Dr. Gustavo Romero é eleito presidente da SBMT no biênio 2026-2028

Mais do que gestor de uma sociedade científica, o novo presidente assume o papel de ponte entre o campo da pesquisa, as políticas públicas e a sociedade

21

A eleição do Dr. Gustavo Romero à presidência da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) representa mais que uma sucessão de cargos; marca o início de uma nova etapa de compromisso firme com a ciência, com a saúde pública e com a consolidação da Medicina Tropical no Brasil. Em um momento em que o mundo convive com desafios climáticos, epidemias emergentes e reemergentes, desigualdades sociais profundas e a constante pressão sobre os sistemas de saúde, assumir essa liderança exige visão, coragem e interlocução robusta com múltiplos atores. O Dr. Romero chega ao cargo com uma trajetória consolidada na pesquisa, na gestão acadêmica e no enfrentamento de doenças tropicais.

À frente da SBMT, o Dr. Romero terá a missão não só de manter a relevância da entidade, mas de ampliá-la, fortalecendo o diálogo entre pesquisadores, profissionais de saúde, gestores públicos e a sociedade, evidenciando a necessidade de consolidar o papel da ciência no enfrentamento das doenças tropicais e negligenciadas. Para saber mais sobre o assunto, a assessoria de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) entrevistou o presidente eleito para o biênio 2016-2028, que é médico infectologista e doutor em Medicina Tropical, com atuação destacada em pesquisa clínica e vacinas.

Confira a entrevista na íntegra.

SBMT: Quais serão as principais prioridades da sua gestão à frente da SBMT?

Dr. Gustavo Romero: A equipe de gestão da SBMT para o biênio 2026-2027, liderada por mim e pela professora Marcia Hueb, terá como prioridade fundamental contribuir de forma efetiva para fortalecer o ambiente de pesquisa, desenvolvimento e inovação no campo das doenças que afetam as populações das regiões tropical e subtropical, lançando mão do seu papel como entidade facilitadora das relações entre os diferentes atores e setores envolvidos com a saúde nos trópicos. Para tanto, continuará aprimorando a sua reconhecida capacidade de contribuir para a formulação de políticas públicas de saúde, baseadas em evidências científicas, por meio da participação efetiva de seus membros e membras em parceria com o setor público, notadamente o Ministério da Saúde e as instituições de ensino e pesquisa.

SBMT: A Medicina Tropical enfrenta novos desafios diante das mudanças climáticas, migrações populacionais e emergência de arboviroses. Como a SBMT pode se posicionar nesse cenário?

Dr. Gustavo Romero: O presente e o futuro se encontram fortemente comprometidos em decorrência da exploração desenfreada dos recursos naturais, em um modelo de desenvolvimento e de consumo que claramente não é mais sustentável. A perversidade da concentração da riqueza nas mãos de poucos e o aprofundamento, cada vez mais trágico, das desigualdades sociais têm impacto direto sobre a saúde da população, que frequentemente sofre de forma brutal os efeitos das mudanças climáticas. A migração de populações empobrecidas em busca por sobrevivência, lutando para não serem descartadas em processos eivados pela necropolítica, certamente representa um grande desafio que perpassa de forma crítica pelo campo da saúde. A equipe de gestão 2026-2027 está ciente e certa de que o compromisso da SBMT com o imperativo ético de encampar a luta pelos menos favorecidos é parte da sua missão e, coerentemente, lutará propositivamente para que as políticas públicas no setor da saúde recebam o investimento devido, pari passu à produção de novo conhecimento e à formulação de soluções para os desafios que impõe o cenário em permanente transformação.

SBMT: O senhor tem forte experiência em ensaios clínicos de vacinas. Como pretende fortalecer o papel da SBMT na promoção da pesquisa e inovação em vacinologia no Brasil?

Dr. Gustavo Romero: A SBMT é uma sociedade rica e diversa quando se trata de formular soluções, e os seus membros e membras são participantes de destaque em projetos que têm sua visibilidade maior na realização de grandes ensaios clínicos, tais como os recentemente desenvolvidos para as vacinas contra a Covid-19 e dengue, só para citar dois exemplos bastante conhecidos. Porém, o percurso translacional que redunda na produção e registro de um novo produto vacinal é longo e envolve a participação de muitos atores na pesquisa, na gestão pública e no setor produtivo, que também merecem atenção e a devida visibilidade. Pari passu, a SBMT fortalecerá seu papel relevante na releitura desse processo complexo para que ele seja inteligível para a população geral, de tal forma que a participação cidadã, com a devida apropriação do conhecimento baseado na ciência, combata efetivamente o negacionismo científico. Paralelamente, a SBMT deve promover a interação efetiva entre os diversos atores ligados à pesquisa clínica nas suas dimensões científica e ética, para enriquecer o debate e produzir as melhores soluções necessárias dentro do novo marco legal da pesquisa clínica no Brasil, evitando qualquer retrocesso nos direitos duramente conquistados pelos participantes das pesquisas.

SBMT: Muitos países tropicais ainda convivem com doenças negligenciadas que carecem de investimento. Como o Brasil e a SBMT podem contribuir mais nesse esforço global?

Dr. Gustavo Romero: A luta por mais recursos para a saúde da população e pela redução das desigualdades está intrinsecamente ligada à missão da SBMT de contribuir efetivamente para o controle e a eliminação das doenças negligenciadas. Elas são agravos socialmente determinados e produto direto das trágicas desigualdades que ajudam a perpetuar. Romper esse ciclo perverso é fundamental para que essas populações sejam libertadas dessa situação. A SBMT deve somar-se ao esforço institucional de várias entidades que lutam com a finalidade de controlar e eliminar as doenças negligenciadas e fortalecerá a parceria com os pesquisadores e pesquisadoras que se dedicam ao trabalho junto às comunidades para o seu empoderamento, por meio do conhecimento e da organização coletiva na luta para tornar efetivo o direito à saúde.

SBMT: A saúde indígena e de populações vulneráveis é uma agenda histórica da SBMT. Como sua gestão pretende reforçar esse debate?

Dr. Gustavo Romero: É fundamental que haja uma abertura genuína para a efetiva participação da sociedade civil nos processos de tomada de decisão que afetam a saúde e as condições de vida das populações que sofrem o impacto direto da desigualdade econômica e da exclusão por razões de cor, etnia, gênero, etc. O novo marco legal para a pesquisa clínica no Brasil merece especial atenção da SBMT no que tange à população indígena, e o momento é oportuno para, a partir de uma escuta qualificada, fazer uma releitura do cenário atual que permita projetar de forma concreta o escopo de ação possível e desejada da SBMT no campo da saúde dos povos originários.

SBMT: A SBMT sempre buscou valorizar os jovens pesquisadores. Quais estratégias pretende adotar para ampliar a formação e a integração de novas gerações à Medicina Tropical?

Dr. Gustavo Romero: A relação da SBMT com instituições de ensino superior (IES) formadoras das e dos profissionais de saúde será fortalecida. Usualmente, a interação da SBMT com as lideranças dos programas de pós-graduação das IES ocorre de forma mais livre e espontânea; no entanto, o trabalho junto aos cursos de graduação ainda é escasso e se limita aos locais onde existem docentes que participam da SBMT. Fazer com que a saúde nos trópicos se torne um tema relevante e de alta desejabilidade para as novas gerações passa, necessariamente, pela urgente necessidade de desenvolver uma comunicação efetiva que transponha barreiras geracionais, para que o tema que nos interessa entre na pauta de lutas das novas gerações. Assim, a SBMT fortalecerá sua capacidade de se comunicar efetivamente com as novas gerações de profissionais e com a comunidade leiga como um todo.

SBMT: O MEDTROP 2026 já tem data e local, será realizado em Brasília, Distrito Federal. O que podemos esperar do Congresso sob a sua dupla presidência?

Dr. Gustavo Romero: O MEDTROP 2026 terá como tema principal a saúde nos Trópicos, com uma visão integradora sob a perspectiva do Sul Global. Pretendemos ter um grande Congresso, com muita participação e debates que permitam ler e reler nossos problemas e desafios, lançando mão da vasta criatividade e expertise de gestores e gestoras, pesquisadores e pesquisadoras, membros e membras da sociedade civil organizada, profissionais de saúde, estudantes e representantes do setor produtivo, para que, a partir do novo conhecimento científico produzido e a experiência acumulada na gestão e nos serviços de saúde, possamos construir e propor de forma participativa com a sociedade civil, as melhores soluções para alcançarmos a saúde e o devido bem-estar das populações nos trópicos. Receberemos a todos, todas e todes com os braços abertos em Brasília.

SBMT: Qual mensagem gostaria de deixar para os sócios, pesquisadores e profissionais que atuam com Medicina Tropical no Brasil e no mundo?

Dr. Gustavo Romero: A urgência de permanecermos em pé, lutando pela saúde da população com visão ampla, profunda e multilateral dos processos que determinam socialmente os agravos que nos ocupam.

Gostou do conteúdo? Compartilhe com colegas e ajude a fortalecer a ciência.

Últimas notícias

plugins premium WordPress