Pesquisa reforça o caráter silencioso da circulação do parasita em ambientes urbanos, padrão também observado em humanos e que dificulta o diagnóstico precoce da doença de Chagas
Entre 1,9 e 4,6 milhões de brasileiros vivem com infecção por Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas, uma das enfermidades tropicais negligenciadas de maior impacto em saúde pública no País. Parte dessas pessoas não sabe que está infectada. Um estudo publicado na revista científica Acta Tropica, intitulado “Canine seroepidemiology of Trypanosoma cruzi in socially vulnerable urban communities of Salvador, Brazil” , traz evidências de exposição de cães domésticos ao parasita em áreas urbanas de Salvador, na Bahia, utilizando esses animais como sentinelas da circulação do parasita. A pesquisa analisou 290 amostras de soro de cães de três bairros, Alto do Cabrito, Marechal Rondon e Pau da Lima. Nos dois primeiros, nove animais apresentaram anticorpos contra T. cruzi, o que corresponde a uma soroprevalência de 5,1% entre os cães avaliados nessas localidades. Em Pau da Lima, todos os 113 cães testados foram soronegativos. Embora os bairros sejam próximos geograficamente, os resultados indicam realidades epidemiológicas distintas e sugerem heterogeneidade intraurbana na exposição canina ao parasita, possivelmente relacionada à combinação entre condições de moradia, saneamento, dinâmica ambiental e contato com reservatórios sinantrópicos.
O estudo utilizou ensaios ELISA baseados em antígenos recombinantes quiméricos de T. cruzi. A escolha metodológica é relevante porque, em contextos nos quais outros tripanossomatídeos, incluindo Leishmania ssp., podem circular, testes sorológicos convencionais podem apresentar reações cruzadas e comprometer a interpretação dos resultados. Os antígenos recombinantes quiméricos são construídos a partir de sequências proteicas específicas do parasita, selecionadas por sua capacidade de discriminar anticorpos anti-T. cruzi daqueles produzidos contra outros agentes infecciosos. Essa estratégia busca aumentar a acurácia da classificação diagnóstica em cenários epidemiológicas complexos.
O Dr. Fred Luciano Neves Santos, pesquisador do Laboratório Avançado de Saúde Pública, chefe do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Biotecnologia e Epidemiologia de Doenças Infecciosas (GRUPIBE), do Instituto Gonçalo Moniz (IGM/Fiocruz Bahia), e autor correspondente do estudo, explica que os cães soropositivos eram animais mais velhos, com idades entre 5 e 15 anos e mediana de 8,5 anos. Apenas um animal soropositivo tinha 5 anos, enquanto os demais tinham mais de 5 anos. Esse padrão é compatível com exposição acumulada ao longo do tempo, e não necessariamente com um evento recente e isolado de infecção. Em termos epidemiológicos, os achados sugerem exposição prévia ao parasita nos bairros avaliados. “A presença de anticorpos em cães mais velhos sugere que o contato com o parasita pode ter ocorrido ao longo dos anos nesses ambientes, de forma silenciosa e não detecta pelas estratégias usuais de vigilância. A idade como fator associado à soropositividade também é descrita na literatura sobre doença de Chagas em populações expostas à transmissão vetorial. Nessas populações, a prevalência tende a aumentar com o avanço da idade, em razão da exposição cumulativa ao vetor ao longo da vida”, complementa.
Um dos pontos centrais do estudo é que nenhum dos nove cães soropositivos apresentou sinais clínicos compatíveis com doença de Chagas no momento da avaliação. Para o Dr. Neves Santos, esse dado chama atenção porque se aproxima de um padrão também observado em humanos. A doença de Chagas é marcada por uma longa fase crônica silenciosa. Após a infecção, o parasita pode permanecer por décadas no organismo sem manifestações clínicas evidentes. Em muitos casos, o diagnóstico só ocorre quando alterações cardíacas ou digestivas já estão estabelecidas. “O que o estudo observou nos animais guarda semelhança com o que acontece em milhões de pessoas infectadas por T. cruzi. Na fase crônica indeterminada, que corresponde a uma proporção expressiva dos casos crônicos (60%-70%), o paciente não apresenta sintomas nem alterações detectáveis em exames convencionais, como eletrocardiograma e exames de imagem. Pode permanecer assim por décadas até que, em uma parcela dos casos, evolua para formas clínicas da doença, especialmente a forma cardíaca, que pode incluir cardiomiopatia, arritmias e risco de eventos graves”, destaca o pesquisador. Esse percurso silencioso contribui para que a doença permaneça subdiagnosticada.
Questionado por que cães funcionam como sentinelas, o Dr. Neves Santos esclarece que cães domésticos que vivem em áreas urbanas com vulnerabilidade social podem atuar como indicadores sensíveis da exposição ambiental a T. cruzi. Diferentemente de pessoas, esses animais tendem a permanecer mais vinculados ao território onde vivem, embora possa circular em áreas próximas. Assim, a presença de anticorpos no sangue de um cão pode refletir exposição ocorrida no ambiente onde ele vive ou circula. Além disso, cães compartilham com seus tutores o espaço doméstico e peridoméstico, como quintais, frestas em paredes, abrigos improvisados, áreas com acúmulo de materiais e locais que podem oferecer condições para a presença de triatomíneos, conhecidos popularmente como barbeiros, chupões ou procotós. “Do ponto de vista operacional, isso transforma o cão em um instrumento complementar de vigilância. Ele acumula, no próprio organismo, o registro sorológico da exposição ao parasita ao longo do tempo, ajudando a identificar áreas onde a circulação de T. cruzi pode estar ocorrendo de forma silenciosa. Nessas localidades, a busca ativa por casos humanos torna-se necessária. É exatamente isso que estamos fazendo no momento, como desdobramento da pesquisa com os cães, e os primeiros achados em humanos reforçam a importância dessa estratégia”, acrescenta o pesquisador.
Mudança no perfil epidemiológico da doença de Chagas
Durante décadas, a doença de Chagas foi tratada principalmente como um problema rural, associado a moradias precárias e à presença de triatomíneos em áreas endêmicas do interior do País. Esse cenário tem se modificado com a urbanização, a expansão de áreas periféricas vulneráveis e a persistência de ciclos de transmissão envolvendo ambientes silvestres, peridomésticos e domésticos. Salvador, assim como outras capitais do Nordeste, concentra territórios marcados por vulnerabilidade social, saneamento inadequado e condições ambientais que podem favorecer o contato entre humanos, animais domésticos, reservatórios sinantrópicos e vetores. Estudos anteriores já documentaram a presença de triatomíneos infectados por T. cruzi em áreas urbanas de Salvador, o que reforça a necessidade de estratégias de vigilância adaptadas a esses contextos. De acordo com o pesquisador, a doença de Chagas representa um desafio para as políticas públicas, historicamente estruturadas em torno do controle vetorial em áreas rurais. Para ele, o estudo demonstra a necessidade de abordagens integradas, baseadas no conceito de Saúde Única, que considera a interdependência entre saúde humana, saúde animal e ambiente.
Além disso, a subnotificação ainda limita a resposta em saúde pública. O Ministério da Saúde estima que entre 1,9 milhão e 4,6 milhões de pessoas vivam com a infecção por T. cruzi no Brasil, a maioria sem diagnóstico. “A inclusão da doença de Chagas crônica na lista nacional de notificação compulsória, em 2020, e a disponibilização da ficha de notificação da doença de Chagas crônica na plataforma e-SUS Notifica, em 2023, representaram avanços institucionais importantes. Ainda assim, a subnotificação permanece expressiva. O principal obstáculo está na própria história natural da doença, em sua fase mais frequente, a infecção pode permanecer assintomática por longos períodos. Sem sintomas, muitas pessoas não buscam atendimento. Sem suspeita clínica ou epidemiológica, a investigação diagnóstica raramente ocorre. Por isso, a busca ativa de casos utilizando ferramentas diagnósticas, como testes rápidos, é tão importante para dar visibilidade às pessoas que desconhecem sua condição”, enfatiza. No mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 6 milhões e 7 milhões de pessoas estejam infectadas por T. cruzi. Embora a doença esteja concentrada nas Américas, casos têm sido registrados em países não endêmicos da Europa, América do Norte, Oceania e Ásia, em razão dos fluxos migratórios de populações latino-americanas.
Apesar de assinalar a importância dos cães como sentinelas em ambientes urbanos, o Dr. Neves Santos reconhece que o número de amostras, embora adequado para um estudo exploratório, não permite generalizações amplas para toda a cidade de Salvador. Outra limitação, segundo ele, é a ausência de dados entomológicos, ou seja, de levantamentos diretos sobre a presença de triatomíneos nos bairros avaliados. O pesquisador atenta que a identificação de cães soropositivos indica exposição ao parasita e sugere a possibilidade de circulação de T. cruzi no território, mas não substitui o mapeamento entomológico sistemático. Esse levantamento é necessário para confirmar quais espécies estão presentes, em que densidade e em quais condições de contato com a população humana. “A integração entre sorologia animal, entomologia e inquérito sorológico humano nas mesmas áreas é o passo seguinte natural desta linha de pesquisa e poderia transformar um sinal preliminar em uma base sólida para orientar ações de vigilância. O que o estudo oferece, neste momento, é exatamente isso, um alerta. Em pelo menos dois bairros de Salvador, há evidência sorológica de exposição de cães ao parasita, sem sinais clínicos aparentes nos animais avaliados. A pergunta que fica, e que a pesquisa não responde sozinha, é se há pessoas nesses mesmos bairros com infecção por T. cruzi sem diagnóstico, e quanto tempo ainda vai levar até que o silêncio clínico de hoje se traduza, em parte desses casos, em complicações cardíacas ou digestivas de amanhã”, conclui.
Por fim, o pesquisador lembra que cães infectados por T. cruzi não transmitem diretamente o parasita aos seres humanos. O convívio com esses animais não representa risco de transmissão do parasita por contato, saliva, urina, fezes, lambidas ou proximidade. A infecção ocorre, principalmente, por meio do contato com fezes ou urina de triatomíneos infectados, conhecidos como barbeiros, ou por outras vias já estabelecidas, como transmissão oral, congênita, transfusional ou por transplante. “Portanto, os cães não devem ser vistos como ameaça, mas como vítimas da mesma cadeia de exposição ambiental que pode afetar humanos. Além de funcionarem como sentinelas da presença do parasita no território, eles também podem adoecer, desenvolver alterações cardíacas associadas à infecção e necessitam de avaliação veterinária e acompanhamento clínico contínuo quando identificados como soropositivos”, finaliza o Dr. Neves Santos.



