COP30 impõe reforço na vigilância contra doenças infecciosas em estrangeiros e população local

Evento desafia sistema de saúde e exige respostas integradas diante da mobilidade global e do risco de disseminação de doenças em áreas com condições de vulnerabilidade
Com a intensa mobilidade internacional e as condições estruturais, ambientais, sociais e sanitárias na Amazônia brasileira, a conferência demonstra a importância do planejamento técnico e estratégico

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que ocorre em Belém (PA) até 21 de novembro, configura não apenas um marco diplomático e ambiental, mas também um desafio multissetorial que envolve energia, transporte, urbanismo, segurança, turismo e saúde pública. Ao sediar o maior fórum global de negociação climática, que reúne chefes de Estado, representantes de governos, cientistas, organizações internacionais e membros da sociedade civil, a capital paraense ganha destaque internacional como vitrine da sustentabilidade amazônica e da transição climática justa. Ao mesmo tempo, o evento impõe exigências ambientais, logísticas, urbanas e sanitárias, e evidencia o potencial da região como fonte de soluções para as mudanças do clima e para a saúde planetária.

A combinação entre aquecimento global, chuvas intensas associadas ao El Niño, mobilidade humana e exposição a patógenos emergentes transforma a COP30 em um possível hotspot de infecções, exigindo do sistema de saúde uma resposta integrada em vigilância, biossegurança e atendimento. A infectologista Dra. Tânia Chaves, coordenadora do Comitê de Medicina de Viagem da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), destaca a importância de aplicar as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde no planejamento de eventos de grande porte.

Segundo ela, encontros dessa dimensão demandam ações coordenadas de diversos setores. A preparação envolve segurança, transporte, mobilidade e ações em saúde, com vigilância epidemiológica, sanitária e ambiental. Hospitais ampliam leitos, enquanto laboratórios e centros de monitoramento em portos, aeroportos e fronteiras fortalecem a segurança sanitária. A comunicação também é estratégica, a imprensa tem papel de destaque ao informar com responsabilidade e combater a desinformação, fatores decisivos para o êxito do planejamento.

A gestão de riscos da conferência contempla áreas como Medicina Tropical, Medicina de Viagem e Saúde Global. De acordo com a Dra. Chaves, viajantes são considerados sentinelas na introdução de agentes infecciosos emergentes e reemergentes, atuando como vetores dinâmicos na transmissão de doenças. “O grande fluxo de pessoas de diferentes origens epidemiológicas pode intensificar a propagação de patógenos, propiciando a introdução de variantes virais e a reemergência de doenças antes controladas. Modelos epidemiológicos indicam que infecções respiratórias, como Influenza e Covid-19, além de doenças de transmissão hídrica e alimentar (DTHA), bem como e diarreias agudas (DDAs), tendem a registrar picos em ambientes de alta densidade populacional e ventilação precária”, pontua a infectologista.

Enquanto a COP30 reúne milhares de visitantes, a Amazônia enfrenta vulnerabilidades típicas de regiões tropicais. Condições de temperatura, umidade e regime de chuvas aumentam a proliferação do Aedes aegypti, Aedes albopictus e Culicoides paraensis, transmissores de arboviroses urbanas e amazônicas. Em 2024, o Brasil registrou cerca de 6,4 milhões de casos prováveis de dengue e aproximadamente 6 mil mortes. “Estudos climáticos apontam que o aquecimento global tende a elevar em até 20% o potencial de transmissão de dengue e Zika nas próximas décadas em cidades como Belém, devido às condições favoráveis ao desenvolvimento do vetor”, alerta a especialista. Em biomas, como o da capital paraense, as arboviroses configuram um risco adicional. O Aedes aegypti mantém a circulação sustentada dos quatro sorotipos de dengue (DENV-1 a DENV-4), além de Zika e Chikungunya. Já a malária, predominantemente por Plasmodium vivax e P. falciparum, persiste em áreas rurais, com baixo risco nas zonas urbanas centrais, incluindo polos turísticos.

Outro ponto de atenção é o sarampo, endêmico em várias partes do mundo, que pode ser reintroduzido por viajantes. Entre janeiro e setembro de 2025, a OMS registrou 360.321 casos suspeitos no mundo, com 164.582 confirmações em 173 países. As regiões mais afetadas são o Mediterrâneo Oriental (34%), a África (23%) e a Europa (18%). Nas Américas, foram 11.691 casos e 25 mortes em dez países. O Ministério da Saúde reforçou a vigilância contra a doença durante o evento. Dos 34 casos confirmados no Brasil em 2025, nove foram importados, 22 resultaram de contatos com infectados no exterior e três foram compatíveis geneticamente com vírus em circulação em outros países. Até o momento, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso estão qualificados como em surto de sarampo, e a cobertura vacinal irregular, inclusive em municípios amazônicos, eleva a possibilidade de reintrodução do vírus em regiões que já haviam alcançado a eliminação da doença.

Além do sarampo, infecções entéricas como hepatite A e febre tifóide podem emergir devido a falhas no abastecimento de água e na manipulação de alimentos, agravadas por inundações sazonais. “A vulnerabilidade não se restringe ao local do evento. Ela se estende a aeroportos, transportes coletivos, hotéis e espaços de convivência, criando ciclos de exposição e disseminação”, enfatiza a Dra. Chaves.

Entre as vulnerabilidades regionais, a doença de Chagas por via oral também preocupa. Associada ao consumo de açaí contaminado pelo Trypanosoma cruzi, a infeção requer vigilância reforçada durante o período da conferência. Símbolo cultural e econômico do Pará, o açaí traz desafios de segurança alimentar, sobretudo, durante a safra (agosto a dezembro), que coincide com a COP30. As altas temperaturas, a umidade e a presença de vetores silvestres aumentam o risco de contaminação da polpa, cuja produção artesanal demanda rigorosas medidas de higiene e controle. “O cuidado é fundamental para proteger a saúde de visitantes e moradores e preservar a imagem sanitária da Amazônia”, ressalta, ao reconhecer a necessidade de integrar produtores, comunidades e autoridades para garantir alimentos seguros e valorizar a tradição amazônica.

Inserida em um ecossistema complexo, com interfaces urbano-florestais e desigualdades em saneamento, água tratada e atenção primária, Belém amplia os desafios logísticos e sanitários da conferência. Ainda assim, o evento é visto como oportunidade para o Brasil demonstrar capacidade técnica e deixar legados estruturantes para a saúde pública. Na avaliação da Dra. Chaves, o recente Círio de Nazaré de 2025, que reuniu cerca de 2,5 milhões de pessoas em outubro, serviu como teste para o sistema de saúde local. O governo do Pará ativou o Centro Integrado de Operações em Saúde (CIOS), com 14 postos médicos 24 horas e apoio da Cruz Vermelha Brasileira. O Círio foi um ensaio para a logística da COP30, mostrando a importância do planejamento integrado.

Lições de eventos anteriores

Experiências anteriores, como os Jogos Olímpicos do Rio (2016), que registraram surtos contidos de Zika, e a Copa do Mundo (2014), fortalecem a necessidade de antecipação, comunicação transparente de riscos e cooperação internacional. Na COP30, a convergência entre mudanças climáticas, mobilidade e doenças emergentes eleva o escopo. Alterações ambientais modificam a ecologia de vetores e a distribuição geográfica de doenças, exigindo abordagens de Uma Só Saúde, que integrem saúde humana, animal e ambiental. “Preparar-se para um evento dessa magnitude é um exercício contínuo de saúde global. Proteger o viajante é também proteger a população local, um compromisso com a ciência, a prevenção e a cooperação internacional”, afirma.

Por fim, ela assinala que o desafio da COP30 vai além de garantir o retorno seguro dos participantes a seus países de origem, envolve também prevenir a introdução de doenças em Belém, como o sarampo. “A presença de delegações de diversas partes do mundo pode favorecer a reintrodução de infecções já controladas no Brasil. Por isso, além das medidas de vigilância nos fluxos de saída, é fundamental a inspeção em portos, aeroportos e fronteiras, verificar a situação vacinal dos viajantes e manter os serviços de saúde preparados para a detecção precoce de casos suspeitos. Prevenir tanto a exportação quanto a importação de agravos é um pilar essencial em eventos de massa, especialmente em regiões de alta relevância ambiental e social, como a Amazônia”, conclui.

Gostou do conteúdo? Compartilhe com colegas e ajude a fortalecer a ciência.

Últimas notícias

plugins premium WordPress