
A implantação de grandes obras de infraestrutura hídrica costuma provocar transformações significativas nos territórios onde se estabelecem. Alterações ambientais, reconfiguração de atividades produtivas e deslocamento de populações passam a compor um novo cenário, com impactos diretos sobre a dinâmica de doenças associadas à água. No Nordeste brasileiro, o Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF), considerado o maior empreendimento hídrico do País, tornou-se também objeto de atenção da saúde pública, especialmente em relação à esquistossomose.
Um estudo publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT) intitulado “Distribution of Biomphalaria sp. and other limnic mollusks in the state of Ceará: a potential effect of the São Francisco River Transposition Project” (https://doi.org/10.1590/0037-8682-0316-2024), descreve, com base em levantamento de campo, a distribuição de moluscos límnicos, em especial caramujos do gênero Biomphalaria, hospedeiros intermediários do Schistosoma mansoni, em áreas do estado do Ceará diretamente influenciadas pela transposição. A pesquisa analisou corpos d’água localizados nos municípios de Brejo Santo, Jati e Mauriti, ao longo do eixo Meta 2N do projeto, região marcada pela instalação de reservatórios, canais e vilas produtivas rurais destinadas ao reassentamento de famílias removidas pelas obras.
O Dr. Fernando Schemelzer de Moraes Bezerra, um dos autores, explica que o estudo foi realizado em março de 2019 e adotou desenho epidemiológico descritivo e transversal. Foram avaliados 21 corpos d’água no entorno das vilas produtivas Ipê, Descanso e Vassouras. A seleção dos pontos considerou um raio de até 2,5 quilômetros das áreas habitadas, abrangendo açudes, lagoas, canais e trechos de riachos utilizados para lavagem de roupas, pesca, dessedentação de animais e outras atividades cotidianas. Ao todo, os pesquisadores coletaram 765 exemplares de Biomphalaria, presentes em 85,7% dos locais analisados. A identificação morfológica indicou a predominância de uma única espécie, Biomphalaria straminea, reconhecida como hospedeira intermediária do parasito causador da esquistossomose no Brasil. Outros gêneros de moluscos também foram registrados, como Melanoides, Drepanotrema, Physa e Pomacea, além de bivalves, compondo um cenário de diversidade malacológica típico de ambientes aquáticos artificiais e temporários.
Apesar da ampla presença dos vetores, os exames laboratoriais não identificaram cercárias de S. mansoni nos caramujos coletados. Foram observadas apenas larvas de outros trematódeos, sem relevância direta para a esquistossomose. Ainda assim, de acordo com critérios técnicos do Ministério da Saúde, oito dos 21 corpos d’água avaliados foram classificados como de alto potencial para transmissão da doença. A classificação levou em conta fatores como facilidade de acesso, frequência de uso humano, tipo de atividade desenvolvida, presença de caramujos planorbídeos e características físicas da água, como fluxo lento ou estagnado.
Segundo o Dr. Bezerra, a ausência do parasito no momento da coleta não elimina o risco epidemiológico. “O que se observa é a consolidação de um cenário ambiental favorável à transmissão. A presença disseminada de Biomphalaria straminea em ambientes intensamente utilizados pela população local indica que as condições para a transmissão estão estabelecidas. A introdução do parasito depende de fatores adicionais, como a migração de pessoas infectadas e o contato frequente com esses corpos d’água”, ressalta.
O estudo detalha ainda que a maioria das coleções hídricas analisadas apresentou características favoráveis à manutenção dos caramujos, como águas paradas ou de fluxo lento, pH próximo da neutralidade, temperaturas elevadas e predominância de ambientes artificiais, a exemplo de açudes e reservatórios. Essas condições decorrem, em grande parte, das modificações ambientais associadas à transposição, que alteraram o regime hídrico e favoreceram o acúmulo de matéria orgânica e vegetação aquática.
Outro elemento destacado é a dimensão social do risco. As vilas produtivas rurais instaladas pelo PISF concentram populações reassentadas, muitas delas oriundas de áreas com histórico de esquistossomose. “O uso intensivo dos corpos d’água próximos às residências, associado a limitações de saneamento básico e acesso irregular aos serviços de saúde, evidencia os determinantes sociais da doença. A transposição não atua de forma isolada. Ela se soma a contextos de vulnerabilidade já existentes”, observa o Dr. Bezerra, ao acrescentar que migração, reassentamento e mudanças nos modos de vida alteram padrões de exposição e exigem vigilância contínua.
Para o pesquisador, a vigilância integrada, associada à atenção primária à saúde, educação sanitária e gestão ambiental, aparece como eixo central para a redução de riscos em territórios submetidos a grandes intervenções hídricas. “Projetos dessa magnitude modificam não apenas a paisagem, mas também os determinantes sociais e ambientais da saúde. O acompanhamento dessas áreas permite antecipar cenários e orientar ações de controle. A experiência brasileira mostra que grandes obras podem redefinir o mapa de doenças endêmicas. O desafio consiste em reconhecer esses sinais precocemente e agir antes que a transmissão se estabeleça”, atenta.
Embora B. straminea apresente menor eficiência na transmissão do parasito quando comparada a outras espécies, como B. glabrata, sua elevada resistência à dessecação e capacidade de adaptação a ambientes instáveis explicam sua ampla distribuição no Nordeste. A esquistossomose permanece como uma das doenças parasitárias de maior relevância em saúde pública no Brasil. O ciclo de transmissão depende da presença simultânea do parasito Schistosoma mansoni, de hospedeiros intermediários e do contato humano com coleções hídricas contaminadas. Alterações ambientais que favorecem a proliferação desses moluscos, associadas à mobilidade populacional, historicamente contribuíram para a expansão da endemia, associada à pobreza e às desigualdades no acesso à água e ao saneamento, em áreas anteriormente consideradas livres da doença.
Confira o artigo “Distribution of Biomphalaria sp. and other limnic mollusks in the state of Ceará: a potential effect of the São Francisco River Transposition Project” publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0316-2024.



