Alterações imunológicas e metabólicas desencadeadas pela infecção viral criaram condições favoráveis para uma das complicações oportunistas mais graves observadas no período
Enquanto hospitais ao redor do mundo concentravam esforços para enfrentar os casos graves de Covid-19, outra ameaça começou a surgir entre pacientes hospitalizados. Em diferentes países, médicos passaram a registrar uma infecção fúngica invasiva capaz de atingir olhos, cérebro, pulmões e outros órgãos. O fenômeno ganhou destaque especialmente na Índia, que chegou a registrar mais de 47 mil casos de mucormicose associada à Covid em 2021, o que levou especialistas a descrever a situação como uma epidemia dentro da própria pandemia.
Uma revisão sistemática intitulada “COVID-19-associated mucormycosis: the rise and fall of an epidemic within a pandemic – a systematic review of 1,482 cases (2019–2025)” , publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), reconstrói agora a trajetória desse evento ao analisar 1.482 casos de mucormicose associados à Covid-19 descritos entre 2019 e 2025. O trabalho reuniu informações provenientes de 39 estudos realizados em diferentes países e oferece um panorama abrangente sobre fatores de risco, manifestações clínicas, abordagens terapêuticas e desfechos da doença.
Os dados apontam que a infecção atingiu predominantemente homens, que representaram quase 70% dos pacientes descritos, com idade média de 52 anos. Embora tenham sido identificados registros em países como Egito, Irã, Estados Unidos, Turquia, Malásia, Itália, Iraque e Brasil, a Índia concentrou mais de 90% dos casos analisados. A gravidade do quadro fica evidente nos desfechos clínicos reunidos pela revisão. Apesar do uso de antifúngicos e da realização de cirurgia em mais da metade dos pacientes, um em cada quatro casos evoluiu para óbito. Entre os 1.482 pacientes analisados, 370 evoluíram para óbito, enquanto 960 apresentaram recuperação clínica.
Segundo a autora correspondente do estudo, Dra. Fernanda Machado Fonseca, a análise permite compreender como a interação entre a infecção viral, doenças crônicas preexistentes e determinadas estratégias terapêuticas criou condições favoráveis para o desenvolvimento da mucormicose durante a pandemia. “A mucormicose associada à Covid-19 tornou-se uma complicação relevante durante os momentos mais críticos da pandemia, sobretudo em populações com elevada prevalência de diabetes e ampla utilização de corticosteroides”, ressalta a pesquisadora.
A mucormicose é causada por fungos da ordem Mucorales, microrganismos amplamente dispersos no ambiente. Eles podem ser encontrados no solo, em matéria orgânica em decomposição, em vegetais, madeira, frutas e até mesmo no ar. Em circunstâncias normais, a inalação desses esporos não representa risco para a maioria das pessoas, uma vez que mecanismos de defesa presentes nas vias respiratórias impedem a instalação da infecção. Durante a pandemia, entretanto, muitos pacientes passaram a reunir condições que alteravam profundamente esse equilíbrio biológico. A própria infecção pelo SARS-CoV-2 foi associada a importantes alterações imunológicas, incluindo redução de linfócitos circulantes, desregulação de respostas inflamatórias e comprometimento da função de células responsáveis pela defesa contra agentes infecciosos.
Além das alterações imunológicas, a Covid-19 foi associada a mudanças metabólicas que favoreceram a proliferação dos fungos. Segundo a Dra. Fonseca, pacientes infectados podiam apresentar hiperglicemia, acidose metabólica, aumento dos níveis de ferritina e alterações no metabolismo do ferro. Esse conjunto de alterações criava condições favoráveis para a germinação dos esporos e a invasão dos tecidos pelos Mucorales. O estudo também aponta que a redução da atividade de determinadas células de defesa contribuía para ampliar a suscetibilidade às infecções oportunistas.
O ferro aparece como um dos elementos centrais dessa relação. Os fungos dependem desse nutriente para crescer e se multiplicar. Em indivíduos saudáveis, a maior parte do ferro circula ligada a proteínas, limitando seu aproveitamento pelos microrganismos. Já em pacientes com diabetes descompensada e alterações metabólicas associadas à Covid-19, há aumento da disponibilidade de ferro livre, condição que favorece a proliferação fúngica.
A revisão mostra ainda que o diabetes mellitus esteve presente em mais de 78% dos pacientes analisados. Nenhuma outra condição apareceu com frequência semelhante. Hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, enfermidades renais, doenças hepáticas e doenças pulmonares crônicas também foram registradas, mas em proporções menores. A Dra. Fonseca atenta que a combinação entre diabetes mellitus e Covid-19 criou um quadro particularmente propício ao desenvolvimento da infecção. Segundo ela, o aumento dos níveis de glicose compromete a atividade de células de defesa e favorece mecanismos que permitem aos fungos aderir ao endotélio vascular e invadir tecidos profundos.
Outro componente importante foi o uso de corticosteroides. Mais de 64% dos pacientes incluídos na revisão receberam medicamentos como dexametasona ou metilprednisolona durante o tratamento da Covid-19. Embora esses fármacos tenham desempenhado papel importante na redução da mortalidade em pacientes com insuficiência respiratória grave, também estão associados à imunossupressão e ao aumento da glicemia. A pesquisadora destaca que os corticosteroides podem reduzir a capacidade do organismo de conter a germinação e multiplicação dos esporos, favorecendo a progressão da infecção, especialmente quando utilizados em pacientes com diabetes mellitus ou controle glicêmico inadequado.
Segundo a pesquisadora, a gravidade da mucormicose está relacionada à sua capacidade de invadir vasos sanguíneos. Após penetrar nos tecidos, o fungo pode aderir ao endotélio vascular, provocar trombose, reduzir o suprimento sanguíneo local e desencadear necrose. Esse mecanismo explica por que a doença frequentemente evolui de forma rápida e pode comprometer estruturas vitais. “Não por acaso, as formas clínicas mais comuns envolveram estruturas da face e do crânio. A apresentação rinorbitária respondeu por 40,7% dos casos descritos, seguida pela forma rinorbito-cerebral, presente em 33,9% dos pacientes. Também foram observadas infecções envolvendo seios da face, pulmões, trato gastrointestinal, rins, mandíbula, pele e formas disseminadas. Os sintomas refletiam essa distribuição anatômica. Febre, cefaleia, edema facial, edema ocular, queda da pálpebra, protrusão dos olhos e alterações dos movimentos oculares estão entre as manifestações mais frequentes. Em situações avançadas, a infecção podia alcançar o sistema nervoso central, aumentando substancialmente o risco de complicações graves”, acrescenta.
Outro aspecto apresentado na revisão é o grau de complexidade do tratamento. Quase metade dos pacientes descritos nos estudos recebeu anfotericina B, considerada a principal terapia antifúngica para a mucormicose invasiva. Formulações lipossomais do medicamento foram amplamente utilizadas por apresentarem menor toxicidade renal e melhor perfil para tratamentos prolongados. Mesmo assim, o tratamento medicamentoso isolado muitas vezes não foi suficiente. Mais de 55% dos pacientes necessitaram de procedimentos cirúrgicos para remoção dos tecidos acometidos. Para a pesquisadora, a necessidade frequente de intervenção cirúrgica demonstra a agressividade da infecção e a importância do diagnóstico precoce.
Embora os números revelem a magnitude do problema durante os anos mais críticos da pandemia, a autora enfatiza que foi identificada uma mudança expressiva após 2022. Dados epidemiológicos complementares analisados na revisão mostram que a ocorrência da mucormicose associada à Covid-19 sofreu queda acentuada em diferentes regiões do mundo. A Índia, que havia registrado mais de 47 mil casos em 2021, passou a registrar número muito menor de ocorrências anuais nos anos seguintes. Europa, Oriente Médio e América Latina não relataram surtos em 2024 e 2025. A Dra. Fonseca destaca que essa redução pode estar relacionada a uma combinação de fatores, incluindo a ampliação da vacinação contra a Covid-19, o aprimoramento do manejo clínico dos pacientes, o uso mais criterioso de corticosteroides e o melhor controle glicêmico.
Entretanto, segundo a autora, os dados disponíveis não permitem estabelecer relações causais definitivas entre essas medidas e a queda da ocorrência da doença. Para ela, o episódio deixou um legado importante para a medicina. Mais do que uma complicação específica da Covid-19, a mucormicose expôs como doenças infecciosas emergentes podem interagir com condições crônicas altamente prevalentes, como o diabetes mellitus, aumentando riscos e produzindo quadros clínicos complexos. Também reforçou a necessidade de vigilância permanente para infecções oportunistas em pacientes imunossuprimidos e a importância do equilíbrio entre benefícios e riscos de terapias imunomoduladoras. “Embora essa emergência sanitária tenha perdido intensidade, a experiência acumulada durante a pandemia continua relevante. O controle metabólico rigoroso, o reconhecimento precoce dos sinais clínicos e o acesso rápido ao tratamento permanecem como elementos fundamentais para reduzir a mortalidade associada a uma infecção que continua representando risco importante para populações em situação de vulnerabilidade”, finaliza.
Confira a revisão “COVID-19-associated mucormycosis: the rise and fall of an epidemic within a pandemic – a systematic review of 1,482 cases (2019–2025)” publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0504-2025.



