
A esporotricose, micose causada por fungos do gênero Sporothrix, consolidou-se como um desafio de saúde pública de alcance mundial. Uma revisão sistemática publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT) intitulada “Sporotrichosis: an overview of the neglected disease reported worldwide in the last five years“, traçou o retrato mais abrangente já realizado sobre a esporotricose nas últimas décadas e confirmou a expansão global da doença. O estudo reuniu 120 publicações científicas que relataram 18.251 casos entre 2018 e 2022, sendo 14.187 em humanos e 4.064 em animais, identificando o Brasil e a China como os principais focos de infecção.
O levantamento indicou que as Américas concentraram 67,4% das notificações e a Ásia 40,5%, o que reflete um crescimento contínuo desde os primeiros registros. O Brasil lidera em números absolutos, com 7.945 casos humanos e 4.058 em animais, seguido pela China, com 5.679 notificações humanas. Paraguai, Uruguai, Índia e África do Sul também apareceram entre os países com registros expressivos. Segundo o Dr. João Victor Moura Rosa, um dos autores, a situação atual demonstra a emergência da esporotricose como uma micose cosmopolita, que precisa ser reconhecida como um problema de saúde pública de escala global.
A revisão apontou que Sporothrix brasiliensis é a espécie predominante e de maior importância epidemiológica, responsável por surtos hiperendêmicos no Brasil, especialmente nas regiões Sudeste e Nordeste. Essa espécie apresenta maior virulência, adaptação a hospedeiros animais e potencial zoonótico mais acentuado que outras do mesmo gênero. Segundo o Dr. Rosa, a presença de S. brasiliensis no Reino Unido, detectada recentemente, chama a atenção para a expansão geográfica do fungo, associada a fatores como globalização, deslocamento de animais domésticos e variações climáticas que alteram a dinâmica dos reservatórios ambientais. Outras espécies, como S. schenckii e S. globosa, também foram registradas com frequência, além de isolados raros de S. chilensis e S. humicola.
A análise também evidenciou o papel dos gatos domésticos como principais amplificadores da transmissão zoonótica. Entre os 4.064 casos animais documentados, os felinos responderam por 3.703 (91%), o que confirma sua relevância na disseminação da infecção. “Esses animais, além de atuarem como reservatórios, eliminam o fungo por meio de secreções e lesões cutâneas, favorecendo a transmissão para humanos e outros animais. O contato direto durante o manejo de gatos infectados ou de solo e matéria orgânica contaminada permanece como principal fator de risco”, atentou o pesquisador.
Para se ter uma ideia, dos 6.772 casos com forma clínica definida, 99,4% apresentaram manifestações cutâneas. A forma fixa respondeu por 4.706 casos, e a linfocutânea, por 1.956. As formas disseminadas e extracutâneas, mais graves, corresponderam a 1,6% do total e estiveram associadas a pacientes imunossuprimidos, incluindo pessoas com HIV/AIDS e transplantados. Para o Dr. Rosa, o predomínio das formas cutâneas mostra que o contato direto com animais infectados continua sendo o principal modo de transmissão, mas a identificação de casos graves reforça a importância de vigilância clínica e laboratorial qualificada.
Quanto ao diagnóstico, este ainda depende majoritariamente da cultura fúngica, considerada padrão-ouro, mas o artigo ressalta avanços na aplicação de métodos moleculares, como a reação em cadeia da polimerase (PCR) e o sequenciamento genético, que permitem diferenciar espécies e rastrear surtos com maior precisão. No entanto, segundo o pesquisador, o acesso a essas ferramentas permanece limitado, sobretudo em países de baixa e média renda, o que contribui para a subnotificação e dificulta o mapeamento epidemiológico global. Ele destaca que a padronização do uso de métodos genotípicos pode fornecer informações mais detalhadas sobre a distribuição e a dinâmica de expansão da micose.
Em relação ao tratamento, o trabalho demonstrou que o itraconazol foi a droga mais empregada, administrada em mais de 2 mil pacientes. “Apesar da alta eficácia, o medicamento apresenta restrições devido a efeitos adversos e interações com outros fármacos”, lembrou. O iodeto de potássio, um dos primeiros agentes antifúngicos utilizados no século XX, permanece amplamente indicado em regiões com menos recursos, devido à boa resposta terapêutica e ao baixo custo. A anfotericina B foi usada em 695 casos, geralmente graves, e a terbinafina em 197, como alternativa de segunda linha. “A escolha do tratamento depende da forma clínica, do estado imunológico do paciente e da espécie envolvida, pois o perfil de suscetibilidade antifúngica não é uniforme entre as linhagens”, explicou o autor.
O Dr. Rosa destacou ainda que o ambiente exerce papel relevante na manutenção do fungo. “Áreas com clima tropical e úmido, solos ricos em matéria orgânica e grande presença de gatos de vida livre criam condições ideais para a persistência de Sporothrix no ecossistema urbano. Esse conjunto de fatores torna a esporotricose uma micose associada tanto à vulnerabilidade social quanto à falta de infraestrutura de saúde veterinária e pública”, observou. Ainda segundo ele, há carência de políticas internacionais de vigilância. A esporotricose é de notificação obrigatória em poucos países e, mesmo no Brasil, onde há protocolos estaduais, as subnotificações persistem. Para o pesquisador, a ausência de dados sistemáticos dificulta o planejamento de ações preventivas, a estimativa real da carga da doença e o desenvolvimento de estratégias de controle. “Nosso levantamento revelou que a esporotricose permanece subnotificada, e os dados disponíveis provavelmente representam apenas uma fração da realidade”, acrescentou.
O autor defende o fortalecimento de ações baseadas no conceito de Saúde Única (One Health), que integra os eixos humano, animal e ambiental. Entre as medidas recomendadas para conter a expansão, ele cita a vigilância integrada, a educação comunitária, o manejo responsável de animais infectados e o descarte seguro de carcaças, considerados fundamentais para conter o avanço da doença. Para ele, a persistência da esporotricose reflete um desequilíbrio entre os componentes ambiental, animal e humano da saúde. O controle efetivo depende da cooperação entre setores e países.
Por fim, o Dr. Rosa sugere investimento em pesquisas sobre resistência antifúngica e o desenvolvimento de modelos preditivos que considerem variáveis ambientais e climáticas, de modo a antecipar áreas de risco e surtos futuros. “Essa perspectiva amplia a abordagem da micose, de um problema veterinário regional, para uma questão global de vigilância e política sanitária”, encerrou.
Confira o artigo “Sporotrichosis: an overview of the neglected disease reported worldwide in the last five years” publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0211-2025.



