RSBMT publica artigo sobre coinfecção entre leishmaniose tegumentar e HIV/AIDS na América do Sul

Dos 159 casos de coinfecção entre leishmaniose tegumentar americana e HIV notificados nas Américas em 2024, 132 ocorreram no Brasil
N183 BANNER 5

Entre os estudos incluídos na revisão, a espécie Leishmania (Viannia) braziliensis foi a mais frequentemente identificada em pessoas com coinfecção por leishmaniose tegumentar americana e HIV/AIDS

A coinfecção entre leishmaniose tegumentar americana (LTA) e HIV permanece pouco documentada na América do Sul, embora as duas infecções ocorram simultaneamente em diversos países da região. Um artigo de revisão sistemática publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), intitulado “Clinical and epidemiological aspects of coinfection with American tegumentary leishmaniasis and HIV/AIDS in South American countries: a systematic review”, reuniu estudos divulgados entre 1987 e 2025 e identificou predominância de relatos clínicos isolados, recorrência de manifestações cutâneas e mucosas e lacunas que dificultam dimensionar a frequência, a evolução clínica e os desfechos dessa associação. O estudo analisou 32 publicações, com dados de 417 participantes da Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Paraguai e Peru. O Brasil concentrou 24 dos 32 estudos incluídos, o equivalente a 75% do total. Entre as pesquisas brasileiras, o maior número de trabalhos foi produzido no Rio de Janeiro, seguido por Amazonas e Bahia.

A busca inicial recuperou 2.304 artigos nas bases Biblioteca Virtual em Saúde, LILACS, Scopus, PubMed e Web of Science. Após a exclusão de duplicatas e a avaliação de títulos, resumos e textos completos, 32 publicações atenderam aos critérios definidos pelos autores. Relatos de caso corresponderam a 21 estudos, ou 65,6% das publicações incluídas. A seleção também reuniu quatro estudos transversais, três séries de casos, três estudos caso-controle e um estudo de coorte. Segundo a autora correspondente, Dra. Juliana Maria Trindade Bezerra, a composição da literatura disponível limita análises mais amplas sobre frequência, fatores associados e desfechos da coinfecção. “A revisão sistemática identificou registros de coinfecção em diferentes países sul-americanos, mas também apontou a fragmentação das informações disponíveis. A predominância de relatos de caso não permitiu estimativas mais consistentes sobre a magnitude desse problema de saúde, embora esses relatos tenham possibilitado a descrição clínica detalhada da coinfecção”, afirma.

A leishmaniose tegumentar americana é transmitida pela picada de fêmeas de flebotomíneos infectadas. Nas Américas, a forma cutânea é endêmica em 19 países. Dados citados no artigo indicam que Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia e Venezuela concentraram 82% dos casos de leishmaniose cutânea e mucosa notificados na região em 2024. Naquele ano, foram registrados 9.810 casos no Brasil, 6.002 na Colômbia e 5.323 no Peru. Também em 2024, as Américas registraram 159 casos de coinfecção entre LTA e HIV. O Brasil respondeu por 132 (83%) dessas notificações. “A coinfecção por HIV e Leishmania requer atenção clínica e epidemiológica específica, uma vez que a imunodepressão associada ao HIV compromete mecanismos da resposta imune celular importantes para o controle da infecção por Leishmania. Essa alteração pode modificar a apresentação clínica da leishmaniose tegumentar, incluindo a ocorrência de manifestações atípicas ou disseminadas, além de apresentar implicações para o diagnóstico, o tratamento, o acompanhamento da resposta terapêutica e o risco de recidivas”, destaca a Dra. Bezerra.

Nos estudos revisados, a maior proporção de casos ocorreu entre homens. Vinte e uma publicações relataram exclusivamente participantes do sexo masculino, enquanto quatro descreveram apenas mulheres. Em seis estudos, havia participantes de ambos os sexos. A faixa etária mais frequente foi de 20 a 40 anos, correspondendo a 50% dos registros com essa informação, seguida pelo grupo de 40 a 60 anos, com 29,4%. Nenhum dos estudos caracterizou escolaridade ou renda dos participantes. Para a autora, essa ausência limita a compreensão dos determinantes sociais relacionados à exposição ao vetor, ao diagnóstico oportuno, ao acesso aos serviços de saúde e à continuidade do cuidado. A lacuna se soma à falta de informações sobre desfechos em parte relevante das publicações; oito estudos não informaram a evolução clínica dos pacientes.

A confirmação da leishmaniose e da infecção pelo HIV também apresentou heterogeneidade. Em 29 estudos, correspondentes a 90,6% do total, o diagnóstico da leishmaniose tegumentar foi estabelecido com base em critérios clínicos. A cultura para Leishmania foi relatada em seis estudos, e a intradermorreação de Montenegro, em quatro. Para o HIV, os exames mais citados foram ELISA, immunoblotting, também conhecido como Western blot, e imunofluorescência indireta. Em nove estudos, contudo, não houve detalhamento dos testes empregados para detectar a coinfecção. A ausência reduz a comparabilidade entre os achados e expõe limites na padronização dos registros clínicos e epidemiológicos. “A qualidade das informações registradas nos serviços e nos estudos interfere diretamente na capacidade de reconhecer padrões clínicos, qualificar o diagnóstico e organizar respostas de vigilância. A coinfecção demanda articulação entre a atenção às leishmanioses e a assistência às pessoas que vivem com HIV”, alerta a Dra. Bezerra.

A espécie mais frequentemente identificada foi Leishmania (Viannia) braziliensis, registrada em 16 estudos, metade das publicações selecionadas. Também foram identificadas Leishmania (Viannia) guyanensis, em cinco estudos, e Leishmania (Leishmania) amazonensis, em três. A identificação das espécies tem relevância clínica e epidemiológica, uma vez que as formas tegumentares podem apresentar lesões cutâneas, mucosas, disseminadas ou difusas, com apresentação clínica e resposta terapêutica variáveis. Lesões e áreas anatômicas comprometidas foram descritas em 26 estudos. A recorrência da leishmaniose tegumentar foi relatada em 14 publicações, ou 43,7% do total. Em pacientes imunossuprimidos, esse achado merece atenção, pois pode dificultar o manejo clínico e exigir acompanhamento prolongado. Febre e perda de peso estiveram entre os sintomas sistêmicos mais relatados nos estudos que apresentaram descrição clínica. Diarreia, cefaleia, tosse, disfagia, dor abdominal e dor de garganta também constaram nos registros. A Dra. Bezerra ressalta que esses resultados exigem interpretação cautelosa. “Parte dessas manifestações pode estar associada a infecções oportunistas, a outras condições clínicas relacionadas ao HIV ou a efeitos adversos dos tratamentos. Por isso, a avaliação clínica precisa considerar o conjunto das condições de saúde de cada paciente”, observa.

As infecções oportunistas foram descritas em 16 estudos. Toxoplasmose, incluindo a forma cerebral, e candidíase oral estiveram entre as mais frequentes. Tuberculose, herpes-zóster, pneumonias bacterianas e fúngicas, criptococose, paracoccidioidomicose e outras condições também foram relatadas. A coexistência dessas doenças evidencia a complexidade do cuidado de pessoas imunossuprimidas com manifestações de leishmaniose. Os tratamentos mais mencionados para a leishmaniose foram o antimoniato de meglumina, citado em 18 estudos, e a anfotericina B, nas formulações lipossomal ou desoxicolato, presente em 17. A pentamidina apareceu em quatro trabalhos. Para o HIV, as publicações relataram esquemas antirretrovirais contendo tenofovir, lamivudina, ritonavir, efavirenz, zidovudina e lopinavir. Seis estudos não informaram tratamento para nenhuma das duas condições.

Oito estudos registraram óbito como desfecho. Os óbitos relatados ocorreram em homens e concentraram-se na faixa etária de 50 a 60 anos. Como a maior parte dos dados provém de relatos de caso, a autora destaca que os dados não permitem estimar mortalidade ou risco de óbito na população com coinfecção. A avaliação metodológica, realizada com instrumentos do Joanna Briggs Institute (JBI), indicou, segundo a classificação adotada pelos autores, predomínio de risco moderado de viés entre os relatos de caso. O resultado acompanha o perfil da literatura disponível. Embora os registros clínicos contribuam para descrever apresentações incomuns, espécies envolvidas e desafios terapêuticos, faltam estudos capazes de estimar associação, incidência, prognóstico e fatores relacionados aos desfechos.

“A ampliação de estudos com dados clínicos, laboratoriais e epidemiológicos mais completos pode contribuir para qualificar o cuidado dos pacientes e aprofundar o conhecimento sobre a dinâmica da coinfecção na América do Sul. A integração entre vigilância epidemiológica, diagnóstico laboratorial, serviços de referência em leishmanioses e acompanhamento das pessoas que vivem com HIV é necessária para aprimorar a identificação dos casos, monitorar a resposta terapêutica e ampliar o acesso à assistência”, conclui a Dra. Bezerra.

Confira o artigo “Clinical and epidemiological aspects of coinfection with american tegumentary leishmaniasis and HIV/AIDS in South American countries: a systematic review, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT): https://doi.org/10.1590/0037-8682-0128-2026.

Esta reportagem reflete exclusivamente a opinião do entrevistado.

WhatsApp
Facebook
X
Telegram
Email

Gostou do conteúdo? Compartilhe com os colegas, pois a ciência precisa chegar mais longe!

Últimas notícias

plugins premium WordPress