser descartadas.

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O Dr. Wallau reforça a importância de esclarecer que o caminho percorrido pelos vírus zika, dengue e chikungunya teria sido o mesmo, pelos menos para os quatro sorotipos de Dengue, o genótico Asiático de Chikungunya e o genótipo Asiático do vírus Zika, uma vez que existe outra linhagem do vírus Chikungunya que circula no Brasil vindo da África. Ainda segundo ele, outro ponto importante a salientar é que esse caminho foi percorrido em diferentes períodos pelos diferentes sorotipos de Dengue e também para os outros arbovírus. “A relação existente mostra que o fluxo de pessoas entre a América Central e do Sul é intenso possibilitando a rápida disseminação desses vírus entre essas regiões”, observa.

A pesquisa e os próximos passos

O Dr. Pena conta que a ideia da pesquisa surgiu a partir da detecção e sequenciamento pela primeira vez do Zika vírus no estado de Pernambuco em 2016. “Ao sequenciar o vírus circulante em PE, detectamos que se tratava da cepa Asiática e não da Africana. Um pergunta muito importante a ser respondida era a origem do vírus e qual foi a sua rota até o Brasil. Para responder a essa questão, analisamos todas as sequências genômicas do vírus Zika isolados a partir de humanos disponíveis no GenBank, um banco genético mundial, usando ferramentas computacionais de última geração”, completa. Ele detalha que agora é preciso monitorar a evolução do vírus no período interepidêmico para detectar as mutações que ele vem sofrendo durante sua evolução natural e entender o significado dessas mudanças no que se refere à virulência, transmissibilidade, resistência a antivirais e capacidade de escapar do sistema imune. “Entretanto, esses estudos estão severamente ameaçados pelos cortes brutais que o governo vem fazendo no orçamento para pesquisa no Brasil”, lamenta.

Além do Dr. Lindomar Pena e do Dr. Gabriel Wallau, o estudo contou com a participação dos pesquisadores Túlio Campos e Antonio Rezende, da Fiocruz Pernambuco, e de um colaborador da Universidade de Glasgow, Alain Kohl.

Brasil pode voltar a sofrer com epidemias de Zika e Chikungunya

De acordo com o Dr. Pena é possível que tenhamos novas epidemias de Zika, Chikungunya, dengue ou até mesmo outro arbovírus. Segundo ele, a precariedade do saneamento básico no Brasil favorece a gênese e disseminação das arboviroses, doenças contra as quais não temos antivirais nem vacinas disponíveis (exceção de dengue que tem uma vacina aprovada pela Anvisa, mas que ainda não é amplamente utilizada). Para prevenir essas doenças ele é categórico ao afirmar que a melhor estratégia é o investimento em infraestruturas de saneamento básico, que inclui o abastecimento de água potável, o manejo de água pluvial, a coleta e tratamento de esgoto, a limpeza urbana, o manejo de resíduos sólidos e o controle de vetores dessas doenças, como os mosquitos do gênero Aedes e Culex. “As arboviroses são doenças cuja incidência é muito influenciada pelas condições socioambientais. Para controlá-las, é necessário investir em educação em saúde, infraestrutura de saneamento básico e também em políticas de urbanização das cidades de forma sustentável. Infelizmente essas ações não geram votos, gerando pouco interesse dos políticos em implementá-las”, conclui.

O Dr. Wallau admite a probabilidade de que o vírus Zika volte a causar surtos menores à medida que ele mutar ou alcançar populações ainda não infectadas. Essa análise é baseada na experiência com o vírus da Dengue, que se estabeleceu no Brasil há muitos anos, mas que ainda causa surtos anuais em diferentes regiões. “Os dados apontam que é pouco provável termos outra epidemia de escala mundial como foi a de 2015/2016, mas também mostram que o vírus continua circulando e surtos menores devem acontecer com o passar do tempo. Novas pesquisas são necessárias para monitorar a evolução desse vírus e detectar onde podem ocorrer esses novos surtos”, argumenta.

Apesar dos dados atuais demonstrarem que o número de casos de pessoas infectadas por Zika no Brasil diminuiu drasticamente, o que é algo esperado já que a maioria da população já foi infectada e desenvolveu anticorpos contra o vírus, ainda são detectados pacientes infectados com o vírus, o que mostra que o Zika ainda está e provavelmente continuará circulando no País.

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