11º Fórum Social fortalece agenda estratégica sobre DTNs no MEDTROP 2026

Evento satélite do congresso reúne sociedade civil, pesquisadores e gestores públicos para discutir estratégias de enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas no Brasil

Em sua 11ª edição, Fórum Social reforça a urgência de ampliar políticas públicas, financiamento científico e estratégias de enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas

Brasília recebe, entre os dias 16 e 19 de agosto, o 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP 2026). Integrando a programação científica e social do encontro, o 11º Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas reafirma sua trajetória como um dos principais espaços de diálogo entre movimentos sociais, comunidade científica e poder público em torno das doenças tropicais negligenciadas (DTNs), grupo de enfermidades que ainda afeta milhões de brasileiros e permanece diretamente associado às desigualdades sociais.

Reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como importantes desafios de saúde pública, as DTNs acometem principalmente populações em situação de maior vulnerabilidade social, com maior concentração em áreas das regiões Norte e Nordeste, além de territórios periféricos e rurais do Centro-Oeste e Sudeste. Entre elas estão hanseníase, doença de Chagas, leishmanioses, esquistossomose, filariose linfática e tracoma. Essas doenças mantêm relação estreita com a ausência de saneamento básico, moradia precária, insegurança alimentar e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Estimativas apontam que aproximadamente 28,9 milhões de brasileiros estejam expostos anualmente às doenças tropicais negligenciadas, evidenciando a magnitude desse desafio para a saúde pública nacional.

Apesar dos desafios persistentes, o Brasil ocupa posição estratégica no enfrentamento global das doenças tropicais negligenciadas. O País reúne uma das maiores redes públicas de saúde do mundo, instituições de pesquisa de referência internacional e profissionais reconhecidos na área da Medicina Tropical. Também se destaca por iniciativas voltadas ao controle, à eliminação ou à redução da carga dessas enfermidades, como o Programa Brasil Saudável, que busca integrar políticas públicas para enfrentar os determinantes sociais associados à manutenção dessas doenças.

Criado com o objetivo de ampliar a participação social nos debates da Medicina Tropical, o Fórum consolidou, ao longo de mais de uma década, um espaço permanente de articulação entre pessoas afetadas, pesquisadores, profissionais da saúde, estudantes, organizações da sociedade civil e gestores públicos. Mais do que um evento, o Fórum tornou-se um processo contínuo de diálogo, mobilização e construção coletiva em defesa do direito à saúde. Nesse período, acompanhou avanços e limitações das políticas nacionais voltadas às DTNs, produziu cartas abertas, fortaleceu redes de mobilização e contribuiu para ampliar a visibilidade dessas doenças na agenda sanitária brasileira.

Além de reunir esse público, o Fórum tem como característica central o protagonismo das pessoas afetadas pelas doenças tropicais negligenciadas. Para Pollyane Medeiros, jornalista, liderança da causa e uma das organizadoras do evento, esse diferencial fortalece a aproximação entre a produção científica e as necessidades concretas dos territórios. Nossa ideia é que pesquisadores e estudantes compreendam que não somos apenas espectadores das ações que impactam nossa qualidade de vida. Queremos participar ativamente da construção das soluções e contribuir para que outras pessoas não vivenciem a negligência que muitos de nós enfrentamos. Ela destaca que um dos principais desafios para a realização do Fórum continua sendo a viabilização da participação das lideranças sociais de diferentes regiões do país. “Nós não nos sustentamos sozinhos. Para que o Fórum aconteça, contamos com o apoio do Ministério da Saúde, do MEDTROP e de instituições parceiras como a NHR Brasil, a Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi) e Médicos Sem Fronteiras (MSF)”, relata.

A edição de 2026 mantém esse compromisso e organiza sua programação em eixos que envolvem atenção integral à saúde, ciência, tecnologia e inovação, educação em saúde, direitos humanos, acesso a diagnóstico e tratamento, além do protagonismo da sociedade civil na construção das políticas públicas. O modelo do Fórum busca aproximar experiências vividas nos territórios das evidências produzidas pela pesquisa científica e das estratégias formuladas pela gestão pública. Segundo Medeiros, o evento se consolidou como um canal estratégico de interlocução entre diferentes atores envolvidos no enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas. “O Fórum construiu, ao longo desses anos, um ambiente permanente de diálogo entre quem vivencia o impacto dessas doenças nos territórios e os profissionais responsáveis pela produção de conhecimento, assistência e formulação de políticas públicas. Essa aproximação fortalece respostas mais integradas e conectadas às necessidades reais da população”, afirma.

Ela destaca ainda que o debate ocorre em um contexto marcado por profundas transformações ambientais e sociais. Mudanças climáticas, urbanização desordenada, migração populacional e persistência das desigualdades ampliam os desafios relacionados à transmissão e ao controle dessas enfermidades. Ao mesmo tempo, embora o Brasil apresente avanços em áreas como diagnóstico e oferta de tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ainda enfrenta obstáculos importantes na vigilância ativa, na interrupção da transmissão, quando aplicável e no acompanhamento de pessoas com formas crônicas ou sequelas associadas às DTNs. “Por exemplo, a abordagem da Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental, ganha cada vez mais relevância nas discussões sobre doenças tropicais negligenciadas e fortalece a construção de estratégias mais abrangentes de enfrentamento”, acrescenta Medeiros.

Segundo os organizadores, a atuação do Fórum vai além da discussão científica e busca fortalecer ações voltadas ao combate ao preconceito e ao estigma, à ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento, ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), ao desenvolvimento de novos medicamentos, testes diagnósticos e tecnologias capazes de reduzir o impacto dessas doenças na vida das pessoas afetadas. A integração do Fórum à programação do MEDTROP também amplia o intercâmbio entre produção científica e mobilização social. Organizações como o Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN) e associações de pacientes, especialmente ligadas à doença de Chagas e à hanseníase, participam ativamente da construção das atividades e levam ao debate experiências concretas relacionadas às barreiras de acesso ao cuidado e às demandas das comunidades afetadas. Segundo Medeiros, o próprio Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas surgiu a partir das articulações construídas dentro do Fórum. “O MNDN é fruto desse espaço de diálogo permanente. Trata-se de uma conquista construída por muitas mãos e que hoje contribui para fortalecer a participação social e ampliar a visibilidade das doenças tropicais negligenciadas no Brasil”, assinala. Para ela, essa interação demonstra a compreensão de que o enfrentamento dessas enfermidades depende não apenas de evidências técnicas, mas também do conhecimento acumulado pelas populações que convivem historicamente com essas condições. “O Fórum ajuda a dar visibilidade a agravos que, justamente por atingirem grupos socialmente vulnerabilizados, muitas vezes permanecem à margem das prioridades globais em saúde”, diz.

O formato híbrido, incorporado nas edições mais recentes, ampliou a participação de profissionais, pesquisadores e lideranças comunitárias de diferentes regiões do País. Nesta edição, o Fórum vai contar, pelo segundo ano consecutivo, com um estande na área de convivência do MEDTROP, promovendo a troca de experiências entre pessoas afetadas, estudantes, pesquisadores, profissionais da saúde, gestores públicos e instituições parceiras. A edição de 2026 acontece em um momento em que o Brasil e outros países do Sul Global discutem metas internacionais de eliminação, controle e redução da carga das DTNs, em consonância com compromissos estabelecidos pela OMS e pelas agendas globais de desenvolvimento sustentável. Relatórios recentes apontam avanços importantes na redução de casos graves e na ampliação do acesso ao tratamento em alguns agravos, mas ainda revelam lacunas relacionadas ao diagnóstico precoce, vigilância epidemiológica, ao acesso contínuo ao cuidado e, quando aplicável, à interrupção da cadeia de transmissão. Para João Victor Pacheco Kersul, presidente do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN) e integrante da organização do Fórum, o evento reafirma um princípio fundamental da participação social: o protagonismo das pessoas diretamente afetadas pelas doenças tropicais negligenciadas na construção das soluções para os desafios que enfrentam. “O Fórum representa um importante exercício democrático. É um espaço onde as pessoas afetadas têm voz, protagonismo e a oportunidade de contribuir para a formulação de propostas, políticas públicas e estratégias de enfrentamento. Defendemos que nenhuma decisão sobre nossas vidas seja tomada sem a participação daqueles que convivem diariamente com essas enfermidades. O princípio do ‘Nada sobre nós sem nós’ continua sendo uma das bases fundamentais da nossa atuação”, afirma.

Segundo Kersul, a parceria construída ao longo dos anos entre o Fórum e o MEDTROP tem sido essencial para aproximar diferentes atores envolvidos no enfretamento das doenças tropicais negligenciadas. “Ao longo dos anos, a relação entre o Fórum e o MEDTROP se fortaleceu, tornando-se um exemplo de aproximação entre ciência, participação social e construção coletiva do conhecimento. Nesta edição, ampliamos novamente as oportunidades de interação entre pesquisadores, estudantes, profissionais de saúde e pessoas afetadas por essas doenças, complementa. A expectativa para esta edição é ampliar ainda mais a participação social, fortalecer a integração entre a comunidade científica e os territórios, estimular a produção de conhecimento comprometida com as necessidades da população e contribuir para a construção de políticas públicas mais eficazes e inclusivas.

“O enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas exige mais do que medicamentos e serviços de saúde. Exige o combate às desigualdades sociais, investimentos em saneamento básico, educação, pesquisa e desenvolvimento tecnológico, além da valorização da experiência e do conhecimento das pessoas afetadas. O 11º Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas reafirma, portanto, seu compromisso com uma sociedade mais justa, inclusiva e saudável, onde ciência, democracia e participação social caminhem juntas na construção de soluções capazes de transformar realidades e garantir dignidade para todos”, conclui Kersul.

Mais informações: https://medtrop2026.com.br/

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