Escorpionismo cresce nas cidades brasileiras

Estudo nacional identificou aumento de 349% na incidência entre 2012 e 2024; Nordeste e Sudeste concentraram 87% dos registros no período
N183 BANNER 3

Escorpiões responderam por mais de 65% dos acidentes com animais peçonhentos registrados no Brasil em 2025

O escorpionismo deixou de ser um problema restrito a determinadas áreas e passou a integrar a rotina de muitas cidades brasileiras. Em 2025, o País registrou mais de 225 mil acidentes por escorpiões, segundo dados do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde divulgados pelo Instituto Butantan. O total correspondeu a mais de 65% dos acidentes por animais peçonhentos notificados no período. A dimensão do problema também aparece em um estudo publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases intitulado “Scorpionism in Brazil: Space-time approach and risk areas in 2012 to 2024”, que analisou os registros dos 5.570 municípios brasileiros entre 2012 e 2024. Foram notificados 1.729.023 acidentes e 1.230 óbitos no período. A taxa de incidência passou de 31,8 casos por 100 mil habitantes, em 2012, para 142,82 por 100 mil habitantes, em 2024, aumento de 349%. Nordeste e Sudeste concentraram 87% dos casos analisados. Minas Gerais, São Paulo e Bahia estiveram entre os estados mais afetados e reuniram aglomerados de municípios classificados como áreas de alto risco. A análise também identificou crescimento das taxas em áreas do sul da Bahia, do norte de Minas Gerais e do noroeste de São Paulo.

Diferentemente dos acidentes ofídicos, mais associados a atividades rurais, os acidentes por escorpiões apresentam perfil predominantemente urbano. Esses aracnídeos encontram abrigo em entulhos, materiais de construção, redes de esgoto, ralos, caixas de gordura, frestas e outros locais escuros e pouco movimentados. A presença de baratas, uma de suas principais fontes de alimento, também contribui para a permanência dos escorpiões em áreas habitadas. Para a professora Rejane Lira, do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (IBIO/UFBA) e coordenadora do Núcleo Regional de Ofiologia e Animais Peçonhentos da Bahia (NOAP/UFBA), o avanço do escorpionismo nas cidades resulta de fatores ambientais, urbanos e sociais. “O crescimento urbano desordenado, a ausência de predadores naturais, como corujas, sariguês e sapos, a disponibilidade de alimento, especialmente baratas, e a falta de cumprimento das orientações e investimento nas diretrizes do Manual de Controle dos Escorpiões favorecem a proliferação”, afirma.

Entre as espécies de maior importância médica está o escorpião-amarelo, Tityus serrulatus, capaz de se reproduzir por partenogênese, processo no qual as fêmeas geram descendentes sem a fecundação por machos. Essa característica favorece a rápida multiplicação e a expansão territorial da espécie. No Nordeste, Tityus stigmurus também se associa a acidentes de relevância para a saúde pública. “Essas espécies são sinantrópicas, pois se adaptam ao ambiente urbano e têm importância médica. Em algumas cidades, sua presença recorrente representa um desafio para o controle urbano”, observa a pesquisadora. “Escorpiões não são insetos, mas aracnídeos”, explica a pesquisadora. O Ministério da Saúde não recomenda o uso de inseticidas como estratégia de controle dos escorpiões, pois essa medida não substitui o manejo ambiental e pode não alcançar os abrigos ocupados pelos animais.

Na Bahia, levantamento divulgado em agosto deste ano, com base em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), apontou mais de 87 mil acidentes por escorpiões desde 2022. Vitória da Conquista, Jequié e Feira de Santana apareceram entre os municípios com maior número de registros. Embora o volume de casos seja elevado, a maior parte dos acidentes não evolui para formas graves. No Brasil, em 2025, 89% das ocorrências foram classificadas como leves. Ainda assim, crianças, sobretudo aquelas com menos de 10 anos, exigem atenção especial. Dos 265 óbitos registrados no País naquele ano, mais de 20% envolveram essa faixa etária. Segundo a Dra. Lira, o veneno escorpiônico atua sobre o sistema nervoso e, em situações graves, pode provocar manifestações cardiovasculares e respiratórias, inclusive edema agudo de pulmão. “Os acidentes são sempre potencialmente graves em crianças”, alerta. A especialista enfatiza que a avaliação em serviço de saúde deve ser imediata, e a indicação de soro antiescorpiônico segue a classificação clínica e os protocolos assistenciais.

O atendimento em unidade de saúde deve ocorrer o mais rápido possível. O soro antiescorpiônico é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em unidades de referência. Após uma picada, a orientação é lavar o local com água e sabão e procurar assistência médica. Não se recomenda fazer cortes, torniquetes, sucção da lesão ou aplicar substâncias sobre a pele. Uma imagem do animal, obtida sem risco, pode auxiliar a equipe de saúde. A tentativa de captura, no entanto, não deve expor outras pessoas ao acidente.

A prevenção inclui medidas contínuas dentro e no entorno das residências, por exemplo, manter quintais, depósitos e terrenos sem entulho, folhas, telhas, madeiras e materiais acumulados; acondicionar o lixo em recipientes fechados; reduzir a presença de baratas; vedar frestas em paredes, portas, janelas e passagens de tubulações; instalar dispositivos de vedação em ralos, pias e tanques; afastar camas e berços das paredes e impedir que roupas de cama encostem no chão; examinar calçados, roupas, toalhas e luvas antes do uso; utilizar luvas e calçados fechados ao manipular lenha, lixo, materiais de construção ou objetos armazenados.

Para a coordenadora do NOAP, a informação à comunidade representa um dos pilares da prevenção. “Ao encontrar um escorpião, a população deve procurar o setor de zoonoses do município, que pode orientar sobre a captura adequada do animal e as medidas de prevenção. Em caso de acidente, a recomendação é procurar atendimento de saúde imediatamente. Serviços de urgência, como o SAMU, e os Centros de Informações e Assistência Toxicológicas (CIATox) podem orientar o encaminhamento à unidade de referência, conforme a organização da rede local”, pontua. A organização da vigilância e da assistência também influencia o desfecho dos casos. A especialista também aponta a necessidade de os municípios divulgarem as unidades de referência para aplicação de soro antiescorpiônico e manterem a qualificação permanente das equipes de saúde para o diagnóstico, a classificação de gravidade e o tratamento adequado dos acidentes. A identificação precoce de sinais clínicos, o encaminhamento oportuno e o acesso aos soros antivenenos permanecem entre as medidas centrais para reduzir formas graves e mortes por escorpionismo.

Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.

Acesse o Boletim Epidemiológico: “Morbimortalidade causada por animais peçonhentos no Brasil | 2010-2024“

 

WhatsApp
Facebook
X
Telegram
Email

Gostou do conteúdo? Compartilhe com os colegas, pois a ciência precisa chegar mais longe!

Últimas notícias

plugins premium WordPress