
Com trajetória consolidada na pesquisa em doenças tropicais e passagem pela presidência da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), o médico e pesquisador Dr. Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda foi nomeado Diretor do Special Programme for Research and Training in Tropical Diseases (TDR), programa especial de pesquisa e treinamento vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS). A nomeação foi formalizada pelo Diretor-Geral, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, em janeiro. O mandato tem início previsto para março e marca a segunda vez que um pesquisador brasileiro assume a direção do programa, o primeiro foi o médico e biofísico Carlos Morel, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
O TDR atua como instrumento estratégico no apoio à pesquisa em doenças tropicais negligenciadas, no fortalecimento de capacidades científicas e na tradução de evidências em diretrizes e políticas de saúde pública, em articulação com co-patrocinadores como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Banco Mundial. A trajetória profissional do Dr. Lacerda foi construída majoritariamente no Brasil, com atuação destacada na região amazônica, onde desenvolveu pesquisas em malária e outras doenças infecciosas e exerceu papel relevante no enfrentamento da crise sanitária da Covid-19 no Amazonas, um dos estados mais impactados pela pandemia no País.
A nomeação ocorre em um contexto de redefinição das prioridades globais em saúde, com maior atenção às doenças tropicais, ao fortalecimento de capacidades científicas em países de baixa e média renda e à integração entre pesquisa, políticas públicas e sistemas de saúde. Para saber mais sobre o assunto, a assessoria de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) entrevistou o Dr. Marcus Lacerda.
Confira a entrevista na íntegra.
SBMT: Qual o seu entendimento sobre o papel institucional do TDR no sistema de governança da OMS e na agenda global de pesquisa em doenças tropicais?
Dr. Marcus Lacerda: Há 50 anos, o TDR lidera a agenda de pesquisas em doenças tropicais, como um programa especial independente, mas vinculado à OMS. Isto permite a integração com outras direções da OMS, possibilitando que os resultados das pesquisas sejam incorporados às principais recomendações e consensos mundiais.
SBMT: De que maneira o programa estrutura e orienta as prioridades de pesquisa e capacitação em países de baixa e média renda?
Dr. Marcus Lacerda: Por meio de um mecanismo multilateral, a governança do TDR é dividida entre três distintos comitês, nos quais estão representados países de baixa e média renda, patrocinadores e instituições. Isto garante que as prioridades sejam definidas de forma coletiva e colegiada.
SBMT: Considerando sua experiência no Brasil e na Amazônia, quais aspectos da pesquisa em malária e outras doenças tropicais negligenciadas podem oferecer subsídios para a atuação global do TDR?
Dr. Marcus Lacerda: Especialmente a experiência do Brasil com a implementação de insumos, medicamentos e vacinas em saúde pública. Hoje, o foco do TDR é ampliar a pesquisa em implementação.
SBMT: Quais ferramentas o programa utiliza para promover a formação e o fortalecimento de capacidades científicas locais, especialmente em regiões endêmicas?
Dr. Marcus Lacerda: O TDR oferece cursos de formação presenciais e online, além de financiar algumas pesquisas estratégicas. Possui também programas de formação na área de pesquisa clínica, que contam com a parceria da indústria farmacêutica e dos governos dos países.
SBMT: Como o senhor avalia os desafios e oportunidades associados à tradução de evidências científicas em diretrizes de saúde pública e em políticas nacionais?
Dr. Marcus Lacerda: Cada vez mais, diante dos cortes observados em pesquisa sobre doenças da pobreza, é preciso que a incorporação de novas ferramentas de controle e eliminação das doenças esteja mais próxima da decisão dos países. Isso exige uma rediscussão de pipelines de desenvolvimento e múltiplos parceiros.
SBMT: Como equilibrar as demandas por pesquisas de alto impacto com a necessidade de responder a problemas emergentes e persistentes em doenças tropicais?
Dr. Marcus Lacerda: É preciso ter um olhar estratégico para respostas mais rápidas no enfrentamento de doenças emergentes, bem como daquelas intimamente ligadas às mudanças climáticas globais. Não há mais como trabalhar de forma individual, sem tratar as doenças de populações negligenciadas como fenômenos interligados, que constituem as sindemias.
SBMT: Qual é a sua expectativa à frente da direção do TDR?
Dr. Marcus Lacerda: Inicialmente, fortalecer as estruturas de captação de recursos, cujas fundações estão ameaçadas em tempos de guerras e de unilateralismo na tomada de decisões. Em seguida, cumprir metas já pactuadas de um programa aprovado que deve alcançar o ano de 2029.
SBMT: Gostaria de acrescentar algo?
Dr. Marcus Lacerda: A presença do Brasil no TDR é uma conquista do País, da nossa Ciência e de todos os que se mantiveram coesos em tempos duros da terrível pandemia de Covid-19.



